Revista importante pode “se inspirar” sem dar o crédito?
O mundo da moda ficou mudo com a beleza desconcertante do editorial “What Lies Underneath”, da dupla Mert e Marcus, com edição de Katie Grand, na mais recente revista “Love”. Talvez o mais incrível publicado neste ano. Casting, conceito, proposta… O tratamento de imagem (pós-produção), luz, os enquadramentos e as bizarras situações em que algumas das modelos mais bafônicas do momento são colocadas.
Sombrio, erótico, extremamente sexualizado, perverso, fetichista, quase assustador.
Kristen McMenamy com seu novo look _os longos cabelos brancos, o corpo esquálido e alvíssimo, abre a matéria olhando para o céu, junto a um modelo de cuecas de cara enfiada para baixo, dois cisnes na página ímpar. Na maioria das cenas, tênis Converse e lingerie Calvin Klein. Batons vermelhos e tops como Guinevere e Saskia submersas e/ou amarradas ao estilo bondage japonês (o shibari). Um deck, carros afundados, uma floresta escura.
Em seu editorial de abertura na revista, onde Katie Grand em geral se mostra adolescentemente fervida, brincalhona e muitas vezes fútil em relação à moda, desta vez ela parece mais envolvida, emocionada até, descrevendo de onde partiram as ideias da revista, de onde veio uma coisa que levou à outra e à outra no processo editorial que é sempre orgânico _as boas revistas, com boas pautas, em geral vão ganhando uma espécie de vida própria, levando-se para lugares em que nós, editores, não suspeitávamos de início (e que para fazer voltar para o “roteiro original”, se necessário, carece de pulso. Mas isso é assunto para outro post.).
No texto, Katie Grand começa mencionando como ponto inicial o trabalho do fotógrafo e ilustrador de fetiche John Willie (1902-1962), nascido em Singapura, considerado um dos pioneiros do gênero com o material publicado na revista “Bizarre” nos anos 40 e 50 nos EUA.
Depois ela cita Nobuyoshi Araki, fotógrafo que retrata o submundo da indústria do sexo de Tóquio, mostrando prostitutas e seus clientes, com direito a muito bas-fond e muito shibari (difícil até achar uma imagem “comercial” para reproduzir aqui).
E daí Katie Grand fala do inglês Bruce Argue, que ela diz que foi o responsável pelos nós e pelas amarrações nas modelos do editorial da “Love”, que chegou a ser “acusado” na internet de glamourizar a morte, de glamourizar a violência etc.
Bom, ela cita tanta gente, no restante de seu texto também, e foi se esquecer de citar logo o fotógrafo Jeff Bark , que em 2007 apresentou numa galeria de Londres um trabalho (fotos e vídeo) chamado “Woodpecker”. Pois de tão chocada que ficou a comunidade de moda com o editorial, vendo e revendo as imagens, que logo alguém se lembrou dessa exposição, achando muitas coisas, digamos, parecidas.
Bark não chega a ser obscuro, apareceu até em sites como o The Cool Hunting.
Então agora a pergunta é onde foi que a coisa desvirtuou? Por que não citar Bark, já que todas as outras referências foram citadas? Um vídeo da dupla Mert e Marcus do trabalho é muito semelhante, até mesmo na trilha sonora, do vídeo original de Bark (vi o vídeo, mas não achei o link pra colocar aqui).
A discussão acerca da originalidade das ideias, do que é homenagem, citação, “inspiração” etc. não é nova no território da moda, da cultura pop e da arte. Este ano mesmo o rei do remix, o badalado artista plástico Richard Prince, perdeu um processo contra um fotógrafo. Beyoncé, também neste ano, foi acusada de plagiar a cenografia de um número da cantora italiana Lorella Cuccarini, e admitiu que viu o trabalho antes.
Será que fotógrafos tão importantes e cultuados como Mert e Marcus, no topo da elite da moda, precisariam se inspirar em um colega contemporâneo? E a “Love”, que é considerada uma das mais inspiradoras publicações do mundo, precisava “chupar” (como se diz por aqui, em bom português) um trabalho recente de um artista ainda em atividade? Será que o Jeff Bark tá p%#*? Será que alguém vai aparecer para se justificar ou vai ficar por isso mesmo? Vai ver é tudo culpa do google. Ou de algum assistente que a essa altura já deve ter sido demitido.
bjs xerocados
Palô
9 comentários | Comentar
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9 joana 15/09/2011 15:07
“Mas eh a tal historia, todo mundo acha que ninguém estah vendo.”
mas será que TOOOODO MUNDO está vendo mesmo?!
muita gente só vai ter acesso a essa “atmosfera” que o bark criou através do editorial copycat da love! creio que nem todo mundo que lê a love conhece bark.
e será que a love REALMENTE achava que ninguém ia notar? e se o “plágio” sem citação for no fundo um statement?
pra fechar: copycat não democratiza um devir “original”? isso não é bom?
sou da arte-colagem e AAAAAMO aquele especial da key sobre copyleft.
http://msn.lilianpacce.com.br/portfolio/joana-coccarelli-colagens/
bj
8 Henri 10/09/2011 8:56
Oi Erika, como sempre, genial!!
Adoro a coluna, seus textos sempre me ensinam algo novo e me ajudam a ver a moda sob uma ótica objetiva, porém cheia de verdade e emoção!
Sabe uma coisa que nunca te contamos, eu e a Silvia te chamamos carinhosamente de La Blonde, muita saudade da redação mais incrível…beijo grande!
Erika Palomino 12/09/2011 1:05
que bom, querida! A ideia eh essa! bjs
7 Mariana 08/09/2011 9:25
Oi Erika,
vi o post sobre a Love, então resolvi indicar a Shön! Magazine, é uma revista britanica incrivel que pode ser vista on line. Dê uma passadinha no site, vale a pena http://schonmagazine.com/
Abraço
Mariana
Erika Palomino 12/09/2011 1:06
Legal, vou checar asap.
bjs
6 Jéss 07/09/2011 23:47
Obviamente trata-se de uma referência no mínimo fortíssima né? E simplesmente ter sido esquecida por um lapso de memória, é de fato muito estranho.
Hoje em dia a frase ” nada se cria, tudo se transforma” infelizmente tem tomado outras interpretações juntamente com o rugido feroz que a era do bumm virtual traz.
Crt -c /Ctr- v, está tão comum quanto tomar coca-cola com dois canudinhos. Tão comum quanto os milhões de processos que ouvimos falar todo dia sobre.
Como combater?
Adoraria ouvir alguma idéia !
Parece que o método de travar o botão direito do mouse, liberar fotos para sites de royalty free ou ainda simplesmente citar o coleguinha inspirador. Não é capaz de parar pessoas “espertas” que acreditam piamente que ninguém está olhando.
http://fanophobia.blogspot.com/
Erika Palomino 12/09/2011 1:06
Drama, neh?
5 ALEXANDRO MSF 07/09/2011 20:55
Achei de muito bom gosto todas as referencias usadas mesmo que subliminar, foram de muito bom tom, vale lembrar que a comunidade de moda choca-se com muita facilidade sobre os diferentes aspectos pouco convencionais aquilo que não queremos ver nos choca porém vale lembrar que MC QUEEN BARBARIZOU por muitas vezes o mundo por último SAMUEL CIRNASCK ATERRORIZOU as jet sets brasileiras com suas noivas fetiches agora por que tanto alarde na terra ou melhor no mundo das desigualdades
merci …. AMSF
Erika Palomino 12/09/2011 1:10
Tb acho tudo lindo, mas nem acho mais que a questão seja essa. Venho discutindo a questão do copy-left faz tempo, mas aqui não custava mesmo citar o trabalho do fotógrafo, q expôs em 2007. Mas eh a tal historia, todo mundo acha que ninguém estah vendo. Eu AMO a Katie Grand, mas fiquei um pouco decepcionada. Bom, c’est la vie.
bjs
Erika
4 Vanessa Amorim Climaco 03/09/2011 11:43
Parece ter virado moda: o plágio! Nos últimos anos, dificilmente se cria, quase tudo se copia, aí é fácil ter “sucesso”. Muito boa sua colocação, e que venha forte o movimento contra o plágio, que já se manifesta.
3 Fernando Nunes 03/09/2011 9:13
Ainda dá pra copiar muita coisa e se fazer passar por nova.
Seu post me faz lembrar da crítica que Lady Gaga fez aos críticos de moda na V Magazine de setembro, questionando porque a opinião de uma única pessoa tem importância, quando todo mundo hoje pode manifestar seu pensamento pelas mídias sociais. Esse post mostra bem o mais importante trabalho do crítico que é separar o joio do trigo. Com esse post, como crítico de moda, me sinto tranquilo!
2 Alexander Magoinha 03/09/2011 5:29
O assistente uma hora dessas deve estar fritando nuggets tadinho! (desculpe a mágoa) Rs…
Mas vc tocou num ponto interessante e que me preocupa!
O “onda” dos direitos autorais parece estar virando uma tsunami na era em que vivemos! Será que dá pra segurar? No caso da revista as fotos eram bem parecidas mesmo e merecia uma citação… bom tom né?! Mas acho que o “chupar” tá saindo do controle!!! É a primeira vez que temos essa quantidade de informação nas nuvens e não sei se existe um pente tão fino!
Você acha que existe solução?!
Ao mesmo tempo a arte não é pra isso mesmo? Pra transformar? Acho que logo logo encontraremos uma nova “forma” pra tudo isso, inclusive na questão business. Tá um climão de transição pra algo GRANDE mesmo… RErenascença!!!
Será que o look Médici volta com tudo??? EU IA MORRER!!! Rsrsrs…
http://alexandermagoinha.blogspot.com/ (Deixe a sua mágoa!)
Erika Palomino 12/09/2011 1:12
Acho que um esforço a mais valeria a pena. bjsss
E.
1 river 03/09/2011 1:28
Depois de comparar os dois trabalhos, tudo leva a crer que todas as referências citadas foram apenas para despistar e validar um trabalho supostamente original. Impossível tanta coincidência criativa. Tirando os sapatos, é praticamente o mesmo trabalho.
Erika Palomino 12/09/2011 1:12
Acho tb.
bjs
E.