
Ganhou o melhor; o Lakers é o legítimo campeão desta temporada.
Com a vitória por 99-86 sobre o Orlando o time californiano fez 4-1 na série e conquistou seu 15º. título. Fica com dois a menos que o Boston, o maior vencedor na história da NBA.
Apesar de ter chegado desacreditado por alguns para esta decisão – especialmente depois de uma excelente final que o Orlando fez diante do Cleveland ganhando o título do Leste –, o Lakers mostrou mais uma vez que tem camisa e foi talhado para ser campeão.
E isso conta muito – não é o mais importante, mas conta muito.
Para ser campeão, é preciso superar os oponentes em quadra. Para ser campeão, é preciso ter um grande jogador e um treinador capaz. Para ser campeão é preciso ter um projeto.
Sem isso fica difícil ganhar um campeonato. E o Lakers os tem.
Kobe Bryant mostrou mais uma vez que é definitivamente o melhor jogador de basquete do planeta na atualidade; Phil Jackson inseriu indiscutivelmente seu nome como o maior treinador na história da NBA.
E tudo acabou sendo mais fácil do que muitos pensavam – inclusive eu.
Muitos – inclusive eu – esperavam mais do Orlando. O time da Flórida fez o que pôde, é verdade, mas o que pôde fazer foi pouco diante de uma equipe que tem Kobe e Phil.
A disciplina tática do Magic, sua maior variação de jogo, sua independência em relação a Dwight Howard, seu “dominant player”, acabaram nos enganando a todos.
Dwight é um grande jogador – mas para o futuro; Stan Van Gundy montou um time na unha – mas não está ainda no ponto para ser campeão.
Ficou provado, uma vez mais, que um time para ser campeão precisa ser dependente de seu “dominant player”. Ficou provado, uma vez mais, que um time para ser campeão precisa ter um treinador que faça a diferença.
Seu “dominant player” não pode ser mais um – como Howard é para o Orlando.
Kobe, o “dominant player” do Lakers, fez a diferença quando foi preciso – o que Dwight não conseguiu com o Orlando. K24 foi eleito merecidamente o MVP destas finais. Ganhou o troféu “Bill Russell”, em homenagem a este que foi, na minha opinião, o maior jogador da história da NBA – Michael Jordan não conta, pois, assim como Pelé, é de outro planeta.
Kobe anotou ontem 30 pontos. Completou seus números com mais seis rebotes, cinco assistências e quatro tocos.
Terminou estas finais com uma média de 32.4 pontos por partida – a quarta maior na história da NBA em jogos finais.
Seu instinto matador, sua gana, sua vontade de vencer, sua determinação, seu amadurecimento o tornaram grande. Mesmo quando cometeu equívocos em quadra conseguiu ser o “factor” do time.
Mas ontem Kobe esteve perfeito.
Ganhou seu quarto título na liga, o primeiro como ator principal. Não há mais como duvidar de seu talento e de sua genialidade.
Perguntado, na entrevista coletiva, após a partida, sobre se incomodava o fato de as pessoas dizerem que ele tinha vencido três campeonatos por causa de Shaquille O’Neal, Kobe respondeu que sim, claro que sim.
“Parecia uma tortura chinesa, mas aceitei como um desafio”, disse ele.
Humildemente, Kobe foi trabalhando, trabalhando e trabalhando. Perdeu duas semifinais no Oeste para o Phoenix. Depois foi derrotado na final da NBA pelo Boston, ano passado, até que, finalmente, ganhou o título como ator principal.
“As pessoas têm que entender que todo time campeão tem um duo”, disse Kobe – e com razão. Não dá para ganhar nada sozinho. Sem ele Shaq não teria conseguido levar o Lakers a três títulos no começo desta década.
E o Kobe de Kobe, nesta conquista, foi Pau Gasol. O espanhol calou a boca dos críticos – inclusive eu – que diziam ser ele um jogador soft demais para ganhar um título.
O pivô mostrou ter colhões maiores do que muitos imaginavam. Brigou de igual para igual com Dwight Howard. Não se encolheu jamais diante do Super-Homem.
Terminou a partida de ontem com 14 pontos, 15 rebotes, quatro tocos e três assistências.
No intervalo do jogo, Stuart Scott, âncora da ESPN, perguntou a Magic Johnson que prêmio Kobe deveria dar a Gasol. O maior armador da história da NBA respondeu: “Dividir o salário com Pau”.
E complementou: “Excluindo Kevin Garnett, Gasol é o melhor ala de força da NBA. Sem ele Kobe não estaria aqui”.
E não estaria mesmo, pois, como disse Kobe, um time para ser campeão precisa de uma dupla dinâmica.
Mas não foi fácil transformar Gasol neste jogador que ele é hoje. Foi um trabalho árduo que durou uma temporada.
“Seu crescimento defensivo nos ajudou demais”, disse Kobe depois da partida.
Já falamos sobre isso. Esta melhora tem a ver com o trabalho de Phil Jackson.
P-Jax relutou em aceitar o convite de Jeannie Buss, filha de Jerry Buss, dono do Lakers para voltar a comandar o time. Jeannie, se você não sabe, é quase que mulher de P-Jax. Vivem maritalmente, embora não sejam casados no papel.
Phil estava na Austrália, em 2005, quando o telefone tocou. Era Jeannie. “Volte, seu lugar é aqui, treinando o time”, disse ela.
P-Jax, como disse, relutou. “Não era justo comigo e com a equipe, que estava se acostumando a viver sem mim”, disse o treinador, que ficou um ano longe da Califórnia, desempregado, mas curtindo a vida. “Apesar do Kobe, não via potencial para fazer do Lakers um time campeão. Iria reconstruir a franquia para outro ganhar. Não sentia que iria ganhar um título novamente”.
Mas aceitou assim mesmo. E deu certo: o Lakers foi campeão antes mesmo que ele imaginava.
P-Jax conquistou seu 10º. troféu. Ultrapassou Red Auerbach, que amealhou nove com o Boston nas décadas de 1950 e 1960.
Na coletiva após a partida, Stan Van Gundy foi perguntado se Jackson é o maior treinador da história da NBA. Disse o treinador do Orlando: “Oh, yeah”.
Questionado sobre o que isso significava para ele, Phil respondeu: “Vou comemorar fumando um charuto”.
Homenagem e tanto a Auerbach, que nunca foi visto sem um cubano entre os dedos da mão direita. Para quem nunca esteve em Boston, há uma estátua de Auerbach no Faneuil Hall Marketplace, um dos cartões postais da cidade.
Red foi esculpido sentado em um dos bancos do calçadão, bengala na mão esquerda e o charuto na mão direita.
Doctor Red Auerbach – assim era chamado; assim é conhecido.

Um repórter indagou P-Jax sobre a alcunha: gostaria ele também de ser chamado de Doctor Phil Jackson? “Não, do jeito que está, está bom”, respondeu Phil.
Jackson nunca se importou com os holofotes. Seu jeitão “low profile” depois do jogo foi uma vez mais o retrato fiel de sua alma.
Enquanto Kobe pulava, alucinadamente, socando o ar num gesto imortalizado por Pelé e copiado por muitos no mundo inteiro, P-Jax sorria para ele mesmo. Abraçou seus jogadores, seus auxiliares, Joey Buss, filho de Jerry e quem recebeu o troféu, mas tudo com muita discrição.
Phil nunca quis ser o melhor de todos. Sempre fez questão de destacar a genialidade de Tex Winter, seu auxiliar técnico e criador do sistema dos triângulo. Winter, seu parceiro desde os tempos de Chicago, não esteve em Orlando, pois recupera-se em Portland de um AVC.
Qualquer outro de caráter duvidoso teria roubado a invenção de Winter. Teria dito ao quatro cantos do mundo que ele criou o sistema. Phil não fez isso, pois não precisa; é um cara muito bem resolvido.
E genial – assim como Kobe.
P-Jax fez do Chicago o primeiro campeão da NBA sem ter um pivô dominante, mudando a história do basquete profissional norte-americano. Antes desse time, toda equipe para ser vencedora na liga tinha que ter um grandalhão competente.
Era regra – tanto que o Houston selecionou Hakeem Olajuwon como primeiro draft de 1984, o Portland pegou San Bowie, como o segundo e o Chicago escolheu MJ, na terceira posição, pois os dois pivôs dominantes do “college” já tinham sido recrutados.
Agora, voltou ao Lakers para reconstruir a franquia. Encontrou-a escangalhada, completamente perdida, sem rumo, com Shaq no Miami e Kobe desnorteado.
Devagarzinho foi fazendo o que tinha que ser feito. Recuperou Derek Fisher, que estava no Utah, contratou Pau Gasol, do Memphis e passou um ano trabalhando a equipe.
E o resultado chegou: o Lakers foi campeão.
Ganhou, como disse, o melhor.
Sem Kobe e sem P-Jax isso não seria possível.