Ontem comemorou-se 50 anos de um dos maiores feitos na história do basquete mundial: Wilt Chamberlain anotou 100 pontos na vitória de seu Philadelphia diante do New York por 169-147.
Nada escrevi e fiquei com a consciência pesada. Por isso, mesmo tardiamente, dedico algumas linhas a Chamberlain. Mas pouco vou falar do fato em si, que já foi retratado fartamente pela mídia. Vou ater-me a algumas curiosidades de sua vida, que, penso eu, vale registro.
Pra começar, note-se que Philadelphia de Wilt não era este Sixers de hoje, mas sim o Warriors. Este Philadelphia ficou na Filadélfia de 1946 (começo da NBA) até o final da temporada 1961-62. Ou seja: logo depois de ele ter estabelecido esse recorde histórico, o Warriors deixou a Costa Leste e se estabeleceu na Oeste, jogando como San Francisco Warriors e mais tarde se transformou no Golden State.
Wilt, “The Stilt”. Era esse seu apelido. Por que Stilt? Porque “stilt”, em inglês, significa “perna-de-pau”. Mas, é óbvio, sem a conotação pejorativa que usamos por aqui quando nos referimos a jogadores de futebol desprovido de brilho técnico.
Essa perna-de-pau é aquela mesma que os palhaços usam nos circos para entreter adultos e principalmente crianças. E as pernas de Wilt, magrelas, pareciam aquelas pernas-de-pau. Daí o apelido.
Chamberlain foi um jogador notável. Casou-se com os números.
Além de ter estabelecido o maior número de pontos em uma partida de basquete em toda a história do basquete em todo o planeta, Chamberlain anotou outros recordes na NBA. Selecionei alguns:
1) Em 32 oportunidades marcou 60 ou mais pontos;
2) Em 118 oportunidades marcou 50 ou mais pontos;
3) Em 271 oportunidades marcou 40 ou mais pontos;
4) Em 65 oportunidades marcou 30 ou mais pontos;
5) Média de 50,4 pontos por jogo na temporada 1961-62;
6) 4.029 pontos marcados na temporada 1961-62;
7) Média de 37,6 pontos em sua temporada de “rookie”;
8) Anotou 53 pontos como “rookie” nos playoffs de 1960;
9) Em nove oportunidades liderou a NBA em “field goals”;
10) Acertou 36 arremessos nesta partida contra o New York;
11) Nesta mesma temporada, 1961-62, anotou 50 ou mais pontos em 45 ocasiões;
12) Foi o jogador que mais lances livres bateu: 11.862;
13) Foi o jogador que mais pegou rebotes: 23.924;
14) Na temporada 1960-61, pegou uma média de 27,2 rebotes por partida;
15) Ao lado de Michael Jordan, em sete oportunidades seguidas foi o cestinha da NBA;
16) Atingiu a marca de 20 mil pontos em apenas 499 partidas;
17) Atingiu a marca de 25 mil pontos em apenas 691 partidas;
18) Atingiu a marca de 30 mil pontos em apenas 941 partidas;
Ufa! Tem mais, mas não vou apoquentar vocês com tantos números.
O último que vale ser mencionado é este: em 1991, ao escrever sua segunda biografia, “A View from Above”, ele declarou ter ido para a cama e transado com 20 mil mulheres. Uau!
INTERFERÊNCIA
O impacto de Wilt Chamberlain no jogo foi imenso. Não apenas por conta dos números mencionados acima, mas por ter interferido nas regras do jogo também.
A regra da descendente foi criada exatamente porque Chamberlain, quando defendia, ficava à frente da cesta dando tapas nas bolas pra tudo quanto é lado, impedindo que o inimigo pontuasse. Ou seja: ele fez a regra do jogo mudar — e isso é incrível!
Teve mais: quando batia um lance livres, Chamberlain saltava em direção à cesta e quase enterrava. Por causa disso, ficou estabelecido que os jogadores não poderiam ultrapassar a linha do lance livre quando fossem batê-los. Wilt novamente mexendo na regra do jogo. Espetacular!
Chamberlain era um mito, um gênio, um artista.
CARREIRA
Wilt Chamberlain jogou três anos na Universidade do Kansas, o Jayhawks. Não completou a faculdade porque não se divertia mais atuando na NCAA. Os adversários simplesmente não o deixavam jogar: colocavam até três jogadores em seu redor, impedindo que ele se movimentasse.
Puxou o carro e juntou-se ao Harlem Globetrotters ao invés de ir para a NBA. Naquela época, a liga não era lucrativa e exibir-se com os Trotters era muito mais vantajoso.
Foi para a NBA em 1959, selecionado pelo Philadelphia Warriors, o time de sua cidade. Naquela época, no entanto, por ter jogado com os Globetrotters, Chamberlain morava em Nova York. Ia de trem todos os dias para a Filadélfia para treinar e jogar.
E sofria de uma terrível dor de estômago que os médicos jamais conseguiram detectar a causa.
Na Califórnia, jogando pelo Lakers, antes mesmo de encerrar a carreira, quando chegava o verão e a NBA dava seu tradicional “break”, Chamberlain ia jogar vôlei de praia na costa californiana.
IMPACTO
Vi apenas uma vez Chamberlain na vida. Foi no “All-Star Game” de 1997, em Cleveland. Na ocasião, a NBA estava completando 50 anos de vida e tinha acabado de eleger os 50 maiores jogadores de sua história. Wilt entre eles.
Estávamos em um hotel no centro da cidade. Uma de suas amplas salas de reuniões foi reservada pela liga para que todos os jogadores (à exceção de Pete Maravich, que havia morrido 11 anos antes) pudessem conversar com a mídia.
Michael Jordan e Charles Barkley não compareceram ao evento. Foram jogar golfe e pagaram, cada um, US$ 20 mil de multa. Muito antipático da parte deles, concordam?
Mas Wilt estava lá. Estava sentado em uma cadeira e à sua frente havia uma enorme mesa redonda. E um batalhão de repórteres.
Wilt impressionava pelo tamanho. Não era mais aquele rapagão magrelo dos tempos de “college”, Trotters e NBA. Aos 61 anos, já acumulava certa gordura e isso o deixava imenso. Mas ele ainda estava esbelto.
A idade impunha a Wilt certa calvície. Mas ao contrário de Michael Jordan, que resolveu raspar a cabeça para evitar, provavelmente, constrangimentos, Chamberlain não se incomodava com isso.
Usava óculos escuros, mesmo dentro do salão do hotel. E uma camiseta preta, com ligeira gola rulê. A manga da camiseta era curta, o que ressaltava a musculatura de seus braços. Usava também uma corrente de ouro em torno do pescoço.
Foi atencioso com todos. Sempre sorrindo respondeu a todas as perguntas.
Dois anos depois, morreu em sua casa, em Bel-Air, Los Angeles. Foi vítima de um enfarte fulminante. Tinha apenas 63 anos, mas viveu intensamente cada momento.
Os números mostram isso.