Um primeiro dia (11.01.2011) com cara de segundo, por conta dos desfiles do Rio Moda Hype, num Fashion Rio de Inverno 2011 ainda morno. As atenções recaíam sobre Melk-Z-Da, que pela primeira vez em anos perdeu a mão de seu experimentalismo numa coleção que terminou com um vestido-peruca azul digno de Lady Gaga. Dois desfiles, o da Filhas de Gaia e a da Patachou, evocaram “mulheres misteriosas” para justificar cartelas escuras, o que já dá pistas do que teremos pela temporada. Será que todo mundo consultou o mesmo birô de “tendências”?
Na Filhas de Gaia, de Marcela Calmon e Renata Salles, o caminho era mais o da alfaiataria e do masculino / feminino, o que não chega a ser assim uma novidade. Mas embalada pela boa trilha sonora, as modelos usavam casacas e macacões chiques e cinturados, ou vestidos curtos de manga morcego com as pernas à mostra (já mais ao final, em Luana Teifke). Como diferencial, os vestidos-camisola plissados em seda de gravata. Porém, a se levar em conta o verão 2011 florido e balenciaguístico da Filhas de Gaia, a gente se pergunte: afinal de contas o que é a marca?

Alicia K. para Filhas de Gaia

Seda de gravata
na Filhas de Gaia
Na Patachou encontramos mais coerência com a trajetória da grife e mais senso de coleção, no desfile ajudado pelo lindo casting e pelo bom trabalho de beleza (um rabo de cavalo bagunçado, sobrancelha marcada, boca marrim), que teve trilha sonora com peças de piano interpretadas por João Carlos Martins, presente na primeira fila, conferindo dramaticidade à apresentação. Era tudo em preto, cinza, marinho, com leves pitadas em fios metálicos e os brilhos dos paetês escamas-de-peixe. Pernas nuas, com abotinados vazados usados com meias soquetes pretas. Ficou bom.

Look da Patachou
É nas malhas e nas silhuetas mais descomplicadas (nos vestidos soltos drapeados ou nos mais construídos, cinturados, de costas nuas), que a estilista Erika Frade se destaca, encontrando ainda bons momentos híbridos com um leve flerte com o romantismo dos vestidos de cetim cortado e o tomara-que-caia de falsos babados com casaquete acoplado transparente, e mesmo nos bonitos trabalhos no jacquard com fios dourados. Querendo mostrar tudo, e tanto, o desfile ficou repetitivo, lá pelas tantas, e deu vontade de ver uma corzinha. Só pra saber qual a estilista escolheria. Afinal de contas, é inverno, mas o mundo lá fora pede cor.

A misteriosa Daiane Conterato na Patachou
Melk Z-Da, então, perdeu-se nesse emaranhado de cabelos e em outras esquisitices _de silhuetas, volumes, texturas. Quase uma vontade de causar por causar, com raras exceções na coleção com aquela poética delicadeza a que o estilista acostumou seu público. Há o trabalho de exploração de materiais, os fios, os pompons, a organza finíssima e trabalhada, a lã de camelo usade de modo inesperado, e o ateliê de Melk Z-Da se esmera em costurar tudo direitinho, até mesmo os cabelos, como acabamento.

Força na peruca: Melk Z-Da

Na coleção, cada look conta uma história, mas desde o útimo e vigoroso verão o estilista parecia ter superado isso, trabalhando até mesmo com menos recursos. Um exercício possível agora seja Melk Z-Da se limpar de arabescos estilísticos que parecem povoar sua fértil mente neste momento, com o objetivo de colocá-lo, de novo, como player não só do Fashion Rio, mas da moda brasileira. Finalizando: pra quem acompanha a trajetória conceitual de Melk Z-Da foi completamente inesperado (pra não dizer irritante) a fila final ao som de “Cabelo”, com Gal Costa. A gente já tinha entendido.
Fotos: Fotosite (Cortesia ffw.com.br)