John Galliano: c’est dommage!
O caso John Galliano não tem precedentes no mundo da moda. Os xingamentos antissemitas alienadamente disparados pelo estilista, anunciados antes na direção de um casal num café em Paris, e depois evidenciados num bizarro vídeo em que o estilista fala de Hitler, não encontra paralelos na cultura contemporânea. “Eu amo Hitler. Pessoas como vocês deveriam estar mortas. Suas mães, seus antepassados, todos deveriam ter sido intoxicados”, disse o designer, no que foi gravado. Ah, antissemitismo é crime na França.
Galliano com isso macula a imagem da histórica maios francesa, cujo chefe atual, Sidney Toledano, diz-se adepta da “tolerância zero” em relação a preconceitos de toda sorte.
Suspenso há coisa de dias de seu desfile para a Dior e alguns poucos mais da apresentação da coleção de inverno 2011 da grife que leva seu próprio nome, John Galliano está em maus lençóis.
Se num primeiro momento, mesmo depois de sua prisão na noite da última quinta-feira, e com a polícia divulgando um teste de bafômetro que aponta alto índice de teor alcoólico, ainda restavam dúvidas sobre a “culpa” de Galliano no imbróglio, depois da divulgação de um vídeo feito de celular em que ele bate boca com interlocutores não mostrados na gravação, restam poucas dúvidas sobre a conduta mais que inadequada de um ícone da moda e da midiática cultura de nossos tempos.
Christian Dior foi, ele mesmo, o primeiro costureiro superstar. Suas decisões sobre como deveriam se vestir as mulheres mudaram o mundo desde 1947, quando com seu New Look libertou as mulheres das agruras sociais e estéticas do Pós-Guerra. Agora, John Galliano vai às ruas xingar de “sujas” origens diferentes das suas, vociferando contra minorias _no caso, os judeus, esquecendo-se de que ele mesmo, como gay e estrangeiro, possivelmente encontra-se em situação semelhante.
Triste. As manifestações obscurantistas de John Galliano denotam o pior da Europa e dos seres humanos, tais como a xenofobia e o preconceito. Logo na moda _esse território onde se esperam semeadas as sementes do respeito às diferenças e do multiculturalismo, para não dizer de um pensamento mais avançado, mais elaborado, sofisticado. Erudito, até.
Enquanto o mundo civilizado se vê em estado de choque com tudo isso, uma das protagonista desta semana levanta a voz contra esse reinado de caos e absurdo. A atriz Natalie Portman, patrocinada pela Dior com seus perfumes, dá declaração em que condena os atos de John Galliano, sugerindo mesmo um rompimento de contrato. Diz que não quer nenhum tipo de envolvimento com esse tipo de conduta. Tolerância zero também. Natalie Portman, que se declara orgulhosa por ser judia, diz que espera que “na pior das hipóteses, esses horríveis comentários nos façam refletir e reagir diante esses preconceitos que ainda sobrevivem e que são o oposto de tudo o que é bonito”.
Antes, ainda nesta segunda-feira, um John Galliano estranhamente bombado por bizarras intervenções cosméticas em seu rosto, depôs numa delegacia em Paris. Ele que se diz inocente. Supenso da Dior, seu futuro é pra lá de duvidoso.
Seus advogados insinuam que se trata de caso de fritura. Dentro do mesmo grupo, no final do ano de 2010, dois grupos que defendem os negros acusam de racismo a Guerlain, uma outra subsidiária da companhia-mãe, a LVMH Moet Hennessy Louis Vuitton. Jean-Paul Guerlain teria dado declarações numa entrevista para uma emissora de televisão interpretadas para o mal. Guerlain foi afastado, mas a rusga foi feita. E a LVMH teria demorado para agir diante das repercussões negativas e agora estaria meramente correndo atrás do prejuízo.
Sim ou não, fato é que o vídeo divulgado ontem não deixa dúvidas sobre as palavras no mínimo mal escolhidas por Galliano. E as imagens falam mais do que qualquer eventual desculpa _independente do que se tenha bebido para chegar a tal.
John Galliano se torna TT esta semana no twitter não pela beleza de suas criações, mas por deixar emergir o mais sombrio lado de seu caráter e de sua personalidade. Como dizem os franceses, c’es dommage.
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Autor: Erika Palomino Tags: Christian Dior, inverno 2011, John Galliano, Natalie Portman




