O Lakers aproveitou a chance derradeira. Fez o jogo que ele tanto precisava fazer para mostrar ao mundo da NBA que ele está vivo. Mandou um recado a todos: rapaziada, fique com a barba de molho, pois o campeão voltou — acho excelente este cântico cunhado pela torcida do São Paulo.
Sim, o campeão voltou. Vencer do jeito que o Lakers venceu o Oklahoma City, ontem à tarde, em Los Angeles, por 114 a 106, com direito a duas prorrogações, é de entusiasmar e amedrontar. Entusiasmar seus torcedores; amedrontar seus adversários.
O Lakers chegou a estar 18 pontos atrás. No último quarto, 17. E o que aconteceu para que este cenário devastador, de tragédia, mudasse completamente a ponto de levar o Lakers a uma vitória extraordinária? Simples: dois jogadores; dois jogadores vindos do banco surgiram do nada e aplicaram uma peça nos garotos de Oklahoma City. Seus nomes? Jordan Hill e Devin Ebanks.
Hill já tinha mostrado que o domingo poderia ser dele no segundo quarto, quando entrou pela primeira vez na partida. Jogou 8:53 minutos e marcou seis pontos e quatro rebotes. Neste período, Ebanks teve uma aparição tímida, de apenas 1:37 minutos, tendo contribuído com apenas dois rebotes. Mas Hill não; Hill tinha deixado claro para o treinador Mike Brown que ele poderia e deveria ser usado.
E foi o que o mister do Lakers fez no segundo tempo e na prorrogação. Hill e Ebanks tiveram muitos minutos, mas muitos minutos mesmo e foram as surpresas dos amarelinhos, que ontem jogaram de branco porque aos domingos os amarelinhos sempre jogam de branco.
REPÚDIO
Vocês que me acompanham sabem muito bem que eu não sou alinhado com a malandragem, com a trapaça e com o mau-caratismo. Desprezo a violência, física e verbal. Por conta disso, não gosto de jogador e técnico que se comportam assim. Acho desprezível. Por conta disso, bato abertamente em Blake Griffin, que pra mim é um jogador sujo. Por conta disso, desprezei a vitória do Miami sobre o Chicago. Por conta disso, nunca fui fã do Detroit Pistons de época dos Bad Boys, comandado em quadra por Isiah Thomas, Bill Laimbeer e Dennis Rodman.
Ron Artest é um cara assim: sujo e mau caráter. Perdeu milhões de dólares por causa de uma suspensão de 86 jogos em 2004 quando vestia a camisa do Indiana Pacers. Naquela noite, quis se engraçar com Ben Wallace, na época pivô do Detroit, mas tomou uma invertida. Apanhou e ficou quieto. Afinou. Depois, foi descontar sua frustração em cima da torcida. E foi suspenso.
Artest foi aposentado no começo desta temporada e surgiu Metta World Peace. Estávamos vendo uma nova personalidade em quadra. Até que veio o jogo de ontem…
PERSONALIDADE
O que dizer da atitude de Metta World Peace? As imagens dizem tudo. A agressão foi um ato de covardia. MWP teve comportamento de Artest: foi cafajeste em toda a extensão da palavra. E mau caráter.
O que se pergunta é: por que MWP (foto Getty Images) se transformou novamente em Artest? Artest lutava contra Artest, tanto lutava que decidiu pelo desaparecimento de Artest. Criou Metta World Peace. MWP parece lutar desesperadamente contra essa outra personalidade, violenta, que às vezes vêm à tona e estraga tudo de bom que deve existir por trás desse cara de músculos salientes e atitudes atrevidas.
MWP leiloou seu único anel de campeão. Queria dinheiro para doá-lo a instituições que trabalham e pesquisam o comportamento humano do ponto de vista mental. Em outras palavras, instituições que se preocupam e querem entender melhor os desvios de personalidade no ser humano, que muitas vezes criam histórias aterrorizantes, daquelas que a gente vê pipocar no noticiário. Artest se preocupava com isso, porque sabia que dentro dele, lá no fundo, existe um cara assim. E esse cara ele quer sufocar, matar — para não morrer.
Esse cara é Ron Artest. Ontem ele reapareceu. Deve ter envergonhando Metta World Peace. Deve tê-lo levado às lágrimas. Deve tê-lo feito acordar nesta manhã de segunda-feira e ido buscar rapidamente o consolo e o entendimento no divã de seu psicanalista.
No fundo, eu consigo ver um cara bom dentro de Artest. Esse cara é Metta World Peace.
PUNIÇÃO
Independente do esforço de Metta World Peace em se transformar num ser humano melhor, ele não pode passar incólume ao fato de ontem. MWP tem que ser punido — e com rigor.
Apenas a suspensão de uma partida é muito pouco. MWP tem que pegar uma suspensão pesada. Gesto assim vai ajudá-lo na busca de uma pessoa melhor. Afagar sua cabeça e deixar que tudo isso acabe com uma suspensão branda só vai atrapalhá-lo.
ALTERNATIVA 1
O resultado da recaída de Metta World Peace abriu brecha para o surgimento de Devin Ebanks. Antes de a temporada começar, disse nesse botequim que via qualidades em Ebanks pelos jogos que assisti na pré-temporada diante do Clippers. Mike Brown, todavia, não tinha o mesmo pensamento meu. Tanto que Ebanks mal entrou em quadra nesta temporada.
Ontem, foi jogado às feras. Teve de marcar simplesmente Kevin Durant, um dos melhores jogadores de sua geração e, para muitos, o futuro sucessor de Kobe Bryant. E conseguiu.
No primeiro tempo de jogo, marcado por MWP e Matt Barnes, KD fez 21 pontos. No segundo tempo, com Ebanks em sua cola, Durant anotou 12. Foi reduzido quase que a metade. Na primeira prorrogação, KD zerou, mas na segunda, mostrou a Ebanks que ele, embora tenha muito talento defensivo, ainda terá que queimar muita lenha para anulá-lo completamente: KD anotou simplesmente nove pontos, todos os nove pontos do OKC neste último tempo-extra. Mas foram insuficientes.
O Lakers venceu e Ebanks também. Marcou muito bem a Durant e deixou claro para o treinador que quando o time precisar de seus préstimos, de seu talento defensivo, é só chamá-lo que ele estará pronto. E em playoffs, defesa é artigo cobiçado por todos.
ALTERNATIVA 2
Com Andrew Bynum atrapalhado em quadra (tomou dois tocos humilhantes de Serge Ibaka em uma mesma jogada), sendo eficiente apenas nos tocos (distribuiu cinco nos 28:57 minutos em que jogou), o que fez Mike Brown? Passou Pau Gasol para o pivô e deixou Jordan Hill como ala de força. E deu certo.
Assim que terminou o terceiro quarto, com o OKC na frente em 77-61, o treinador angelino mandou a quadra o seguinte quarteto: Steve Blake, Ramon Sessions, Devin Ebanks, Jordan Hill e Pau Gasol. Com 8:08 de bola pingando, Brown colocou Kobe Bryant na vaga de Sessions. O Lakers perdia por 81-68. Com esse quinteto, Blake, Kobe, Ebanks, Hill e Gasol (foto Getty Images), o Los Angeles fez uma corrida de 23-10, empatou o jogo em 91 pontos e levou-o à prorrogação. Hill contribuiu no segundo tempo com seis pontos e seis rebotes, terminando o tempo regulamentar com 12 pontos e dez ressaltos.
Vieram as duas prorrogações e Hill adicionou mais dois pontos e cinco rebotes, terminando a partida com 14 pontos e 15 rebotes. Ao lado de Gasol, foi o dono do garrafão do Lakers “down the strecht”. E deixou claro para a franquia que vale a pena apostar em seu jogo sempre que Bynum se deixar levar pela soberba.
Corretamente Mike Brown deixou seu pivô titular no banco todo o último quarto e as duas prorrogações.
MARCAÇÃO
Gostei de ver Kobe Bryant ontem. Não pelos seus 26 pontos, oito assistências e seis rebotes. O que eu gostei foi de vê-lo marcando em cima Russell Westbrook nos momentos derradeiros da partida.
Kobe não é mais nenhuma criança, precisa de repouso para aguentar principalmente os playoffs. Mas tem momentos em que ele, líder que é, tem que chegar para o treinador e dizer: estou pronto para a batalha; deixa que de Westbrook cuido eu.
Foi o que ele fez. Westbrook foi um desastre na partida: 3-22 nos arremessos (13,6%). Salvou-se pelas dez assistências.
ENCANTO
Sobre o Oklahoma City, o que dizer? Nada, simplesmente nada, pois eu só tive olhos ontem para ver o Lakers jogar.