Rio Moda Hype, parte 1
Sob o tema Fashion Fantasy, o Rio Moda Hype mostrou os trabalhos dos novos estilistas, dentro da programação do Fashion Rio Inverno 2011, acertadamente na véspera do início dos desfiles oficiais (e não entre um desfile e outro), e para alegria dos fashionistas começando no horário.
Confira aqui as resenhas da primeira parte dos desfiles da noite (10.01.2011), que teve Julia Valle e Akihito Hira como destaques.
Akihito Hira traz samurais urbanos, com pitadas de gótico e de esportivo, com um tailoring esperto, uma elegância smart feita de recortes, boa lida de texturas na mistura de materiais e nos tons de cinzas e pretos. Hira mostra ainda senso oportuno de proporções e de usabilidade, comprovados pela simpática entrada final do estilista, num costume de casimira, conquistando a simpatia do público presente à sala 3 do píer.
A segunda marca a desfilar, a Dobra, de Antonio Guedes e Raquel Alvarez, veio mais bruta, abrindo com uma calça preta de vinil com uma malha de capuz amarelo mostarda doendo nos olhos. Demonstra menos coerência, com um masculino “sujo” e street e o feminino meio posh, porém a grife acerta no delicado trabalho de estamparia. Podem explorar mais esse caminho e refinar um pouco o olhar e as proporções. É possível que o styling pesadão e datado tenha atrapalhado um pouco o desfile.
Lucas Magalhães, de Minas Gerais, trouxe um interessante trabalho optical, que quase ficou repetitivo. Porém, embarcando na viagem do estilista, deu para se deliciar com os prints em tule e malha que desafiavam o olhar, sobretudo com a brincadeira com as botinhas também estampadas. Volumes nas calças, variações nas silhuetas das segundas peles e o interessante uso do degradê nas mangas complementam as ilusões de ótica propostas pelo designer. Tem pesquisa e conceitualismo, OK, mas Lucas Magalhães deverá nas próximas oportunidades mostrar outras facetas para se provar um designer mais completo.
Na sequência veio a Blash, dos pernambucanos Beto Lima e Renata Ramos, no que parecia uma pegadinha da direção do evento: uma coleção boa, uma mais ou menos, uma boa, uma mais ou menos. Depois iria complicar mais, na segunda leva de desfiles do Rio Moda Hype (separada por um longo intervalo). Começando com um vestido-casulo de matelassê curto, vieram uns looks meio super-heróis, meio “bem-humorados”. Mas depois melhorou um pouco, com as estampas respingadas seguidas de um quase Stephen Sprouse em preto sobre branco. No geral, um new wave algo deslocado, sem nuances e sem a ironia necessária à estética apresentada.
Ainda bem que viria para encerrar este primeiro bloco a delicada moda conceitual de Julia Valle, com uma imagem feminina e adulta. A coleção é batizada TNWMLC, inspirada na desconstrução de frases sobre o teclado QWERTY de uma antiga máquina de escrever Smith Corona, de 1956. Como coleção boa não precisa de release, temos na passarela vestidos em que a desconstrução é o denominador, numa silhueta orgânica e essencial. Drapeados, moulages, plissados, pespontos; colares de letras de máquina e sapatos Oxford nas pernas nuas criam oportunidades instigantes para mulheres inteligentes. Julia Valle trabalha direito com diferentes pesos de tecidos e com as cores (cinzas e o azul envelhecido). Foi o melhor trabalho da noite, ainda que a jovem designer deva pesquisar um pouco mais a equação forma e função, afiando também seus comprimentos.




