MIAMI: FIM DE UM SONHO?
Mais uma temporada indo para o espaço? E se for mesmo, o que isso significará? Fim de um projeto que tinha tudo para decolar? Que tinha tudo para transformar em anéis a reunião de três grandes jogadores e transformar o Miami em um time inesquecível na rica história da NBA?
A resposta nós não temos ainda. Mas que tudo caminha para desembocar em um final trágico, decepcionante, frustrante, isso tem. A derrota de ontem do Heat para o Pacers, em Indianápolis, não foi apenas um revés de jogo, daqueles que acontecem porque estamos em semifinal de playoffs e nesta fase a tendência é de jogos equilibrados. A derrota de ontem por 94-75 foi emblemática em quase todos os sentidos.
O time voltou a mostrar fragilidade em quadra. Voltou a mostrar debilidade de um de seus principais jogadores. E, mais do que isso, Dwyane Wade, o atleta em questão, teve uma reação explosiva com o técnico Erik Spoelstra daquelas que indicam que há muito mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode imaginar. Brigas de jogo ocorrem, mas o jeito que D-Wade tratou e desafiou Spo deixou claro que o técnico não goza de prestígio e respeito junto aos jogadores.
Aliás, desde que esse time se juntou no sul da Flórida, muitos têm cantado essa bola. Muitos disseram que Spo não tinha estofo para dirigir e comandar um time com D-Wade, LeBron James e Chris Bosh (fotoAP). E por ser jovem demais, seria tratado como tal. Ontem foi D-Wade; ano passado foi LBJ (lembram-se?) que desafiou a autoridade do treinador ao dar uma ombrada violenta em Spo num pedido de tempo.
Sempre achei que com Spo ou com outro qualquer o Miami seria campeão. Sempre achei que a importância de um treinador é limitada, pois ele não entra em quadra. Sempre achei que um time com três craques, cercados por bons coadjuvantes teria tudo para ganhar vários anéis. Cheguei a prever quatro anéis para esse time levando-se em conta o contrato de cinco anos que eles firmaram com a franquia.
Começo a achar que me enganei. Mas por que eu me enganei? Creio que isso tem a ver, claro, com os jogadores e com o treinador. Esses jogadores do Miami me parecem fracos de caráter. Não aguentam um tranco forte e não conseguem se reagrupar na adversidade. E o treinador, além de não ter muito conhecimento da matéria, não consegue motivar o grupo, pois o grupo não acredita nele.
Mas só o treinador e os jogadores são os culpados? Claro que não. Pat Riley, presidente da franquia, o homem que arquitetou esse time, tem grande culpa no cartório. Ele está lá dentro, sabe o que acontece dentro do vestiário do time. E não faz nada para mudar a situação. A impressão que dá é que Riley tornou-se um turrão. Não quer dar o braço a torcer, por exemplo, na questão do treinador. Sim, pois quando Spo foi escolhido por ele para comandar o time, alguns ficaram surpresos, outros riram, e uma minoria achou que seria mesmo interessante apostar em um novo técnico.
Isso não está dando certo. Todo mundo está vendo. Menos Pat Riley? Claro que não; ele está vendo. Mas, como disse, ele parece ter se transformado em um homem turrão, que ao invés de tornar-se sábio com o passar dos anos, com a idade que avança, está se tornar um obtuso. E, por conta disso, não tenta consertar o que precisa ser consertado.
Quanto ao relacionamento entre os jogadores, não consigo detectar mau relacionamento entre eles. Nada li a respeito. Então, o problema parece mesmo estar com o treinador. Só pode ser isso. O que mais seria? Salários atrasados? Brincadeira, né?, isso não existe na NBA. Desfalque de Chris Bosh? Pode ser, claro, pois o Miami não é um time forte no garrafão e CB1 segura essa onda sozinho faz tempo. A saída dele do time fragilizou o setor.
Ontem, por exemplo, o Pacers pegou 52 rebotes contra 36 do Heat. Roy Hibbert, um jogador comum, pegou nada menos do que 18. E ainda marcou 19 pontos. David West, apesar de não ter cravado um “double-double” como Hibbert, transformou-se no xerife do time nesta série. Fala grosso e ninguém retruca. Fala grosso, bate o pé e os forasteiros de Miami saem correndo. Com Bosh, provavelmente, seria bem diferente.
Ok, concordamos então que Bosh faz falta. Mas atribuir à ausência dele a corrida desconcertante que o Pacers fez no segundo tempo de ontem (51-32) é tentar tapar o sol com a peneira. Atribuir à ausência de Bosh o momento em que o Miami vive é mesmo tentar tapar o sol com a peneira. Há muito mais do que isso.
D-Wade não rende. Mas não rende por quê? Boa pergunta. Talvez esteja externando seu descontentamento com Spo, algo que ele estava tentando conter, mas que agora, vendo que a debacle será inevitável, já não faz questão de esconder. Wade parece viver no mundo da lua. Ontem, por exemplo, terminou o primeiro tempo zerado. Acabou a partida com cinco pontos (2-13), cinco rebotes e apenas uma mísera assistência.
LeBron faz o que pode. Mas sozinho não vai levar o time a lugar nenhum. Além disso, o que ele pode fazer não é tudo o que a equipe precisa. LBJ sente claramente a pressão dos finais das partidas e isso é um grande problema.
CB1 está fora lesionado, D-Wade se rebelou, LBJ briga sozinho. No meio disso tudo está o grupo. Os jogadores, aqueles que deveriam ser o suporte para que os Três Magníficos brilhassem e conquistassem títulos, esses jogadores estão assustados. A gente vê isso com muita clareza. E assustados o que eles podem fazer? Muito pouco. Ontem, Mario Chalmers fez 25 pontos. Mas Shane Battier zerou, Udonis Haslem zerou, Noris Cole zerou, Dexter Pittman zerou e Mike Miller e James Jones combinaram para apenas oito pontos. Patético.
A pressão da mídia e dos torcedores do Miami é grande demais neste momento. Muitos lá, como cá neste botequim, pedem a intervenção de Pat Riley, como ele fez em 2006 ao demitir Stan Van Gundy, assumir o time e levá-lo ao título. Mas na época Riley (foto AP) tinha 61 anos. Hoje está com 67. Diz não ter mais energia para dirigir uma equipe durante toda uma temporada.
Mas nós não estamos nos playoffs? Pois é, a temporada ficou quase que todinha para trás. Riley teria que assumir o time e dirigi-lo em alguns poucos jogos. Mas, como disse, ele parece ter se transformado em um turrão. Não vai fazer isso, pois fazer isso seria assinar atestado de burrice.
Será mesmo que é isso o que ele pensa? Mas não seria burrice maior não intervir no time neste momento?
MARES TRANQUILOS
Enquanto isso, o San Antonio segue firme e forte em sua série diante do Clippers. Venceu ontem por 105-88. Pegou mais rebotes (35-32; Blake Griffin pegou apenas um!), mais rebotes ofensivos (6-1), marcou mais pontos no garrafão (50-18), cometeu menos erros (11-18; Chris Paul cometeu oito!) e fez mais pontos de contra-ataque (15-9).
O SAS vai muito bem, obrigado. Esse parece mesmo estar na final do Oeste. E, ao que tudo indica, será mesmo diante do Oklahoma City.
A menos que o Lakers reaja. E se for reagir, que trate de começar esta noite.
Notas relacionadas:
Autor: Fábio Sormani Tags: Blake Griffin, Chris Bosh, Chris Paul, David West, Dwayne Wade, Eric Spoelstra, LeBron James, Pat Riley, Roy Hibbert










