Confissões de uma mídia junkie
Nunca tivemos tanta informação disponível. TV, twitter, Facebook, Flipboard, Soundcloud, Pitchfork, Spotify, sites, blogs, jornais. Em algumas cidades, billboards, painéis… Um bombardeio. Fora a alta cultura. Literatura mesmo. E estudos? Para dar conta de tudo teríamos que ser múltiplos.

Só mesmo sendo o Karl Lagerfeld (aqui na deliciosa ação da Coca-Cola, a segunda que a marca fez com o estilista da Chanel)
Só o dia a dia já pode levar alguém ao esgotamento. Uma pessoa que for mídia junkie (como esta que vos escreve) pode até ter uma overdose.
Exemplo: A contagem regressiva para o “casamento real” tomou ares surreais _como se aqui nos trópicos só estivéssemos pensando nisso. De um jeito que parecia sempre que já era naquela semana. E ainda faltava mais uma.
Quando finalmente chegou a data, na mesma tarde eu já não aguentava mais análises de todas as formas sobre o vestido da noiva. Quando todos viram críticos de moda, não? (essa parte acho divertida). Curiosamente, tive mais uma de minhas insônias naquela manhã, e com pontualidade britânica liguei a TV às 6h _mais para ter assunto do que por excitação.
Diante do casamento real fico com a posse da Dilma, pode ser? Prefiro pensar no mérito de uma mulher que chega à presidência, por exemplo, do que uma bonitinha que se matricula numa universidade em busca de um bom partido. E pelo que ouvi das jovens entrevistadas pelos repórteres, eventos como esses reforçam a mítica daquelas que ou esperam por príncipes encantados ou esperam que seus namorados ou maridos sejam perfeitos. Hello.
E se eu gostei do vestido? Gostei que era da Sarah Burton / Alexander McQueen. Achei adequado. Qualquer brilho a mais teria sido criticado. O perfume vitoriano, para isso, foi perfeito. Achei que o próprio McQueen teria dado um pouco mais de personalidade, entretanto. Bem, por isso ele era o gênio, apesar do bom trabalho que Sarah, sua assistente direta por muitos anos, está fazendo na marca. Mas isso já é outro post…
E pegaram o Bin Laden. Os americanos armaram um Carnaval lá na frente da Casa Branca, e as imagens tomaram conta da TV, enquanto redes sociais bombavam e mensagens de texto rodavam o mundo. “Foi o momento Kennedy desta geração”, disse em seu twitter o correspondente da Al Jazeera em inglês, falando do que para a sua geração foi o 11 de setembro e a morte de Diana, segundo ele.

Na foto do NYT, americanos festejam a morte de Osama Bin Laden em frente à Casa Branca; a convocação se deu pelas redes sociais
Na tarde seguinte já se lia no twitter: “Mas vocês ainda estão falando sobre isso?”. (Adorei a foto da tal Sala da Crise, com Obama no cantinho e Hillary passada, com a mão na boca. Imagina o que eles estavam vendo. Foto histórica. Medo.)
A turma reclama mesmo quando a TL floda com determinado assunto (ainda mais se for final de BBB, de novela ou jogo de futebol). É que tem gente demais falando. Mandei via twitter uma pergunta para o Francisco Costa, estilista da Calvin Klein, numa entrevista feita por Renata Piza, da Elle. Perguntei como ele faz para se manter fiel a sua essência nesse fuzuê da alta moda. Ele respondeu: com silêncio e auto-conhecimento.
Olhaí. #ficadica.
Fora que viver nas redes sociais dá aquela sensação de que a sua vida real é uma droga, e que a dos outros é pura festa e diversão. Todo mundo aparece sempre rindo, brindando, comemorando como se não houvesse amanhã. Um perigo para sua auto-estima.
E pra responder tudo? Tem que responder email, SMS, inbox, DM, viper, whattsup, instagram, tumblr, linkedin, mural, curtir, descurtir, cutucar… Eu que não tenho hábito de entrar na parte de eventos do Facebook cansei de perder festas, exposições… Ou achar que não fui convidada. Olha o que eu falei da auto-estima!
Hoje em dia temos que lidar com camadas e camadas de informação, de tempos, de plataformas de comunicação. Que elas sirvam para nos unir e nos fazer menos solitários.

A atriz de filmes B Yvette Vickers, no auge de sua beleza, nos anos 50; esta semana ela foi encontrada morta, mumificada
A atriz Yvette Vickers foi encontrada morta na última quarta-feira em Los Angeles. Seu corpo estava em estado de mumificação. Possivelmente porque ela deve ter morrido há coisa de um ano. Ninguém deu pela falta dela, ninguém a procurou. No auge de sua beleza, nos anos 50, ela estrelava filmes B como o supercult \”A Mulher de Quinze Metros\”, e chegou a posar para a “Playboy”.
Agora, aos 82 anos, vivendo sozinha, uma vizinha só achou estranho porque a correspondência acumulada na porta estava já amarelando e foi ver se estava tudo bem…
Será que sentiríamos sua ausência se ela sumisse do twitter?
Notas relacionadas:
Autor: Erika Palomino Tags: Alexander McQueen, Francisco Costa, Karl Lagerfeld, Sarah Burton



