O DIA EM QUE EARVIN TORNOU-SE MAGIC JOHNSON
A temporada 1979/80 da NBA foi marcada por muitos fatos interessantes e importantes.
O Chicago Bulls jogou sua última temporada pela Conferência do Oeste, bem como o Milwaukee Bucks. Na seguinte, ambos mudaram-se para o Leste. Houston Rockets e San Antonio Spurs fizeram viagem inversa: deixaram o Leste e foram para o Oeste.
Foi exatamente nesta temporada que o Jazz saiu de New Orleans e transferiu-se para Salt Lake City. Passou a se chamar Utah Jazz.
Esta foi também a temporada que a NBA adotou a linha dos três pontos, que era muito popular na ABA, a outra liga de basquete profissional dos EUA, que foi incorporada pela NBA em 1976.
Mas o que marcou mesmo esta temporada foi a chegada de dois jogadores que causariam um grande impacto nos anos seguinte: Larry Bird e Magic Johnson.
DECLÍNIO 
O Celtics vivia encalacrado por um grande ponto de interrogação. John Havlicek, último dos remanescentes da dinastia que assombrou a NBA nos anos 1960, oito vezes campeão com a franquia e MVP das finais de 1974, aposentara-se ao final da temporada 1977/78.
Nela, o Celtics, já sem a força do passado e com seu grande jogador com as pernas cansadas, nem sequer se classificou para os playoffs. Repetiu a dose na seguinte para desespero de seus fãs, acostumados com títulos temporada sim e temporada também.
Se no campeonato finalizado em 1978 a campanha foi 32 vitórias e 50 derrotas, no seguinte, foi pior: 29 vitórias e 53 derrotas.
A luz no fim do túnel veio com a chegada de Larry Bird. Logo em seu primeiro ano, foi eleito “Rookie of the Year” e conduziu o Celtics a uma campanha de 61 vitórias e 21 derrotas. A melhor da NBA.
Foi o cestinha do time com média de 21,3 pontos por jogo.
DESAFIO
Magic chegou ao Lakers com duas difíceis missões: ser o condutor em quadra de um time que não ganhava um campeonato desde 1972 e fazer de Kareem Abdul-Jabbar novamente campeão.
Kareem tinha vencido seu primeiro e único título em 1971, em sua segunda temporada na NBA. Vestia a camisa 33 do Milwaukee Bucks e jogava ao lado de Oscar Robertson. Juntos, lideram o Milwaukee no massacre em 4 a 0 diante do Baltimore Bullets, que se transformaria em Capital Bullets, Washington Bullets e finalmente em Washington Wizards.
Kareem ficou mais quatro campeonatos em Wisconsin. Voltou à final em 1974, mais foi dobrado pelo Boston em 4 a 3.
Ao final do campeonato seguinte, transferiu-se para o Lakers.
Foram mais quatro anos de seca. Mesmo sendo um dos melhores jogadores da NBA naquele momento, Kareem não conseguia fazer do Lakers um time campeão.
Nem nas finais Kareem conseguia levar o time. Foram quatro temporadas tentando, mas sem obter sucesso. Em sua primeira, o Lakers nem sequer chegou aos playoffs. Na seguinte, perdeu a final para o Portland por 4 a 0 e depois foi batido pelo Seattle duas vezes: 2 a 1 nas semifinais de 1978 e 4 a 1 na mesma fase no ano seguinte.
Foi então que Magic chegou. Chegou e mudou a cara do Lakers.
PLAYOFFS
Com Magic em quadra, o Lakers fez uma campanha com 60 vitórias e 22 derrotas. A melhor do Oeste; a segunda melhor da liga, atrás apenas do Boston de Larry Bird.
O Lakers era outro time.
Naquela época, o vencedor da conferência entrava direto nas semifinais dos playoffs. O Celtics varreu o Houston, enquanto que o Lakers fez 4 a 1 no Phoenix.
Nas finais de conferência, todavia, o Boston de Larry Bird sucumbiu diante do Philadelphia de Julius Erving, o Dr J. Foi um massacre: 4 a 1.
Enquanto isso, o Lakers repetia o marcador diante do Seattle, devolvendo a humilhante derrota das semifinais do ano anterior.
Philadelphia e Lakers decidiriam o título da temporada 1979/80 da NBA.
INÍCIO
Magic Johnson fez seu primeiro treino com o Lakers já no outono de 1979. Estava deslumbrado com o time e com a NBA.
Nos treinamentos, corria e se empenhava como se estivesse nos playoffs.
“Earvin está correndo como um jovem gamo (buck em inglês)”, comentou Norm Nixon, um dos veteranos do time. Pronto! O apelido pegou. Magic ainda não era Magic e Earvin tansformou-se em Buck para seus companheiros.
O início, no entanto, foi embaraçoso para Magic. O time estreou diante do Clippers, em San Diego. Sim, o Clippers era de San Diego antes de ir para Los Angeles.
Magic estava nervosíssimo. Quando o Lakers entrou em quadra e Magic pegou a bola para fazer uma bandeja, parte do aquecimento, ele caiu de cara no chão. Tropeçou na calça do macacão, que não amarrou direito por conta da ansiedade.
Jogadores — inclusive do Lakers — e torcedores se esborracharam de rir. Constrangido, Magic tentou fazer o mesmo, mas era difícil.
O constrangimento foi em rede nacional, pois a CBS, canal aberto dos EUA que transmitia a temporada, escolheu exatamente Clippers x Lakers como primeira partida a ser exibida.
O Lakers venceu o Clippers em San Diego graças a uma assistência de Magic para Kareem que acabou com um gancho. Foi sua primeira das 60 vitórias na temporada.
SHOW
Em “Minha Vida” (Ediouro, fora de catálogo), sua autobiografia, Magic escreveu: “Se os meus primeiros minutos como um jogador do Lakers foram um desastre total, o último jogo de minha temporada de estreia mais do que compensou. Para ser franco, a partida final contra o Philadelphia foi provavelmente o melhor desempenho de minha vida; e foi, com toda certeza, o mais dramático”.
E foi mesmo; dramático e exuberante.
APREENSÃO
Kareem era a referência do Lakers. Estava jogando muita bola e comandava o Lakers nas finais diante do Sixers. Tinha média de 33 pontos por partida.
O time angelino vencia a série por 3 a 2. A sexta partida estava marcada para uma sexta-feira à noite, 16 de maio, na Filadélfia. Se o Sixers empatasse o confronto, o jogo decisivo seria em Los Angeles, pois o Lakers, como vimos, fez a segunda melhor campanha da temporada, atrás apenas do Boston.
A série estava empatada em 2 a 2 e o quinto confronto tinha o Forum de Englewood como palco. Kareem, uma vez mais, estava acabando com a partida e encantando a todos.
Foi então que o pivô do Lakers sofreu uma torção no tornozelo, na metade do terceiro quarto. Teve de sair de quadra; foi direto para o vestiário.
O silêncio no ginásio foi sepulcral. Os torcedores do Lakers não podiam acreditar. Será que o destino vai nos fazer vice-campeões novamente?, pensaram eles.
O Lakers tinha um histórico de nove vice-campeonatos, sendo que o último título, como vimos, tinha sido conquistado em 1972, num time que tinha Jerry West, Wilt Chamberlain, Gail Goodrich e Elgin Baylor.
Kareem, no entanto, voltou no último quarto. Mesmo lesionado, anotou 14 pontos e o Lakers venceu por 108 a 103.
CONSAGRAÇÃO
Jack Curran, médico do Lakers, pouco antes do embarque do time para a Filadélfia visando a sexta partida da série, chamou a todos, inclusive o técnico Paul Westhead, e informou-os: Kareem não faria parte da delegação. Contundido, Cap, como Kareem era chamado pelos companheiros, ficaria em Los Angeles, em tratamento, resguardando-se para uma possível sétima partida.
“Vamos precisar que você jogue de pivô”, disse Westhead para Magic, assim que o armador pegou seu tíquete de embarque. “Não tem problema, joguei como pivô no ‘high school’ (ensino médio no Brasil)”, respondeu Magic.
Assim que entrou no avião, Magic sentou-se exatamente na poltrona que era de Kareem. Ela ficava no lado esquerdo do avião e tinha mais espaço para acomodar as pernas — e as de Magic eram bem grandes.
“Não tenham medo, E.J. está aqui”, disse Magic para os companheiros.
“Todos riram, mas eu não estava brincando”, contou Magic.
Já na Filadélfia, os repórteres, de uma maneira geral, falavam mais do sétimo jogo do que da partida que aconteceria em algumas horas. Sem Kareem, poucos acreditavam que o Lakers pudesse vencer.
“O Philadelphia acha que este jogo já está liquidado, mas podemos tirar proveito disso”, afirmou Magic para os companheiros, no vestiário. “Podemos conquistar a vitória, porque eles têm um problema: a obrigação de ganhar. Mas só conseguiremos isso se entrarmos no jogo acreditando que somos capazes de vencer”.
Sem Kareem e com Magic como pivô, o Lakers entrou com Michael Cooper no quinteto titular. Coop, como era chamado, era um ala-armador que marcava pra burro. E era rápido.
A rapidez foi uma das armas que o Lakers apresentou para vencer o Sixers, que estava acostumado a jogar contra um adversário que atuava de maneira cadenciada, concentrando todo seu jogo em Kareem.
“Sem Kareem, não podíamos nos dar ao luxo do jogo de meia quadra. Teríamos que jogar na quadra inteira”, disse Magic.
Dito e feito. Com a bola nas mãos, Magic imprimiu um ritmo de jogo que o Sixers não esperava. O Lakers abriu 7 a 0.
Quando o Philadelphia compreendeu o jogo do Lakers, igualou a partida. No segundo quarto chegou a abrir oito pontos de vantagem.
Sixers x Lakers parecia Santos x Flamengo. O primeiro tempo terminou 60 a 60.
Magic era um tormento para os adversários. Billy Cunningham, técnico do Sixers, não sabia o que fazer para marcar Magic Johnson. Revezou os armadores Maurice Cheeks (hoje assistente técnico do OKC) e Lionel Hollins (técnico do Memphis) em Magic, mas não deu certo. Tentou Dr. J, mas também não surtiu efeito. Colocou o ala-pivô Bob Jones e o resultado não apareceu.
No terceiro quarto, o Lakers fez uma corrida de 14 a 0 e fechou o período com dez pontos de vantagem. “Podíamos sentir o sabor do título”, disse Magic, que emendou: “Cada vez que eles se aproximavam no marcador, tornávamos a pisar no acelerador e nos distanciávamos. Por três vezes eles reduziram a diferença para dois pontos. Mas apesar dos esforços heróicos de Julius Erving, sempre acelerávamos e os deixávamos para trás. O placar final foi 123 a 107. Pela primeira vez, desde 1972, o Lakers voltar a ser campeão”.
Magic jogou 47 dos 48 minutos. Anotou 42 pontos, apanhou 15 rebotes e deu sete assistências. Cobrou 14 lances livres e acertou todos.
Brent Misburger, comentarista da CBS, disse após a partida: “Magic jogou de pivô, armador e ala neste jogo. Vai ter que tirar todos os uniformes no vestiário”.
Exatamente isso. Ninguém, em toda a história do basquete, fez o que Magic fez naquela sexta-feira à noite na Filadélfia. Magic esteve em todos os cantos da quadra. Encestou de todas as maneiras. E foi um gigante nos rebotes.
Se pudesse transformar em assistências as jogadas que ele criou para si mesmo, talvez tivesse batido o recorde na história da liga.
“Fiz muita coisa, mas não joguei sozinho”, disse humildemente, depois da partida. Magic tinha razão, mas os arrogantes, após jogos como o que Magic fez, costumam aceitar os louros da glória, esquecendo-se de que o basquete é um esporte coletivo.
O ala-armador Jamaal Wilkes anotou 37 pontos, seu recorde na temporada e seu recorde na NBA. Michael Cooper adicionou 16. Norm Nixon, que apelidou Magic de Buck, lembram-se?, deu nove assistências, recorde da partida derradeira. E o pivô Jim Chones, que teve a amarga tarefa de marcar Darryl Dawkins, uma das estrelas do Sixers, apanhou dez rebotes.
Mas Magic foi a estrela da partida. Repito: ninguém, jamais, em toda a história do basquete fez o que Magic fez naquela sexta-feira, 16 de maio, na Filadélfia. Nem mesmo Michael Jordan.
Magic foi eleito o MVP das finais, tornando-se o primeiro e único “rookie” a conquistar o prêmio. Tinha apenas 20 anos.
Depois da peleja, Lionel Hollins aproximou-se de Magic e disse: “Magic, este mesmo é o seu nome”.
Abaixo, vejam em vídeo o resumo do jogo e me digam se tenho ou não razão:
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