Irado com o basquete que Derrick Rose está jogando e, provavelmente incomodado com o fato de que o Chicago passou a perna no Boston (pelo menos por enquanto), nosso bom amigo e parceiro de botequim Reirom veio com essa no último sábado: “Sormani, Rose se for MVP será o segundo pior MVP em “field goals”. Você sabia disso? Um dos piores MVPs de todos os tempos…”
Quando a gente se deixa levar pelas armadilhas do coração pode cometer equívocos. Quando deixamos o fanatismo nos cegar, tornamo-nos imprecisos. E isso ocorre com o nosso Reirom no momento.
A opinião dele, claro, será sempre respeitada. Ele tem todo o direito de achar que Rajon Rondo é melhor que D-Rose. E não tem nenhum absurdo nisso, pois algumas pessoas também acham isso.
Mas desqualificar a temporada de D-Rose por conta de um suposto baixo aproveitamento de arremessos não me parece sábio. Além disso, a informação que ele nos traz não é correta, pois dois outros jogadores foram eleitos MVPs e tiveram aproveitamento de arremessos inferior aos atuais 43,9% do armador do Chicago Bulls.
Eleito segundo MVP da história da NBA, Bob Cousy ganhou o troféu ao final da temporada 1956/57. Ex-armador do Boston Celtics, eleito um dos 50 maiores jogadores da história da NBA, Cousy (Foto Reprodução) teve um aproveitamento, naquela temporada, de 37,8%.
Ao lado de Bill Russell, era um dos sustentáculos daquele Celtics que não encontrava adversário pela frente. Conquistou seis anéis.
Allen Iverson foi escolhido o melhor jogador da temporada 2000/01. Na ocasião, levou nas costas o Philadelphia à decisão do título contra o Lakers. Perdeu, é verdade, mas jogou muita bola durante toda aquela temporada. Iverson teve aproveitamento de exatos 42% de seus arremessos naquela temporada.
Portanto, a informação não é correta de que D-Rose, se eleito for o MVP desta temporada, será o segundo com pior aproveitamento de arremessos.
Mas eu pergunto: vamos desqualificar Cousy e Iverson porque eles tiveram aproveitamento baixo nos arremessos? Não me parece que seja apenas por aí que se avalia o desempenho de um jogador em um campeonato.
Além do mais, a temporada não acabou. D-Rose tanto pode manter sua atual média, como melhorá-la ou mesmo piorá-la.
O MVP, como disse, não é escolhido pelo seu aproveitamento nos chutes. Fosse assim, nosso Nenê Hilário, que tem o melhor “field goals” da liga neste momento (62,2%), estaria entre os candidatos ao troféu. Não está.
O que se mede na escolha do prêmio é o que o jogador fez na temporada como um todo. Não apenas nos chutes. Mas se formos olhar apenas para este fundamento, a melhora de D-Rose em relação à passada é extraordinária.
No campeonato anterior, o armador do Bulls acertou apenas 16 arremessos de três pontos de um total de 60 chutados, o que deu um aproveitamento de apenas 26,7%.
Nesta temporada, D-Rose já encestou 112 bolas triplas! Arremessou, é verdade, muito mais: 237. Seu percentual de aproveitamento é de 33,2%.
Se alguém torcer o nariz para o percentual de D-Rose, lembro que LeBron James, cotado por alguns para ser o MVP desta temporada, tem aproveitamento de 33,5% nas bolas triplas. Dwyane Wade, seu companheiro no Miami Heat, apresenta desempenho de 31,1%. E Kobe Bryant, também apontado por outra parcela como merecedor do MVP deste ano, tem performance de 32,1%.
A melhora no aproveitamento nos arremessos, a coragem em arremessar mais, tudo isso é fruto de um exaustivo trabalho feito pelo armador do Chicago durante o verão norte-americano, antes de ele se apresentar à seleção dos EUA que jogou o Mundial da Turquia e foi campeã.
Foge-me o nome de um dos amigos-parceiros deste botequim que enviou-me o link de uma matéria no site da ESPN norte-americana. Nesta matéria, Derrick revela o segredo da melhora de seu arremesso: ele foi até a Califórnia treinar com Rob McClanaghan (Foto Cortesia).
“Ele (McClanaghan) é a razão pela qual eu estou tendo muito sucesso no meu arremesso este ano”, disse Rose.
Além de melhorar a mecânica no arremesso de D-Rose, McClanaghan trabalhou também com o emocional do jogador. Melhorou sua autoconfiança.
“No passado, ele (Rose) perdia três ou quatro arremessos seguidos e parava de arremessar por um quarto inteiro”, disse McClanaghan. “Nesta temporada, em um jogo contra o Atlanta, ele errou seus sete primeiros arremessos e terminou a partida com 34 pontos”.
Com a melhora no aproveitamento nos chutes, mais confiante, Derrick é outro jogador nesta temporada. Não tem nada a ver com o jogador da temporada passada.
E quem tira proveito disso é o técnico Tom Thibodeau. É óbvio que TT montou esse time do Chicago. É óbvio que sem ele esse time não estaria rendendo o que rende no momento. Mas é mais óbvio ainda que se não fosse D-Rose o Chicago não estaria onde está.
É ele que entra em quadra e coloca os desenhos de Thibodeau em prática. Por melhor que sejam os desenhos táticos de um treinador, se ele não tiver gente para desempenhar, não tem jeito. Não funciona.
Portanto, para quem acha que o segredo do sucesso do Bulls desta temporada em comparação com a passada é Thibodeau, está aí o meu argumento contrário. Não só meu, mas de quase todos que estão ligados direta ou indiretamente à NBA: treinadores, jogadores e jornalistas.
Um dos argumentos mais sólidos a favor de Rose é que mesmo sem poder contar a seu lado com Carlos Boozer e Joakim Noah, os outros dois principais jogadores do time, Derrick conseguiu fazer o Chicago funcionar.
O Bulls tem hoje a melhor campanha da Conferência Leste e a segunda melhor da NBA. Tem um cartel de 53 vitórias e 19 derrotas. Desempenho de 73,6%.
No campeonato passado, aquele onde Derrick encestou apenas 16 arremessos de três, o Chicago fez 41-41; 50% de aproveitamento.
A melhora é substancial. Nenhum dos favoritos ao título apresentou uma melhora tão significativa.
Por tudo isso (melhora nos arremessos, mais confiante, amadurecimento em quadra na condução do time, capacidade de fazê-lo muito melhor do que na temporada anterior, ser eleito para o time titular do Leste no “All-Star Game”, respeito adquirido pelos adversários), por tudo isso Derrick Rose está cotadíssimo para ser o melhor jogador desta temporada.
Como já disse aqui, se não for ele, quem será?
Dwight Howard? Não dá para comparar: veja a campanha de um (Chicago) e de outro (Orlando).
LeBron James? O Miami passou por poucas e boas nesta temporada; o Chicago foi extremamente regular.
Kobe Bryant? Até o momento não há como comparar o desempenho dos dois: Rose está jogando mais do que Black Mamba.
É como eu disse: se não for D-Rose, quem será? Ele reúne no momento todos os ingredientes indispensáveis para se fazer o melhor jogador desta temporada.
Parece-me indiscutível.
