CHICAGO — Cheguei há pouco do United Center. Escrevo agora do quarto do hotel, que está bem quentinho. Lá fora faz frio. Não chega a ser um frio danado, principalmente em se tratando da cidade dos ventos. Quando voltava do ginásio para o hotel, vi que um termômetro marcava 51 graus Fahrenheit. Traduzindo para Celsius dá algo em torno de 11 graus. Mas o vento é que pega. Quando ele dá as caras parece que as temperaturas despencam para algo próximo de zero grau.
Cheguei há pouco do United Center ainda sob o impacto da vitória conquistada pelo Chicago diante do Toronto. Vi a viola em cacos em vários momentos. Primeiro, porque o time canadense jogava bem; segundo, porque Joakim Noah foi expulso na segunda metade do segundo quarto; terceiro, porque o Bulls não conseguia pegar rebotes; quarto porque Kyle Korver estava entortando o aro canadense; quinto, porque James Johnson, aquele mesmo que era do Chicago e não jogava nada, estava inspiradíssimo, acertando tudo e mais um pouco.
Com um cenário desses, dei-me por satisfeito por ver o cotejo ir para a prorrogação, graças à imperfeição de um arremesso de três do italiano Andrea Bargnani, que segurou o placar no tempo normal em 94 pontos.
Veio o tempo extra e vi a viola em cacos novamente. Parecia que não ia dar para os 21.841 torcedores que ocuparam todas as confortáveis poltronas do United Center irem para casa nesta noite fria de sábado vibrando com mais uma vitória. Mas um par de lances livres desperdiçado por Gary Forbes foi a salvação do Chicago. Esse par de lances livres desperdiçado e a cesta derradeira de Luol Deng, no estouro do cronômetro (na foto AP, o jogador comemorando a cesta vitoriosa).
O trio de árbitros foi checar se o lance valeu ou não e enquanto ele tomava a decisão “Rock’n’Roll Part II”, com Gary Glitter, estourava os tímpanos vindos dos potentes alto-falantes do ginásio chicaguense, que voltei a pisar depois de 14 anos. A decisão foi tomada, a vitória confirmada e os torcedores explodiram de alegria.
Os jogadores rumaram para o vestiário e desta vez eu não ouvi “Sweet Home Chicago”, tema do filme “The Blues Brothers”, que sempre embalava os torcedores quando o Chicago vencia ou ganhava campeonatos no final da década de 1990. Eu presenciei esta cena várias vezes entre 1996 e 1998.
Não há mais Michael Jordan e nem Scottie Pippen. A vez agora é de Derrick Rose e Luol Deng. D-Rose não jogou neste sábado, uma vez mais, mas Luol estava lá para levar o time a mais uma vitória: 102-101, no estouro do cronômetro.
Não há mais Michael Jordan e nem Scottie Pippen. Não há campeonatos ganhos depois de 1998, mas esse time tem cheiro de campeão.
VESTIÁRIO
Fui ao vestiário do Bulls depois da partida. Está igualzinho, nada mudou desde os tempos de MJ e Pip. Apenas os nomes dos jogadores acima dos armários é que são outros.
Entrando nos aposentados do Chicago, o primeiro armário que aparece é de Brian Scalabrine. Contíguo a ele está o de Luol Deng, seguido pelo de Richard Hamilton.
A sequência é interrompida pela porta que leva aos chuveiros, onde a mídia não tem acesso. Depois vêm os guarda-roupas de Joakim Noah, Ronnie Brewer e CJ Watson.
A sala chega a seu final e vira-se, portanto, à direita, onde está o quadro-branco, que no passado a gente chamava de quadro-negro, porque era negro e não branco como hoje. Ele é grande, mas tinha algumas poucas anotações feitas pelo técnico Tom Thibodeau, que estavam num canto baixo esquerdo e que me chamaram a atenção.
Thibs anotou o seguinte durante o intervalo da partida:
50-55 (resultado do primeiro tempo, que mostrou vitória canadense);
Reb: 16-26 (nova vantagem do Toronto);
FG: 51,2% (foi o aproveitamento do Raptors na etapa inicial);
3PT: 1-10 (10,0%) – 1-4 (25,0%) – péssimo aproveitamento do Bulls;
FT: 5-8 – 12-14 (Thibs sublinhou os 14 lances cobrados pelos visitantes).
A palestra do intervalo, como vimos, versou sobre isso. E como é que ficaram esses números ao final do confronto? Vejamos:
102-101 (vitória do Bulls);
Reb: 44-58 (o Chicago não se recuperou);
FG: 44,8% (o aproveitamento do Raptors baixou);
3PT: 3-23 (13,0%) – 3-14 (21,4%) – pouca coisa mudou;
FT: 20-25 – 17-26 (o Bulls se recuperou).
Ou seja: como vemos, o Chicago continuou no segundo tempo e no tempo extra jogando um basquete irreconhecível. Por isso venceu na bacia das almas um time que normalmente ele venceria por uma vantagem de dois dígitos. E venceu com uma cesta no estouro do cronômetro.
“Não fizemos uma grande partida”, disse Luol, no vestiário, sentando em uma cadeira, os dois pés num balde de plástico azul cheio de gelo. E de gelo eram também as duas bolsas que estavam, uma na munheca esquerda, a machucada, e a outra no joelho do mesmo lado. Havia outra bolsa de gelo, estava me esquecendo, esta na canela direita do camisa 9 do Bulls.
Em outras palavras, ele estava estropiado depois da contenda. Mas feliz pela vitória.
APOSENTOS
Mas vamos continuar nossa visita ao vestiário do Bulls. Como disse acima, depois do armário de CJ a parede termina, vem o quadro-branco e depois mais três guarda-roupas: Omer Asik, Taj Gibson e Carlos Boozer. A sequência é quebrada por conta de outra porta, esta que leva até o escritório dos treinadores e o apartamento de Tom Thibodeau. A entrada da mídia, assim como nos banheiros onde estão os chuveiros, é proibida.
Depois há mais dois aposentos: Kyle Korver e Jimmy Butler. Nova quebrada à direta e vemos os armários de John Lucas III e Derrick Rose.
Todos os jogadores estavam no vestiário, com duas exceções: Rip Hamilton e D-Rose. Derrick viu a partida do banco do Bulls, mas assim que acabou ele picou a mula. A ausência do armador eu senti demais, pois queria ver o filho de Chicago pela primeira vez com a camisa 1 do Bulls. Não vi, pois Thibs resolveu poupá-lo novamente.
“Ele tem dor nas costas, no quadril, nas pernas, em todos os lugares”, disse-me uma senhora de uns 60 e poucos anos, que fez o meu credenciamento, assim que cheguei ao United Center, respondendo minha pergunta sobre a participação ou não de Derrick na partida. “Não vai jogar”, informou-me a gentil sexagenária, que em seguida passou-me a senha para eu poder acessar a internet do “Press Box” (onde fiquei, sentado na poltrona 25 da primeira fila).
Falando assim, dá impressão que o lugar era extraordinário: “Press Box”, o nome impressiona. Mas o tal do “Press Box” fica quase no teto do ginásio. Mas deu pra ver tudo, não posso reclamar de nada. E a cesta de Luol foi feita exatamente no lado onde eu me encontrava.
GENTIL
Quando o jogo acabou, peguei o elevador e desci até os aposentos do Bulls. O vestiário demorou para ser aberto. Quando entrei, vi Luol do jeito que eu contei sete parágrafos acima. Ele deu uma entrevista para a televisão de Chicago e depois pediu um tempo para os jornalistas: “Estou muito cansado; deixe-me relaxar, tomar um banho e depois a gente se fala”.
A tropa da mídia atendeu e entendeu o pedido de Luol, que ficou sentado por quase 15 minutos. E do jeito que eu contei oito parágrafos acima: os dois pés num balde de plástico azul cheio de gelo; uma bolsa de gelo na munheca esquerda, a machucada, outra no joelho do mesmo lado e a terceira na canela direita.
Falou ao celular com alguém. Levantou-se depois de 15 minutos e começou a tirar a camisa 9. Não conseguia. Ficou todo arqueado, fazendo um esforço maior do que fez para derrubar a bola final. Com a ajuda de um jornalista, ele finalmente teve êxito em seu intento. Agradeceu a ajuda e depois tirou o short enorme, com o logo do Bulls nas laterais, em vermelho, contrastando com o branco do calção. Em baixo dele os jogadores usam outro, esse térmico, preto, com proteção nas laterais e que vão quase que ao joelho também. Luol pegou uma toalha, enrolou-a na cintura e com muito cuidado tirou o calção térmico. Todos os jogadores fazem assim. Ninguém fica pelado na frente dos jornalistas, até porque há mulheres dentro do vestiário.
Luol foi para o banho e voltou depois de dez minutos. Com a toalha enrolada na cintura. O ritual, agora, foi outro: o sudanês naturalizado britânico colocou uma cueca. Depois, de costas para todos, foi colocando uma calça de jeans azul-escuro. Tirou a toalha da cintura. Vestiu uma camiseta branca e em cima dela colocou uma camisa xadrez de alguns tons de azul, combinando com a calça. Em seguida, passou um creme na cabeça. Penteou os poucos cabelos e os fiapos de barba também. Passou a toalha pelo rosto, virou-se e atendeu finalmente toda a mídia.
MINHA VEZ
Escutei pacientemente Luol falar com todos os jornalistas. Quando eles se foram, cheguei perto do camisa 9 e disse que era brasileiro e que gostaria de falar com ele.
“Pois não”, respondeu-me. Abaixo, a entrevista que fiz com Luol Deng.
SIMPATIA
Antes de contar a vocês sobre o que versou nossa conversa, deixe-me dizer uma coisa: Luol é um baita dum boa-praça. Brincalhão, ele sempre coloca uma pitada de humor nas respostas e deixa a conversa sempre em tom agradabilíssimo. Não há tensão em momento algum. E quando ele sente que exagerou na brincadeira, pede desculpas ao repórter, que as aceita, porque é impossível zangar-se com Luol Deng.
PINGUE-PONGUE
iG— Luol, queria falar com você sobre os Jogos Olímpicos. Em algum momento você pensa sobre a competição?
Luol — Não consigo, pois estou completamente focado na NBA. Neste momento não tem jeito.
iG — Mas como está o selecionado britânico?
Luol — Temos um bom time e vamos dar trabalho. Pode ter certeza disso.
iG — Os EUA formam o melhor time do planeta…
Luol — Certamente…
iG — Pois é, são favoritos ao título. Quem você considera os maiores oponentes ao time norte-americano?
Luol — Us (nós em português).
iG — Risos
Luol — Você ri por quê?
iG — Você está falando sério?
Luol — Ok, há várias seleções em condições de chegar à decisão do título, como a Espanha e a França. Acho que a França tem um time bem interessante.
iG — Você coloca a Espanha mesmo sem Ricky Rubio e agora com a possível ausência de Rudy Fernandez?
Luol — A Espanha tem excelentes jogadores e mesmo sem Ricky e Rudy continuam formando um grande time e em condições de chegar à decisão da medalha de ouro.
iG — E o Brasil, com os jogadores que atuam na NBA, como você vê o Brasil?
Luol — Há grande jogadores no time brasileiro e eu o coloco também entre os times que vão competir bem nas Olimpíadas.
Certamente Luol iria dizer que Tunísia também tem um grande time e que vai brigar no torneio masculino de basquete. Por conta disso, resolvei perguntar sobre a NBA.
iG — Esta temporada é finalmente a temporada do Chicago ou o Miami continua como favorito no Leste?
Luol — Miami é o favorito. Nós seguimos trabalhando para derrotá-lo, mas eles são os atuais campeões da conferência, têm grandes jogadores. Por isso, são os favoritos.
iG — E do outro lado, no Oeste?
Luol — OKC está muito bem, mas a gente não pode se esquecer do San Antonio, Dallas e do Lakers também.
Alguns jornalistas encostaram novamente e entraram na conversa. E o papo gostoso e descontraído que eu levava com Luol terminou por aqui.
Gostaria de reencontrá-lo futuramente em duas situações: na final da NBA e nas Olimpíadas de Londres. Não sei se será possível.