
Kobe faz mais dois pontos diante de Duncan (AP)
Kobe Bryant ainda está na pauta do dia. O campeonato começou há quase duas semanas e o mimado craque do Lakers continua indócil. Quer deixar a franquia. Aliás, já disse isso pra todo mundo.
Kobe está incomodado com a fraqueza do time. Diz que do jeito que está não tem condições de ganhar campeonatos (cá pra nós, ele tem razão). Por isso, quer se mandar.
Seu comportamento, entretanto, custou-lhe um pesado tributo no jogo inaugural desta temporada. Num ineditismo constrangedor, foi vaiado impiedosamente pelos 18.997 torcedores do Lakers que lotaram o Staples Center, que fica no coração de LA, quando da apresentação dos jogadores titulares na derrota para o Houston (95-93).
A vaia estrondosa já passou. O time voltou a jogar no Staples e isso não mais aconteceu. Mas o torcedor sente-se traído.
Ele se pergunta: porque o time é fraco é motivo para virar as costas para quem sempre o tratou com carinho e distinção?
Não, não é, pensam os fãs.
Cá pra nós, concordo mais uma vez. Agora com os torcedores.
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Esta é parte de um artigo que escrevi em novembro do ano passado. Quem me acompanha aqui no iG há de se lembrar.
Kobe, como disse, estava indócil, queria ir embora. Isso mesmo, queria ir embora do Lakers!
E havia muito tempo. Desde o final da temporada passada, para ser mais exato.
Ele não se conformava principalmente com o trabalho realizado pelo gerente geral da franquia, Mitch Kupchak.
“Esse cara não entende nada”, dizia sempre, pedindo a volta de Jerry West, que ocupava o cargo – West que foi o responsável pela sua contratação em 1996, numa troca com o Hornets envolvendo o pivô Vlade Divac, negócio da China, convenhamos.
Kobe chegou a entrar na sala do dono do Lakers, Jerry Buss, para dizer que se Kupchak não fosse demitido e West recontratado, iria embora.
Foi acalmado pelo patrão.
A birra de Kobe com Kupchak, que jogou no Lakers de 1981 a 1986 e ganhou dois campeonatos, começou com a troca de Shaquille O’Neal com o Miami, em 2004. O Lakers recebeu Lamar Odom, Caron Butler e Brian Grant. Kobe torceu o nariz para os três.
Para piorar, um ano depois, Kupchak mandou Butler – o destaque do três e que se tornou o melhor amigo de Kobe no time – para o Washington e recebeu o pivô Kwame Brown, troca que se revelou um desastre.
No ano passado, quando o time foi eliminado pelo Phoenix nos playoffs, Kobe, inconformado com a eliminação, acionou novamente sua metralhadora contra Kupchak (na foto, levantando o troféu).
“Esse cara não entende nada”, voltou a dizer, tudo porque o executivo não aceitou trocar Jason Kidd por Andrew Bynum, como queria Kobe.
“Onde já se viu deixar de pegar um futuro ‘hall of famer’ para ficar com um garoto?”, indignou-se à época. Segundo Kobe, para chegar ao título, o Lakers precisava da experiência de Kidd.
Exatamente por causa deste comportamento individualista, o camisa 24 não se dava com ninguém dentro da franquia, exceto o técnico Phil Jackson. Era odiado por quase todos em função deste egocentrismo.
Quase sete meses depois de ter sido vaiado em pleno Staples Center, ontem (29/05) Kobe foi aplaudido de pé pelos torcedores e pelos companheiros ao levantar a bola prateada de campeão da Conferência do Oeste, o que dá ao Lakers o direito de disputar o título desta temporada, o que não acontecia desde 2004. Foi o segundo bom fruto que ele colheu da ótima semente que ele plantou dentro da franquia.
O que aconteceu para que houvesse toda essa mudança?
Depois de uma longa conversa com Jackson, logo após o incidente da vaia contra o Houston, Kobe resolveu fechar o bico. Ninguém sabe o que eles falaram. Mas Phil fez a cabeça dele.
Kobe buscou uma reaproximação com os companheiros. Passou a convidá-los para jantares em família. Ou em sua mansão, em Newport Beach, ou em restaurantes que ele fechava para a confraternização.
As cobranças e as broncas diminuíram e todos começaram a se sentir bem na presença do mimado jogador.
Kobe passou também a tratar melhor os torcedores. Dentro e fora de casa. Não recusava mais um pedido de autógrafo, uma foto ou um simples aperto de mão.
Mudou seu comportamento também com os jornalistas. Passou a tratá-los com atenção.
Antes de levantar a bola prateada, Kobe foi escolhido, pela mídia – é, pela mídia – como o melhor jogador desta temporada, troféu que ele nunca tinha conquistado e que tanto cobiçava.
Este foi o primeiro fruto bom que ele colheu depois da longa conversa com Phil Jackson.
Com o espírito acalmado, foi percebendo a qualidade diretiva de Kupchak. O primeiro sinal veio com o desempenho de Bynum. Deve ter pensado: “É, acho que o cara (Mitch) tem razão, o moleque é bom de bola”. Já pensou se o Lakers o tivesse trocado por Kidd?
E o respeito definitivo para com Kupchak veio quando o executivo trocou Kwame Brown por Pau Gasol – outro negócio da China, concordam?
Voltando ao começo da história: a troca de Shaq com o Miami foi, na verdade, por Lamar e Gasol. Não foi um negócio da China?
“Antes eu dava um F para Mitch, hoje eu dou um A”, disse, recentemente, Kobe Bryant.
A cerimônia de entrega da bola prateada foi ironicamente apresentada por Jerry West. Ele entregou o troféu primeiro para Mitch Kupchak. Elogiou a todos, jogadores – especialmente Kobe -, técnicos, dirigentes e a cidade de Los Angeles. Kupchak agradeceu e fez o mesmo. Kobe também, mas sem mencionar Kupchak.
Nem precisava.
O incontido e largo sorriso em seu rosto era sinal mais do que evidente de aprovação por tudo o que tem sido feito dentro do Los Angeles Lakers.
E o passo derradeiro começará a ser dado a partir de 5 de junho, quinta-feira da semana que vem.
Não consigo ver outro final para esta história.