Quarenta homens e nenhum segredo
Foi no mínimo inusitada a cobertura do treino da seleção brasileira nesta quarta-feira pela imprensa nacional. Depois de pouco mais de 20 minutos de atividade aberta – praticamente apenas os exercícios de aquecimento dos jogadores -, o técnico Dunga anunciou mais uma vez, por meio do diretor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva, que o restante da atividade seria fechada.
Diante de mais um treino secreto (e este, com coletivo, seria o mais importante antes do jogo contra Portugal, já que nos dois últimos os titulares foram poupados e no de amanhã será só uma atividade leve de véspera de jogo), restou aos jornalistas presentes procurarem alguma alternativa para observarem o que acontecia no campo do colégio St. Stithians, atual palco dos treinos brasileiros em Joanesburgo.
Já do lado de fora do portão, a questão que afligia a todos era qual escalada seria mais simples. Um muro, uma árvore ou o telhado de uma casa? Ainda que na base da brincadeira, todas essas opções foram cogitadas. Mas ninguém precisou ir tão longe, já que a varanda de uma empresa da região acabou servindo de “tribuna de imprensa” para esse grande esforço de reportagem coletivo.
“Foi uma surpresa. Pediram para usar a varanda e achamos que seriam umas cinco ou seis pessoas, mas quando vimos eram mais de quarenta”, disse um funcionário da Genso, uma empresa que fornece serviços de remoção de lixo, limpeza e segurança. Hoje, excepcionalmente, a lista de serviços incluiu também o aluguel (gratuito) de espaço para uma redação improvisada.
Quando os últimos jornalistas chegaram, o porteiro da empresa já nem perguntava o que queriam. Apenas indicava “aquelas escadas, à esquerda, depois passe pela sala de reuniões e a varanda é à direita”. Sim, o caminho incluía a sala de reuniões da empresa. E sim, claro, estava acontecendo uma reunião – misteriosamente regada a muita cerveja – simultaneamente ao treino.
Na tal varanda, uma cena que provocou risadas por alguns minutos. Repórteres, editores, fotógrafos, cinegrafistas… Os principais grupos de comunicação do Brasil estavam ali representados. No canto em que era possível ver o campo, distante mais de dois quilômetros, as lentes das câmeras e filmadoras se amontoaram. Na mesa ao lado, computadores abertos, informações geradas a todo o vapor.
No auge da lotação, pelo menos quarenta pessoas dividiram um espaço que tem não mais que 30 metros quadrados. Muita gente que está cobrindo o Mundial de futebol pela primeira vez na carreira, mas também muitos “velhos de guerra”.
Ah, sim! Lá, ao longe, as lentes mais poderosas confirmaram a presença de Júlio Baptista e Daniel Alves treinando no time titular. Mas aqui, na sede da Genso, com os diretores da empresa reunidos na sala ao lado tomando suas cervejas, não faltou quem estivesse mais preocupado em acender logo a churrasqueira presente ao lado da redação temporária.
Quando Dunga encerrou a atividade no campo, aos poucos os jogadores foram deixando o gramado. Aos poucos, os jornalistas foram voltando para seus carros, agradecidos pela receptividade. “Da próxima vez vocês terão que comprar ingressos. Cem dólares pelas cadeiras e cinquenta pra quem quiser assistir em pé”, brincava um dos diretores da empresa.



