HOJE COMEMORA-SE 25 ANOS DA MAIOR FAÇANHA DO NOSSO BASQUETE
Hoje completa-se 25 anos da maior façanha do nosso basquetebol. Que me perdoem Wlamir Marques, Amaury Pasos e aquela geração extraordinária e maravilhosa que conquistaram duas medalhas de bronze olímpicas. Mas o feito de Oscar Schmidt, Marcel de Souza e Ary Vidal transcendeu fronteiras.
Hoje faz 25 anos que a seleção brasileira foi a Indianápolis e bateu os EUA na final dos Jogos Pan-americanos por 120-115.
Os que têm idade, como eu, e presenciaram o feito, sabe o que aquilo significou. Os que não têm e estão interessados na história, se sensibilizam, reconhecem o fato e se encantam igualmente com a efeméride. Os que não viram e são obtusos, perdem a chance de viver, mesmo que nas páginas da história, a grandiosidade daquele feito.
Há que se frisar dois pontos nessa história de gloriosa: 1) naquela época os Jogos Pan-americanos tinham uma grande dimensão e não era encarado como nos dias de hoje, como uma competição menor e apenas preparatória para Mundiais e Olimpíadas; 2) naquela época, os EUA jogavam com seus jogadores universitários todas as competições na qual participavam, fossem Pan-americanos, Mundiais e/ou Olimpíadas. A garotada bastava para que eles continuassem soberanos.
Até que chegou aquele 23 de agosto de 1987.
Pela primeira vez na história os EUA perderam dentro de casa. Pela primeira vez na história os EUA tomaram mais de cem pontos em uma partida (não importa se dentro ou fora de casa).
O feito, repito, é grandioso, o maior da história do nosso basquete. A Market Square Arena estava lotada. Saía gente pelo ladrão. Todos esperavam ver mais uma vitória do time norte-americano, que tinha a comandá-lo David Robinson, que dispensa apresentação, e Danny Manning, um ala que jogava em Kansas e que foi considerado um dos maiores desde sempre na história dos Jayhawks, campeão universitário em 1988 e MOP do Final Four e que jogou no Clippers e no Phoenix, entre outros. Além deles, havia Willie Anderson (que depois foi para o San Antonio), Rex Chapman (Charlotte), Pervis Ellison (Boston) e Pooh Richardson (Indiana).
O primeiro tempo terminou com os EUA na frente em 68-54. Esses 14 pontos de diferença subiram para 20 no começo do segundo tempo. Isso mesmo, 20 e no segundo tempo! Aí Oscar e Marcel resolveram barbarizar a defesa norte-americana, defesa, diga-se, que sempre foi orgulho dos gringos.
Oscar tinha anotado apenas 11 pontos no primeiro tempo. No segundo, anotou 35! Encaixou nada menos do que seis bolas de três e terminou a contenda com 46 pontos, tendo acertado 7-15 (46,7%) nas bolas de três. Marcel, seu fiel escudeiro, repetiu Oscar e marcou apenas 11 pontos na etapa inicial. Na final, adicionou mais 20 e terminou a partida com 35. Os dois, juntos, anotaram 55 dos 66 pontos do Brasil no segundo tempo. Isso mesmo, você não leu errado: o Brasil enfiou 66 pontos goela abaixo dos norte-americanos no segundo tempo, graças, principalmente, às bolas de três. Ao final da partida, o Brasil tinha anotado 39 pontos nas bolas triplas e os EUA apenas seis.
Naquela época, fazia apenas cinco anos que a linha dos três pontos tinha sido adicionada ao jogo de basquete. Era ainda inexplorada por muitos. Mas Marcel e principalmente Oscar tinham uma relação idílica com o arco e sempre que acabam os treinos eles ficavam horas a fio arremessando, arremessando e arremessando. E Ary Vidal, nosso treinador, assistindo a tudo, deu corda para os dois e incentivou-os a fazer esse tipo de jogo, pois ele percebeu que aquilo poderia ser um diferencial a nosso favor. E os tiros de três ficaram sendo a marca registrada principalmente na carreira de Oscar Schmidt.
Aqui cabe a abertura de um parêntese: muitos imputam a Oscar o momento negro de nosso basquete, período de sua aposentadoria até a chegada de Moncho Monsalve como treinador de nosso selecionado. Segundo muitos, Oscar foi o responsável único pela cultura do “crazy shots”. Visão míope, obviamente. Oscar não tem nada a ver com isso. Oscar fazia o que tinha que fazer; ou seja, usava sua melhor arma para vencer adversários e vencer na vida. Os maiores culpados pela cultura do “crazy shots” em nosso basquete foram nossos treinadores que deixaram nossos jogadores fazerem isso, principalmente nossos treinadores da base, que deveriam ter evitado isso e não evitaram. E no adulto, muitos deles, sem pulso, não conseguiram também inibir esse tipo de ação em quadra. Fecho aqui o parêntese, que, na verdade, nem deveria ser um parêntese, mas objeto de muita discussão para que, a bem da história e para justiçar uma figura genial como é a de Oscar Schmidt, esse assunto deveria ser discutido com mais profundidade e não pela superficialidade que nos caracteriza como povo.
Fechado o parêntese, há que se dizer que os jogadores brasileiros eram bem mais experientes que a garotada norte-americana. Oscar e Marcel contavam, com 29 anos e jogavam na Itália. Cadum Guimarães, um dos nossos armadores, tinha 28. Cadum, aliás, quando o Brasil começou a reagir na partida, ficava provocando os americanos. Foi um mestre no “trash talk”. Desestabilizou a armação adversária, principalmente Pooh Richardson. Ele gesticulava para os adversários, pedindo para eles virem pra cima; arremessarem. Eles vinham e se atrapalhavam; arremessavam e erravam.
Foi uma festa. Foi muito emocionante e divertido ter visto tudo aquilo. Ver a cara frustrada de David Robinson ao final da partida, ele que anotou 20 pontos e pegou dez rebotes e nada pôde fazer para evitar aquele momento de constrangimento diante de toda a nação norte-americana. Foi emocionante ver Oscar e Marcel caídos na quadra, chorando e gritando: “Ganhamos!” Foi hilário ver Maury levar um dos maiores tombos de sua vida, ele que estava em pé na mesa da cronometragem e achando que ela se prolongava, pisou em falso e foi para o chão. Maury, aliás, recuperava-se de uma cachumba e não participou da competição.
Esse divertimento, essa alegria, até hoje é lembrada e comemorada por todos e por aquele grupo de pessoas diferenciadas. Eles merecem viver o que ainda vivem. A riqueza de nosso basquete passa por esses personagens que num primeiro momento pareciam ser quixotescos, mas que ao final da história transformaram-se em super-heróis.
HERÓIS
Nossos heróis foram:
Jorge Guerrinha
Marcel de Souza
Oscar Schmidt
Gerson Vitallino
Israel Andrade
(quinteto titular)
Cadum Guimarães
Maury de Souza
Paulinho Villas-Boas
Pipoka
Silvio Malvezi
André Stoffel
Rolando Ferreira
Ary Vidal (treinador)
José Medalha (assistente técnico)
Notas relacionadas:
- HÁ 16 ANOS O BRASIL SE CLASSIFICAVA PARA OS JOGOS OLÍMPICOS DE ATLANTA
- ELEITA A SELEÇÃO BRASILEIRA DE TODOS OS TEMPOS
- O DIA EM QUE OSCAR VIROU AS COSTAS PARA A SELEÇÃO BRASILEIRA















