É uma história bonita. Em 1844, o jovem Henry migrou de Rimpar – uma modesta cidade alemã – para o então admirável mundo novo americano. Pegou o pouco que tinha e fixou a idéia que seria do outro lado do Atlântico que estaria seu presente e seu futuro. Como um espírito animal, farejou que ali, naquele território – então apenas um conjunto amontoado de fazendas – poderia fazer fortuna.
Seis anos, depois seus dois irmãos – Emanuel e Meyer – se juntaram na aventura de fazer a América e juntar algum troco no meio do caminho. No final daquele século 19, os irmãos Lehman (esqueci de mencionar?) possuíam então uma modesta quitanda onde vendiam, além de miudezas generalizadas, frutas secas e utensílios variados, de arados à martelos. O ponto da lojinha era no estado do Alabama e em pouco tempo o simplório negócio cresceu e se sofisticou.
Os irmãos Lehman avançaram sobre o mercado de algodão e viraram referência ao sul dos Estados Unidos quando se tratava da mercadoria, que, além de ser macia, forneceu o cenário ideal ao surgimento do soul, gospel e blues. Onipresentes, eles – os Lehman Brothers – ganhavam dinheiro em todas as fases do plantio do algodão: vendiam os insumos – sementes e maquinário -, compravam o algodão dos produtores e, por fim, vendiam para as tecelagens dos estados do norte. Viviam de intermediação e eram donos de tudo, menos da terra e dos escravos necessários.
E para que tanta aporrinhação? Capital financeiro não carece de concretude tão evidente; basta que haja mercado – e um preço – para que haja lucro, qualquer que seja o preço e qualquer que seja o mercado. Sempre haverá um lucro. Algodão, minério de ferro, bicicletas dobráveis, não importa. O que importa é a diferença entre os preços de lá e de cá.
Desse tipo de atividade para a criação de um banco foi um pulo. Eles já eram banco antes mesmo de serem banco: avaliavam riscos, davam crédito, financiavam a produção e tomavam garantias. Tudo que um banco faz, ou deveria fazer.
Histórias que nem essa tem aos montes no mundo, no Brasil inclusive. O surgimento de bancos a partir de mercados vigorosos (algodão, café, gado) é um fenômeno relativamente comum. Na verdade, é necessário, pois sem a intermediação financeira os produtores nunca conseguiriam crescer em escala. Alguém com conhecimento de causa no negócio acaba se especializando na “facilitação” e faz o que os Irmãos Lehman fizeram: facilitam mediante uma modesta comissão.
De lá pra cá, muito água passou por baixo da ponte da História. O empreendimento deles sobreviveu a muitos desafios, sobreviveu à Guerra Civil norte-americana, à Primeira Guerra Mundial, ao Crash de 1929, à Segunda Guerra Mundial, à crise do ‘Save and Loans’ na década de 80 nos EUA, a dois choques do petróleo e à bolha PontoCom. Não foi pouco. Eles financiaram desde as primeiras máquinas à vapor até a criação de softwares e vídeo games. Sabiam de tudo, os riscos envolvidos, as implicações financeiras, os detalhes das negociação, os preços de custo, os preços finais… Tudo! Só assim se ganha dinheiro na intermediação: sabendo mais dos que os participantes envolvidos.
Nunca erraram e, se erraram, erraram, menos do que acertaram. Uma história de 159 anos de sucesso.
Quer dizer… sobreviveram a tudo (guerras, crashs e choques), menos ao estouro da Bolha Imobiliária. E por quê? Porque perderam o foco no negócio deles que é, a rigor, o negócio dos outros.
Não sabiam o que estavam “facilitando” e acabaram se metendo num emaranhado de espelhos e sombras de que não conseguiram sair. Tombaram no dia 15 de setembro de 2008. Mais um cadáver para o cemitério dos heróis do capitalismo. Fica aqui minha abusada sugestão: a Fiesp deveria colocar uma estátua na frente da sua sede na paulista em homenagem ao Empreendedor Desconhecido, que tombou sem ser conhecido e levou para a frente as forças produtivas.
Homenagens à parte, e ironias de canto, voltemos ao defunto. O Lehman quebrou por um erro cada vez mais comum: num mundo extremamente sofisticado, onde a divisão social do trabalho chegou a um patamar alucinante, é praticamente impossível “saber de tudo”. Quando não se sabe de tudo sobre o negócio que se quer facilitar, você consegue só ver o lucro envolvido. Se este for grande quer dizer, indiretamente, que o negócio é bom. Afinal, se dá tanto dinheiro deve ser bom. Simples assim.
Nos idos de 1850, era fácil entender do negócio de algodão; você tinha escravos, terra, sementes, algumas máquinas, o preço do frete do navio, os armazéns e os seguros envolvidos. Era praticamente só isso. Nossos heróis capitalistas podiam ver quase tudo da janela do seu escritório: ali fica o porto, ali o armazém, e mais no canto a fazenda.
Tente fazer isso hoje. Eu nem sei se o sapato que eu uso é chinês ou brasileiro. Multiplice isso por alguns bilhões e depois eleve ao quadrado, e você terá uma idéia do que não tem medida.
Quando o mundo viu que o Lehman quebrou, todo mundo pensou: “estamos perdidos! Se eles não sabem do negócio, imagina eu. Vamos todos quebrar!”
Mas calma. O que aconteceu com a Casa dos Lehman não é exatamente uma novidade, nem algo catastrófico. Que o capitalismo é instável, qualquer um sabe. Que existem crises qualquer pessoa sabe.
Será que esta crise é maior que as outras? Que vai destruir a hegemonia americana? Que jogará o mundo no caos?
Acho difícil. O capitalismo não tem rabo preso com ninguém, as hegemonias são provisórias e os países que são potência são apenas a forma física eventual do grande monstro chamado “Acumulação de Capital”. A Inglaterra já foi grande, os EUA hoje são grandes; se amanhã a China ou o Brasil se tornar grande será apenas mais um.
Como lembra a música naquele charmoso cabaré marroquino com névoas de cigarro e mulheres lindas em vestido longo:
“It is all the same old story,
a fight for love and glory.
The word will always welcome lovers
As times goes by…”
Nada de novo sob o sol.
Em tempo: meu sapato é brasileiro com a sola feita 100% de couro de carneiro. Acho que nunca vi um carneiro na vida.