COM UMA VITÓRIA NO EMBORNAL, BRASIL DE SAIAS NÃO VOLTA ‘SAPATEIRO’ DE LONDRES
No interior a gente costuma dizer que um pescador, quando volta pra casa com o embornal vazio depois de um dia de pescaria, a gente costuma dizer no interior que esse pescador voltou pra casa “sapateiro”.
Tinha medo que a nossa seleção feminina voltasse assim para o Brasil: sem nenhuma vitória no embornal. Que voltasse “sapateira”.
Não voltou; menos mal.
Isso, todavia, não atenua em nada a nossa participação em Londres. Esperava-se que pudéssemos estar nesta fase de mata-mata que começa nesta terça-feira. Mas, lamentavelmente, nossas moças conseguiram apenas uma vitória na fase de classificação, a deste domingo, diante do catadão da Grã-Bretanha (78-66). Não conseguiram passar nem mesmo pelo Canadá, que se tornou um freguês de caderneta do nosso basquete feminino, Canadá que só chegou aos Jogos Olímpicos porque passou no vestibular do Pré-Olímpico. Foi para esta seletiva porque não teve competência, no Pré das Américas, de chegar nem mesmo na final do torneio que foi disputado em Neiva (Colômbia) que consagrou o Brasil como campeão em final disputada contra a Argentina (o Canadá foi o terceiro colocado). Título que garantiu nossa vaga para Londres.
Pois é, não conseguimos vencer o Canadá; perdemos por 79-73. E esta derrota da última sexta-feira colocou-nos de fora da fase de mata-mata das Olimpíadas.
Naquele dia, deprimido, triste, tive que escrever e decretar: o melhor para o nosso basquete feminino é a saída de Hortência e a destituição de toda a comissão técnica.
É duro escrever um troço desses de uma personalidade que se tornou uma entidade do nosso basquete feminino. Não é mole pedir a cabeça de uma pessoa que eu passei a vida admirando e com quem jamais penso em trocar uma palavra mais dura; quanto mais escrever, que é o que eu também faço para ganhar a vida.
Mas por falar em vida, ela é assim mesmo. Se a gente admoesta um filho, com o coração apertado, sabendo que aquela admoestação pode significar muito no crescimento dele, por que não fazer o mesmo neste caso? Portanto, Hortência, com o coração apertado, quase que sangrando, eu volto a dizer: o melhor a fazer é você deixar o caminho livre para outro alguém. Não manche seu nome, que está inserido no Basketball Hall of Fame de Springfield, Massachusetts. Mais do que isso: seu nome está marcado em nossas vidas feito ferro em brasa na pele do boi.
Hortência, infelizmente, mostrou-se confusa nesse tempo todo em que esteve à frente do comando do nosso selecionado. Mandou embora Paulo Bassul; contratou o espanhol Carlos Colinas, demitiu-o; chamou Ênio Vecchi, não renovou seu contrato; e resolveu apostar em Luis Claudio Tarallo, um ilustre desconhecido. Tudo isso em menos de um ciclo olímpico, o que dá um técnico e meio por temporada.
Se Hortência tivesse apostado em um projeto e ele tivesse naufragado, seria menos problemático e complicado. O problema é que nesse tempo todo ela esteve completamente perdida.
Além de contratar e demitir treinadores, seu pior ato foi ter legitimado a indisciplina de Iziane Castro. Não vou contar o que aconteceu porque todos nós sabemos o que ocorreu. Mesma Iziane que deu-lhe uma rasteira às portas das Olimpíadas.
Nossas meninas podem não ser as melhores do mundo (e não são mesmo), mas se bem treinadas, se bem comandadas, podem oferecer algo mais. Temos Érika, Clarissa, Damiris, Franciele (mal aproveitada), Karla, Nádia, Tássia, Joice; enfim, temos meninas que se bem treinadas e com boa retaguarda podem fazer mais do que têm feito nesses últimos anos que beiram uma década.
O basquete masculino foi colocado nos trilhos por conta do destino (surgimento de uma grande geração) e da contratação deste magnífico Rubén Magnano. O feminino vive situação oposta, pois o destino não nos trouxe em sua trouxa de presentes nenhuma Hortência, nenhuma Paula e nenhuma Janeth.
Não podemos, pois, desafiar o destino. Se o fizermos, seremos trouxa.
ADEUS
Adrianinha Moisés disputou quatro Olimpíadas com a camisa 4 do Brasil. A mesma camisa que Hortência vestiu em toda sua vida; em clubes ou seleção.
Adrianinha (foto Gaspar Nóbrega/Inovafoto/CBB) disputou neste domingo sua última partida com a regata 4 brasileira. Despediu-se com vitória, tendo anotado 15 pontos e dado 12 assistências. Um “double-double” que veio coroar sua carreira na seleção.
Adrianinha, essa mesticinha de Franca, interior de São Paulo, começou com o pé direito na nossa seleção. Nos Jogos de Sydney, ganhou uma medalha de bronze. Depois, bem… depois entramos numa decadência da qual ela não tem grande responsabilidade.
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