‘ROY’? SÓ QUANDO O CARNAVAL CHEGAR. MAS NORRIS COLE CHAMOU A ATENÇÃO
Alguns parceiros têm me pedido para analisar os “rookies” desta temporada e tentar apontar quem provavelmente será eleito o melhor de todos. Minha resposta é sempre a mesma: não me sinto em condições de fazer isso, pois não acompanho com atenção nem o “college” e nem os torneios europeus. Uma olhada aqui, outra piscadela ali, mas nada que me credencie a analisar os novatos.
Desta forma, seria desonesto da minha parte dizer que A ou B será o “Rookie of the Year” desta temporada. Acho que vocês me entendem.
Além disso — e isso é o mais importante —, uma coisa é jogar no universitário e na Europa, outra é atuar na NBA. Na escola e no Velho Mundo o jogo é amarrado — e o jogador também.
Não são poucos os atletas por quem você não dá nem um tostão furado sequer e quando chegam à NBA acabam se soltando e passam a jogar um basquete que os credenciam a destaques de uma geração.
Pegue como exemplo o armador Kyrie Irving. Como disse, não acompanho o universitário com profundidade, mas vi Kyrie (foto) em ação algumas vezes com a camisa de Duke. Pergunto: ele jogava esse bolão que tem jogado no Cleveland quando era atleta do Coach K?
De jeito nenhum. Lá ele era amarrado pelo sistema do treinador; excelente, por sinal.
Vamos traçar um paralelo com a música. Pegue um músico de jazz e obrigue-o a tocar apenas o que a partitura manda.
É claro que ele vai tocar bem, pois conhece música. Mas o que ele tem de melhor, que é o improviso, o som que vem do fundo da alma, do coração, isso não está escrito na partitura.
É isso que acontece no basquete dos moleques e/ou dos europeus. Por isso, quando eu leio que a classe do ano que vem vai ser a melhor desde 2003, eu fico com um pé atrás. Como é que os caras sabem disso?
Por conta disso tudo, eu prefiro não apontar estes ou aqueles como os melhores do universitário e/ou da Europa e que podem concorrer para o prêmio “Rookie of the Year” desta temporada.
Volto a Kyle Irving: nas poucas vezes que o vi jogar, eu não vi com a camisa de Duke esse jogador desenvolto, de grande habilidade, insinuante e intuitivo que vi em duas partidas com a camisa do Cavs.
Ontem à noite, no entanto, no confronto entre Miami e Boston, eu vi um novato que me deixou encantado. Não, não vou usar de soberba e dizer que detectei ali um dos prováveis candidatos ao prêmio de ROY desta temporada, pois não posso me contradizer alguns parágrafos depois. Qualquer um iria perceber esse defeito.
Mas fiquei encantado com o que vi deste garoto de 23 anos e que agora eu revelo o nome: Norris Cole.
Lá pelas tantas, final do primeiro quarto, ele saiu do banco de reservas do Heat com a camisa 30. Um catatauzinho: 1,88m. Tinha a espinhosa missão de não apenas conduzir o jogo do time do sul da Flórida, mas se topasse com Rajon Rondo, o experiente condutor do adversário, um dos destaques da equipe alviverde neste começo de temporada, de marcá-lo também.
Claro que o final de jogo de Cole foi espetacular. Dos últimos nove pontos do time da casa, oito saíram das mãos deste baixinho atrevido. Mas os seis derradeiros é que chamaram a atenção.
Se você não viu o jogo, eu conto o que aconteceu…
O Heat tinha aberto 20 pontos de vantagem sobre o Boston e o time de Massachusetts, por conta de uma defesa zona 2-3 que mudava para uma 2-1-2, sempre com Kevin Garnett centralizado, controlou o ataque dos anfitriões e foi diminuindo, diminuindo e diminuindo a diferença. A dois minutos do final ela caiu para três pontos depois que Keyon Dooling acertou um petardo triplo: 108-105.
As estrelas Dwyane Wade e LeBron James estavam empacadas e não conseguiam mais pontuar. Foi então que Cole resolveu que iria resolver a questão e se transformaria na estrela do jogo.
A 1:31 do fim Norris acertou um “jumper” da cabeça do garrafão e levou a vantagem para cinco pontos: 110-105. Brandon Bass respondeu pelos visitantes: 110-107. Mas Cole não se intimidou: novo “jumper”, mais dois novos pontos: 112-107. Bass, desta feita, no ataque do Celts, errou.
Depois de D-Wade ter aproveitado apenas um lance livre e levado a vantagem para 113-107, a 21 segundos da buzinada final, Rajon bem que tentou colocar o Celts no jogo novamente, mas as mãos ágeis de Cole tiraram a pelota laranja das mãos do armador adversário, obrigando Rajon, num gesto de desespero, a fazer falta.
Cole bateu os dois lances livres e derrubou ambos: 115-107, placar final da peleja, assistida ao vivo por 20.166 torcedores que deixaram a AmericanAirlines Arena boquiabertos com o tamanho da personalidade de Norris Cole.
Claro que o final de jogo de Cole foi espetacular, mas quero frisar que tão impressionante quanto os pontos decisivos e sua desenvoltura ofensiva, a defesa de Cole chamou-me igualmente a atenção. Com ele em quadra Rajon teve muita dificuldade e cometeu a maioria de seus sete erros e viu despencar sua pontuação também.
Quem é Cole? Rapidamente eu conto…
Ele veio da pouco afamada Cleveland State. Pra ser sincero, da pequena Cleveland State, uma escola que não tem tradição alguma no torneio de basquete da NCAA.
Lá ficou quatro anos. Lá ele conseguiu um diploma, aprendeu a disciplina do jogo e a disciplinar o corpo também.
Mas o basquete ele vai jogar agora, na NBA.
Por isso, volto a dizer: não faço a menor ideia de quem será o melhor novato desta temporada. A mídia nos EUA é manipuladora, muito mais do que aqui no Brasil. Se ela resolver que Rick Rubio será o ROY, Rubio será o ROY. Se ela entender que o ROY tem que ser Cole, Cole será o ROY.
A mídia nos EUA cria ídolos com muita facilidade. O oposto, felizmente, não é verdadeiro, e esta é uma das facetas que eu mais aprecio no trabalho dos jornalistas americanos. Dificilmente eles jogam na lama alguém, como acontece no Brasil com muita frequência.
Estou atento aos “rookies”; sempre. À medida que o torneio for passando eu vou dar meus pitacos e quando o Carnaval chegar, como diria Chico Buarque de Holanda, talvez eu já tenha o meu eleito.
A única coisa que dá pra eu dizer agora é que fiquei muito impressionado com Norris Cole. Ele foi a 28ª escolha no draft. Alguém apostaria nele para ROY desta temporada?
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Autor: Fábio Sormani Tags: Coach K, Dwyane Wade, Kyler Irving, LeBron James, Norris Cole, Ray Allen











