Nas intermináveis discussões sobre futebol – paixão maior do planeta –, muitos debatedores costumam usar um argumento que a meu ver é falho demais e carece de sustentação lógica quando o tema das discussões são jogadores fora de série.
Assim, quando alguém quer diminuir o feito de um atleta campeão, o fora de série como disse acima, condutor de uma equipe na competição, é comum ouvirmos o seguinte argumento oco: mesmo sem Fulano de Tal (o fora de série em questão), o time seria campeão, pois era bom demais.
Já cansei de ouvir isso de gente inteligente, com vasta cultura esportiva, mas que é turrona ao extremo e não cede nem um milímetro sequer de suas convicções, exatamente porque, como disse, fica cego quando discute.
Gastei três parágrafos para falar de Kevin Garnett (foto à direita, Getty Images) e do confronto Boston x Chicago.
Ninguém discute a qualidade do Celtics. Para muitos – inclusive para mim –, o time era favorito ao título desta temporada. Um timaço com KG, Paul Pierce, Ray Allen, Rajon Rondo e companhia bela.
Mas KG se contundiu no joelho e está ausente destes embates contra o Bulls. Antes de a série começar, muitos – eu entre eles – disseram: mesmo sem Garnett o Boston bate o Chicago com facilidade.
O time é forte demais para, mesmo sem sua grande estrela, se complicar diante de uma equipe jovem, sem experiência e dirigida por um treinador sabidamente obtuso.
Fui irônico no texto de apresentação deste confronto: se Kevin Garnett não puder jogar os playoffs, o Celtics terá um pouco mais de trabalho para eliminar o Bulls (…) Previsão: Boston 4-1 sem Garnett; com KG, 4-0.
Quebrei a cara; muitos, como eu, também.
A série será decidida apenas no sétimo jogo, amanhã à noite, em Boston, às 21h de Brasília. Quer dizer: o vencedor o fará com o score de 4-3.
Resumindo: Kevin Garnett é a diferença desse time. O que a mim fica claro é que jogadores como Paul Pierce, Ray Allen e Rajon Rondo, se KG não estiver em quadra, não funcionam em sua totalidade.
Perguntei no referido texto de apresentação dos playoffs: será que Pierce e Allen conseguirão se impor sem a presença intimidadora de KG? Respondi: na série contra o Chicago, sim.
Mas não é o que está acontecendo, especialmente porque, no momento de defender, não o fazem com qualidade sem a sustentação de Garnett. KG é a referência defensiva do Boston; e emocional também.
Vejam, pois, a diferença que um jogador faz. Ou melhor, que um fora de série faz.
Portanto, pensem bem antes de afirmar: mesmo sem Fulano de Tal, o time seria campeão, pois era bom demais.
KG não está jogando e o Boston, fortíssimo candidato ao título, está se enrolando diante do Chicago, um time jovem, sem experiência e dirigido por um treinador sabidamente obtuso.
EMOÇÃO
Ontem, três prorrogações.
Boston e Chicago fazem a série mais emocionante em toda a história da NBA. Em seis jogos, sete prorrogações; o maior número em toda a história da liga.
Ontem, chegou-se ao cúmulo de três.
Paul Pierce poderia ter evitado tudo isso se tivesse sido mais eficiente nos momentos decisivos. Errou o arremesso derradeiro a quatro segundos do final do tempo normal, deixando o placar igual em 101 pontos e possibilitando a primeira prorrogação.
Voltou a errar o último chute do primeiro tempo extra com a buzina disparando pela última vez com sua bola no ar e que terminou chocando-se contra o aro inimigo.
Finalmente, com o jogo empatado em 123 pontos, na terceiro e última prorrogação, Paul Pierce perdeu a bola para Joakim Noah (foto abaixo, Reuters). Não se contentando com a bobagem feita, aumentou-a ao fazer uma falta no pivô do Bulls no momento da bandeja.
Isso possibilitou um ataque de três pontos, uma vez que Noah fez a cesta e converteu o lance de bonificação, levando os anfitriões a uma vantagem de três pontos (126-123) a 35 segundos do final desta terceira prorrogação.
Foi o lance, a meu ver, que determinou a vitória do Chicago. Tem que ser debitado na conta de Pierce.

DESTAQUES
Ray Allen – ele de novo! – foi o nome do Celtics. Anotou nada menos do que 51 pontos em quase uma hora na quadra.
Seus números: 18-32 (56.2%) nos arremessos, sendo que acertou nada menos do que nove das 18 bolas de três arremessadas na partida (50%); nos lances livres, 6-7 (85.7%).
Do lado do Chicago, John Salmons. O ala do Bulls terminou a partida com 35 pontos em uma hora de jogo.
Seus números: 13-22 (59%) nos arremessos, sendo que acertou cinco em nove dos tiros triplos (55.5%); nos lances livres, 4-4 (100%).
ÚLTIMO
Como disse acima, amanhã, 21h de Brasília, acontece o último jogo da série. Local: TD Banknorth Garden de Boston.
Favorito? O Celtics, pois jogará em casa e diante de seus fanáticos torcedores, aqueles mesmos que costumam chacoalhar ônibus adversários quando a delegação adversária está chegando e partindo do local da partida – e a NBA nada faz para punir a franquia, dando as costas para esses atos de vandalismo.
Como disse acima, o Chicago é um time jovem. Penso que esta juventude poderá pesar demais nesta hora crucial.
Sem contar que o trio de árbitros vai assoprar o apito mais favoravelmente ao time da casa – o que é normal em todo o planeta, pois seres humanos são suscetíveis a pressão.
CAFAJESTE?
Puxa vida, a gente tem admirado demais o trabalho de Rajon Rondo. Tem exaltado seus feitos, ressaltado sua evolução, enfim, dando voz a um jogador que, a meu ver, é subestimado pela imprensa norte-americana.
Mas, para minha surpresa, por detrás daquela carinha de anjo parece esconder-se um cafajeste.
O soco que ele acertou em Brad Miller nos segundos finais da partida de Boston, deixou-me em dúvida se foi intencional ou não. A NBA entendeu que não e por isso evitou a punição.
Sem histórico algum de confusão – pelo menos que eu me lembre –, Rajon foi beneficiado exatamente por isso quando foi julgado pela liga.
Ontem, no entanto, no final do primeiro quarto, enroscou-se com Kirk Hinrich e lançou o jogador como se estivesse se livrando de algo contagioso que enroscava-se em seu corpo.
Hinrich partiu para cima de Rajon e, não fosse a presença de um árbitro, os dois teriam proporcionado uma cena comum nos jogos de hóquei: troca de socos.
Por que Rajon comportou-se daquela maneira com Hinrich, um jogador limpo? O que acontece com o armador do Boston?
Vamos esperar para concluirmos se tudo não passa de tensão pela frustração diante de uma série que era dada como barbada e que se avolumou além da conta ou se realmente por detrás daquela carinha de anjo esconde-se um cafajeste.
FIM
Houston e Orlando classificaram-se ontem para as semifinais da NBA em suas respectivas conferências (à esquerda, Rashard Lewis e Stan Van Gundy, do Magic, em foto AP).
O time texano ao bater o Portland dentro de seu Toyota Center por 92-76; a equipe da Flórida ao ganhar do Sixers, na Filadélfia, por 114-89.
A vitória do Rockets obtida no Oregon, no primeiro jogo da série, por 108-81, foi determinante para este resultado final. O Blazers, outro time jovem nesta fase, não teve estofo para recuperar a vantagem de quadra.
Ontem, sucumbiu pela terceira vez na casa inimiga. Desta vez, vítima de sua pobreza ofensiva: apenas LaMarcus Aldridge (26) e Brandon Roy (22) tiveram duplo dígito na pontuação.
Do lado do Houston, Ron Artest liderou o time em quadra com 27 pontos. Yao Ming, que quebrou o pé na temporada passada e não participou dos playoffs, fez um jogo sólido também: 17 pontos e dez rebotes.
A vitória na série foi a primeira desde 1997. Traduzindo, havia sete playoffs que o time era barrado na primeira rodada.
Terá pela frente o Lakers nas semifinais. Os números do confronto neste campeonato são desanimadores: em quatro jogos, quatro derrotas.
O Lakers fez uma média de 102.8 pontos por partida, enquanto que o Rockets ficou na casa dos 89.8. Preocupante para os vermelhinhos, animador para os amarelinhos.
E emblemático porque o Houston tem em sua defesa (especialmente em Artest e Shane Battier, os dois marcadores de Kobe Bryant) o ponto alto de seu time. Será que o Lakers conhece o caminho das pedras diante deste inimigo?
Vamos esperar pelo começo deste confronto, que promete ser um dos mais disputados, a meu ver, apesar da ampla vantagem do Lakers na fase de classificação.
Quanto ao Orlando, mesmo sem Dwight Howard, suspenso pela NBA pela cotovelada desferida em Sam Dalembert, o time venceu fora de casa e fechou o confronto em 4-2.
Se lembramos que o Sixers fez 2-1 na série com uma vitória em casa no terceiro confronto, a gente constata que o Magic fez uma corrida de partidas de 3-0.
Ou seja: ganhou os três últimos prélios, classificando-se para as semifinais.
A vitória de ontem foi incontestável: 25 pontos de diferença. Foi, também, a pior derrota do Philadelphia desde os playoffs de 1970, quando perdeu para o Milwaukee por 156-120.
Qual foi o segredo do Orlando no jogo de ontem, sem poder contar com seu Super-Homem?
Rashard Lewis e Rafer Alston.
Lewis marcou 29 pontos, enquanto Alston cravou 21 tentos e dez assistências.
Mas não dá para escantear J. J. Redick, que anotou 15 pontos (seu recorde em playoffs), tendo encestado cinco bolas de três.
Ah, ia me esquecendo: o pivô polonês Marcin Gotart marcou 11 pontos, pegou 15 rebotes e fez quatro desarmes.
Enfim, como se vê, o Orlando foi um time equilibrado.
Aguarda pelo desfecho da série entre Boston e Chicago. Terá dois dias a mais para descansar – e isso é muito bom.
NOITADA
Hoje à noite, apenas uma partida: Miami x Atlanta. O jogo será na Florida e começa às 21h de Brasília.
O Hawks lidera a série por 3-2. Uma vitória do time da Geórgia e ele estará apto para enfrentar o Cleveland, que descansa merecidamente por tudo o que tem feito até agora neste campeonato.