
Alê e eu em Paris, em nossa primeira viagem a Paris, no início dos anos 90
Feliz aniversário, amigo. Parabéns por seus 40 anos. Datas redondas são sempre importantes. Servem para a gente fazer de alguma forma um balanço do que fizemos até agora na vida. Pra (tentar) projetar o que fazer daqui pra frente. Apesar de, pelo que sei de você, possivelmente deve haver alguns planos já nessa sua redonda cabecinha loura. Ainda que não divulgados em assessorias ou nas tantas e tantas reportagens a seu respeito em português, japonês, francês, inglês ou mandarim. Sueco e mais algumas outras, certamente.
Eu mesma, com uma frequência que eu diria… semanal, telefonam pedindo depoimentos a seu respeito, sobre a importância de seu trabalho e, quer saber? Isso me enche de orgulho. Da mesma forma como hoje observo toda a moda brasileira celebrando seus 40 anos. Isso não é pouco.
Porque como você bem sabe, querido, lá nos primórdios dos anos 1990, fomos nós dois perseguidos (eu mais), pela nossa amizade. Quanto fui eu acusada de falar de você alegadamente em excesso em meus textos na Folha de S.Paulo, onde eu então trabalhava, simplesmente porque saíamos juntos pelos massivos e krawitzs do que à época se considerava o tal mundinho. Esse verdadeiro McCarthismo fashion duraria até os anos 2000, quando as más línguas se enrolaram em silenciosa epilepsia, calando-se aos poucos, voltando a se pronunciar para bradar aos quatro, cinco, mil ventos sobre seu inconteste e insuperável talento. Ainda que, até hoje (tenho isso pra mim), eles continuem sem entender nada.
Histórias pra contar eu teria tantas… Que nem seria um post. Seria um livro. Talvez o que eu ia escrever para a Cosac. Tomando sua entrevista, você falou, falou, falou e falou, lá na minha casa no Pacaembu, lembra? Entre xícaras e xícaras do café fortão que a Vera fazia… Escrevi o texto, mas o soturno sr. Charles gongou e não quis publicar. Kkkkk. Deve ter sido culpa do café forte. Ou do meu texto, que ele considerou “fraco”. Hahaha.
Quem sabe um dia ainda escrevo um livro, então. Em que eu seja a editora.
Bom, tem aquela outra história de quando você foi pintar meu cabelo com a tintura Manic Panic que no pote parecia ruivo, mas que no meu cabelo ficou rosa. E eu fui pro Phytoervas Fashion de cabelo pink. E ninguém me conhecia naquela época ainda, e perguntava: Quem é aquela garota na primeira fila de cabelo rosa? “É a Erika, da Folha.” Só dava eu. Foi meu melhor golpe de autopromoção. E sem querer!
Teve o desfile verde da Atitude; as camisetas que você fez com os desenhos do Pedro e do Lucas; o desfile dos dez anos da coluna no teatro Municipal… Amor, você faz parte tanto da minha vida…
Sem falar que nunca me esqueço da sensação da primeira vez que entrei na sala de estar da sua casa, quando você ainda morava com seus pais, no apartamento do Sumaré. Que não era uma casa de família normal, era basicamente, já, seu ateliê. E você me mostrou sua coleção de caveiras, suas botas de fetiche, suas roupas. E seu Benjamin, o Arthur, dona Regina… Me sinto parte da sua família. Tem desfile que choro mais do que sua mãe, e é ela que vem me acalentar, me abraçando.
Como este é um cartão de aniversário, nem preciso falar aqui de suas qualidades como artesão, de suas técnicas que se aprimoram e no seu corajosamente autofágico processo criativo, da sua hercúlea disciplina, de seu tino para os negócios.
Devo observar, entretanto, sua curiosa escolha por amigos discretos, e restaurantes obscuros e pela opção de colocar o profissionalismo no lugar da bajulação. Aproveito aqui pra elogiar também, querido, seu posicionamento como cidadão gay. Sem bandeiras, com naturalidade. Simples assim. Estendendo os votos de felicidades a seu casamento com Fábio, seu companheiro de todas as horas.
Alexandre Herchcovitch, você fez todo mundo aprender a soletrar seu complicado e lindo sobrenome judeu, do qual você tem tanto orgulho (lembra que eu, idiota, ainda tentei fazer você mudar??? “Ninguém vai conseguir escrever!!!). Você tinha razão. Claro.
Bem, querido, tudo de bom. Saúde, muitas alegrias, essas coisas que se desejam nos aniversários. Vindo daqui, não é clichê de facebook. É de coração.
Beijos com muito carinho,
Erika
PS: A imagem deste singelo cartão é daquela nossa viagem a Paris. Nossa primeira vez em Paris, quando dividimos o quarto no Pas de Calessa! Estávamos descobrindo ainda o mundo. Com uma cara de susto nessa foto, né? Foi o Alê Breve que tirou. Ele nos pegou de surpresa, acho. Você tinha essa foto??? Te amo.