Bem, agora mais calmo, em condições de falar melhor sobre o jogo. Li atentamente (como faço sempre) os comentários de vocês e concordamos (pelo menos a maioria): o Brasil foi um time sofrível contra a Grã-Bretanha e se não mudar o comportamento não terá vida longa neste torneio.
Qual foi o nosso grande pecado? O ataque, claro. E a gente tem alertado para isso há algum tempo. O defeito não foi corrigido e agora estamos colhendo frutos desta falta de atenção.
Passamos uma vida jogando no ataque e nos esquecemos da defesa. Com o advento do cabo e a globalização, passamos a tomar um contato mais íntimo com o basquete praticado no resto do mundo, especialmente nos EUA.
Quando os jogos da NBA começaram a ser exibidos pela Bandeirantes, com Luciano do Valle e Alvaro José dando um show e a gente se deliciando, víamos e ouvíamos os torcedores norte-americanos gritarem: “Defense, defense, defense”.
Ao mesmo tempo em que víamos e ouvíamos os americanos, alguns jornalistas ficavam repetindo clichês de jogadores e técnicos americanos. Coisas do tipo: “Ataque vende bilhetes, defesa ganham campeonatos”.
Aí a gente concluiu que os americanos adoram a defesa e que sem defesa não se chega a lugar algum. Bobagem: americano gosta do jogo como um todo. Quando o time não tem a bola, quer que defenda; quando tem, quer vê-lo pontuando. Tudo na mesma proporção.
E o basquete tem que ser assim: ataque e defesa equilibrados. Rubén Magnano (Foto CBB), nosso treinador, disse em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, em janeiro passado, que ele curte demais a defesa, mas reconhece que o jogo é 50% para cada lada: ataque e defesa.
Verdade: não se faz um time campeão apenas com defesa como não faz apenas com ataque.
Equilíbrio: esta é a palavra chave.
Como passamos uma vida atacando e defendendo pouco e com a aposentadoria de Oscar Schmidt e Marcel Souza e a falta de reposição desse tipo de jogador, nosso basquete entrou em declínio. Não conseguíamos atacar mais com a mesma eficiência dos tempos do Mão Santa e do Doutor Ponikwar — e não sabíamos defender, pois nunca nos preocupamos com isso.
Qual foi a saída? Fortalecermo-nos na defesa, concluiu-se, pois faltavam-nos bons alas. Ótima escolha.
Só que isso nos fez esquecer o ataque. Hoje, uma década depois desta mudança de mentalidade, que começou com Hélio Rubens, passou por Moncho Monsalve e desembocou em Rubén Magnano, atingimos um ótimo estágio defensivo. Mas, como disse o nosso parceiro Ricardo Camilo, não sabemos mais atacar!
Nosso time é um time desorganizado no ataque. A bola cai nas mãos do Marcelinho Huertas e ele que se vire. Não tem um corta-luz para ele (aliás, tem, mas é muito pouco), não se faz um “pick’n’roll”, não há uma jogada trabalhada com nossos pivôs e nem mesmo para que nossos arremessos de longe sejam feitos com tranquilidade. O que se vê é apenas a troca de passes de lá pra cá e de cá pra lá, lembrando o velho “passing game”. Muito pouco.
Vendo os jogos do nosso selecionado, parece que atacamos de improviso na maioria das vezes. E o resultado foi visto nesta partida contra a Grã-Bretanha.
O nosso selecionado fez apenas quatro pontos no primeiro quarto! Pode? Sim, pode; tanto pode que fez apenas quatro pontos. O aproveitamento no período foi de 2-20 nos arremessos (10,0%), sendo que nas bolas de três o desempenho foi de 0-8.
Este, para mim, é o maior problema do nosso time no momento: a inanição ofensiva.
Nossos alas precisam ajudar mais. Leandrinho Barbosa (foto Reuters), Alex Garcia, Marcelinho Machado e Marquinhos Vieira fizeram apenas 19 pontos nesta vitória por 67-62 diante dos britânicos. Ou seja: anotaram só 28,3% dos pontos do time.
Nosso desafogo ofensivo fica por conta dos “floaters” de Huertas (14,0 pontos de média por jogo neste torneio olímpico) e do surgimento de algum inesperado jogador que esteja com a mão quente. Na vitória diante da Austrália, apesar dos erros no final, Leandrinho anotou 16 importantes tentos. Neste jogo diante dos donos da casa, Tiago Splitter (foto Getty Images) cravou nada menos do que 21, lembrando, diga-se, o jogador dos tempos do Caja Laboral.
Nenê Hilário tem que desempenhar esse papel também. Ele tem sido um gigante na defesa, pegando rebotes e dando tocos (é o líder neste fundamento na competição com média de 2,5 por partida). Mas Nenê tem que ser mais eficiente ofensivamente falando. Um jogador do nível dele não pode fazer apenas quatro pontos contra a Grã-Bretanha. Tem que ter um duplo dígito na pontuação sempre. No mínimo dez, como fez diante da Austrália.
Falta a Nenê, infelizmente, a audácia de Splitter. O catarinense não vacila em ir para a cesta; o paulista titubeia muito. No jogo desta terça, em várias situações Nenê estava sendo marcado por um jogador menor (“mismatch”). Mesmo assim, ele não ia para a cesta, preferia o passe. Já disse aqui que Nenê tem um QI altíssimo de basquete, mas ele tem que saber usá-lo para si também. Muitas vezes ele, no “post”, vai para a cesta, mas ao invés de completar a jogada, como faz Splitter, dá o passe. Isso faz com que seu jogo fique óbvio. O adversário sabe que Nenê dificilmente vai completar a jogada com cesta. Portanto, passam a marcar o companheiro e não Nenê.
É verdade, eu concordo; já disse, é verdade, eu concordo: quando Nenê pega a bola, a marcação quase sempre dobra, às vezes triplica. E neste caso o melhor mesmo é fazer o passe para não perder a bola. Mas em outras situações ele está no mano-a-mano e nem assim ele tenta a cesta. E mesmo com marcação dupla, com agilidade e força que tem, ele pode tirar proveito pontuando e sofrendo falta, por exemplo.
Volto a dizer: Nenê tem sido um gigante na defesa (6,5 rebotes de média e muito trabalho de bloqueio para facilitar o ressalto para outro jogador), mas ele tem que ter um duplo dígito na pontuação. Está com 7,0 pontos de média — e eu acho pouco para o cartaz que ele tem, pela potência que ele tem e pelo jogo que ele tem.
Se Nenê for eficiente no ataque como costuma ser na NBA, nosso jogo vai crescer naturalmente.
E Marcelinho Huertas, que tem uma média de 9,0 assistências por jogo vai deixar o segundo posto no ranking deste fundamento nas Olimpíadas e passará para o primeiro lugar. E com sobras.
Finalmente, as bolas de três, que têm nos levado à loucura. Fizemos apenas 5 das 37 bolas arremessadas, o que dá um percentual de acerto de vergonhosos 14,0%. Nossos jogadores mostraram o seguinte depois de duas contendas:
Marcelinho Machado: 1/9 (11,1%)
Leandrinho Barbosa: 1/9 (11,1%)
Marquinhos Vieira: 2/6 (33,3%) – todas neste jogo contra a GB
Alex Garcia: 1/2 (50,0%) – todas no jogo frente a Austrália
Guilherme Giovannoni: 0/3 (0%) – todas contra a GB
Marcelinho Huertas: 0/7 (0%)
Raulzinho Neto: 0/1 (0%)
As bolas de três fazem parte da característica do nosso basquete. Há um abuso, concordamos todos, mas é cultural, está no caráter do jogador brasileiro. Não tem como mudar isso. O que se pode fazer é atenuar e melhorar o desempenho. Só que isso não está sendo visto nestas Olimpíadas. O que se vê na seleção, também se vê no NBB: um festival de bolas de três e a maioria delas esmagando o aro adversário.
Bolas de três se bem usadas, desnorteiam o adversário. É uma arma excelente. Mas para ser bem aproveitada, tem que ser treinada. Mas não é isso o que se tem visto até este momento em nosso selecionado.
E já que estamos falando em bolas triplas, se não estamos encestando, estamos dando mole para os adversários. Nesta partida contra a GB, eles sobreviveram graças aos tiros longos. Foram 7/19 (36,8%). É preciso marcar esses tiros de longa distância com a mesma eficiência com que estamos marcando o perímetro e o garrafão. Caso contrário, no jogo contra a Espanha, que tem o melhor desempenho neste fundamento (18/40; 45,0%), a vaca vai mesmo para o brejo.
Bem, como vimos, há muito que se fazer. Mas, como alguém disse certa vez, fica mais fácil corrigir os erros com vitórias do que com derrotas. Que assim seja então. Aliás, é bom o Brasil corrigi-los rapidamente, pois o torneio é curto e não há tempo a perder.
Na minha avaliação, o nosso selecionado já tinha que estar mostrando um basquete melhor neste momento. Do jeito que caminha, vai atingir o ápice quando a competição tiver acabado. Aí, como se diz no interior, “Inês é morta”.