Arquivo de junho, 2009
Som de sexta
A pós-modernidade é o que há. Uma mistura de bom humor com niilismos.
Em homenagem aquela moça…
Sam Sparro – American Boy (Radio 1 Live Lounge)
Ata COPOM: uma primeira leitura.
Foi divulgado na manhã de hoje a ata do COPOM da sua última reunião que resolveu, por um placar de 6 a 2, pelo corte de mais 100 pontos base na Selic fazendo a taxa básica brasileira estrear no terreno do um dígito, em 9,25. A ata, como um todo, tem uma leitura extremamente benigna quando se trata da evolução da inflação.
Entre os itens 18 e 29 a Ata discorre sobre a Implementação da Política Monetária e aponta ali os principais tópicos relevantes a tomada de decisão por parte do colegiado. Logo de início os diretores do BC ponderam sobre o nível de atividade doméstica, tanto interna quanto externa. Em suas palavras:
“O ritmo de expansão da demanda arrefeceu consideravelmente desde o terceiro trimestre de 2008, em parte em reação ao substancial e generalizado desaquecimento da atividade em outras economias, avançadas e emergentes. (item 18)”.
Ao inaugurar suas ponderações com este trecho, o BC deixa claro que percebe, e vê como relevante, no que tange a política de metas de inflação, os efeitos persistentes do desaquecimento da demanda em escala global. As implicações deste estado da economia ficam mais evidentes em outro item da ata.
“O Comitê entende que o desaquecimento da demanda, motivado pelo aperto das condições financeiras e pela deterioração da confiança dos agentes, ainda que nos dois casos se observe melhora na margem, bem como pela contração da economia global, criou importante margem de ociosidade dos fatores de produção, que não deve ser eliminada rapidamente em um cenário de recuperação gradual da atividade econômica. (item 25)”.
A redução da atividade gerou capacidade ociosa, o que pode, segundo sua leitura, proporcionar crescimento sem um necessária elevação na inflação no médio prazo. A ata segue no mesmo tom e deixa claro a leitura do BC sobre a evolução da inflação.
“O Copom avalia que, diante dos sinais de arrefecimento do ritmo de atividade econômica, no que se refere, por exemplo, aos indicadores de produção industrial, ao mercado de trabalho e às taxas de utilização da capacidade na indústria, bem como à confiança de empresários e consumidores, e ao comportamento das expectativas de inflação para horizontes relevantes, continuaram se consolidando as perspectivas de concretização de um cenário inflacionário benigno, no qual o IPCA voltaria a evoluir de forma consistente com a trajetória das metas. (item 24)”.
Mais direto impossível. No entanto, a ata aponta – como é de praxe – que a política monetária tem seu efeito defasado no tempo, e que não se deve ter em mente apenas o último corte, mas sim o ciclo inteiro de desaperto monetário. Este foi o motivo do placar rachado entre a diretoria do BC.
“O Comitê avalia que decisões sobre a evolução da taxa básica de juros têm que levar em conta a magnitude do movimento total realizado desde janeiro, cujos impactos sobre diversos indicadores econômicos ficarão evidentes ao longo do tempo. Sendo assim, alguns diretores consideraram que seria apropriado, nestas circunstâncias, reduzir imediatamente o ritmo de flexibilização monetária, implementando de forma mais suave a parte remanescente do processo de ajuste. Contudo, a maioria do Copom, avaliando as projeções de inflação, que já incorporam a magnitude do movimento realizado desde janeiro, optou, neste momento, por manter o ritmo de ajuste. (item 26)”.
Porém o colegiado do COPOM aponta com unanimidade para a continuidade do movimento de corte na taxa básica, levando em conta – é claro – a evolução futura dos agregados econômicos e, principalmente, a inflação.
“Note-se, por outro lado, que na reunião houve convergência entre os membros do Comitê quanto às estimativas, tendo em vista as informações até aqui disponíveis, do espaço existente para distensão residual, que depende do cenário prospectivo para a inflação frente à trajetória das metas e do balanço dos riscos associado a este cenário. (item 26)”.
O BC faz uma ressalva interessante, e que deve estar em mente daqui para frente quando se pensa a evolução da Selic. Após esse último corte a taxa básica está em um dígito. Os efeitos desta nova realidade ainda são uma novidade. Quais seriam os efeitos sobre o consumo? Sobre o Investimento? Sobre a poupança? Por isso mesmo o BC aponta isto em ata, para avisar que estará atento a reação da economia brasileira levando em conta também este fator.
“O Copom entende, também, que a preservação de perspectivas inflacionárias benignas irá requerer que o comportamento do sistema financeiro e da economia sob um novo patamar de taxas de juros seja cuidadosamente monitorado ao longo do tempo. (item 26)”.
No conjunto a ata foi positiva, apontando uma trajetória adequada da inflação para a meta e, adicionalmente, reiterando a intenção do BC em manter o ciclo de corte na taxa de juros por mais algum tempo.
Capa Economist
Tradução
“Dívida
A maior fatura da história.”
O Delfin Netto que brincava: “na maioria das vezes os problemas econômicos de hoje foram as soluções econômicas de ontem”.
Realmente é uma dinheirama sem fim…
Alguns indicadores.
Desde o início desta atual tormenta econômica, temos observado com atenção alguns indicadores que podem fornecer pistas valiosas sobre o rumo da economia mundial. Entre estes chama particular atenção os indicadores de risco – que usamos os CDS (Credit Deposit Swap) – e a evolução dos preços das commodities, medido pelo CRB.
Ambos indicadores estão apresentando evoluções de reversão de tendências, que não são ainda a confirmação de uma nova orientação, mas que vale o registro e o conhecimento público.
O primeiro que gostaríamos de comentar é a evolução do risco percebido em relação ao Citi. O objetivo de observar a situação do gigante financeiro norte-americano é tentar apreender a saúde geral do sistema financeiro.
Verificou-se logo no início da crise um aumento sem precedente no risco percebido em relação ao banco norte-americano por conta da dúvida persistente em relação a qualidade dos seus ativos bancários. O processo, conhecido como sub-prime, colocou em cheque a saúde do sistema financeiro, e este, por sua vez, reagiu violentamente desfazendo-se dos ativos, alimentando um ciclo deflacionário, fazendo só piorar em última instância a saúde do sistema como um todo.
O FED agiu de forma a reverter esta percepção, e colocou em ação uma série de mecanismos para combater este processo de aumento de risco percebido usando seu balanço de forma ativa, além de cortar a zero sua taxa básica. O último movimento no sentido de estancar a crise foi o episódio dos Testes de Estresse e a conseqüente capitalização de grandes bancos norte-americanos.
A ação teve efeitos práticos importantes e, de fato, reverteu a tendência explosiva observada pela evolução do CDS do Citi.
No entanto, após um período de rápida queda no risco percebido, o mercado estabeleceu certo piso de queda e agora já voltou a subir.
Fatalmente não seja nada importante, mas é necessário mostrar que devemos redobrar a atenção em relação a saúde do sistema financeiro que ainda não está completamente sanada.
Outro indicador de suma importância para entender a atual crise é a evolução dos preços das commodities, medido aqui pelo CRB (um índice que pondera o peso das principais matérias primas: petróleo, metais e agrícola). Durante o ano passado, no início da fase mais “virulenta” da crise, os preços das matérias primas (em especial o barril do petróleo) subiram de forma estonteante, revelando assim a busca por ativos reais em detrimento aos ativos financeiros e ao dólar.
A alta do preço destas matérias primas acabou se revelando exagerado e despropositado; afinal de contas, num mundo em recessão, não haveria espaço para preços altos. O resultado foi uma violenta correção dos preços para baixo.
No entanto, como podemos observar na parte final do gráfico, os preços estão voltando a subir, e hoje já voltamos aos patamares de 2004.
Não queremos insinuar com essas reversões de tendência que vamos enfrentar mais uma onda da tormenta financeira, porém é bom estarmos atentos a estes movimentos.
No Brasil foi divulgado o IPC-FIPE da 2° quadrissemana de junho e veio bem comportado. O anterior havia registrado alta de 0,23%, agora ficou em 0,19% (o segundo mais baixo do ano).
Vendas no Varejo decepcionam.
O resultado do setor varejista em abril, e divulgado hoje pelo IBGE, vem abaixo das expectativas e reiteram o cenário de desaceleração econômica no país. A primeira má notícia foi a revisão dos dados de março, foi divulgado que havia sido verificada uma alta de 0,3% entre março e fevereiro de 2009 (dados dessazonalizados), no entanto houve uma queda de -0,52%.
Havia a expectativa de uma retração em abril, algo em torno de -0,1%. Porém, a retração verificada foi de quase o dobro, em -0,19%. E pensar que o dado disponível apontava alta de 0,3% em março, e não retração de -0,5%.
Se observarmos a variação acumulada nos 12 meses; ou seja, os 12 meses anteriores ao mês de referência contra igual período do ano anterior, temos uma idéia mais precisa da desaceleração em curso no setor varejista.
Não poderíamos esperar outra coisa, afinal todos sabem que a crise é séria e que os reflexos seriam inevitáveis na evolução destes agregados econômicos. O que chama particular atenção é o limite da atuação do estado via políticas anti-cíclicas em alguns setores.
Após o derretimento da produção de veículos, e da desaceleração abrupta na construção civil, o governo pôs a máquina estatal em movimento para tentar escorar a casa que ameaçava a desmoronar. Foram feitas reduções no IPI e ampliadas as linhas de financiamento ao imóvel por parte dos Bancos públicos. As medidas são corretas e devem ser continuadas (claro, antes de uma revisão detalhada dos números disponíveis), no entanto políticas de incentivo sobre um tecido econômico debilitado perdem eficiência na margem.
É isso que mostram dados dos setores de Veículos e Materiais de construção. Tanto em volume, quanto em receita, foram verificadas quedas significativas. Os dados são mensais e dessazonalizados pelo próprio IBGE.
Como vemos o setor de Veículos amargou em abril uma queda de -5,6% em volume, e estonteantes -13,2% em receita, o que deixa evidente as dificuldades do setor.
Temos que ter em mente que se é verdade que o país se recuperará nos próximos meses/semestres, não deixa de ser verdade que ainda enfrentaremos uma desaceleração importante.
Em linha com o cenário de desaceleração econômica o IPC-S, divulgado pela FGV, veio menor que a medição anterior e abaixo das expectativas e fecha a semana em 0,29% (o anterior havia sido 0,43%). O gráfico abaixo compara a inflação medida pelo IPC-S nas primeira 21 semanas dos anos de 2009, 2008 e 2007.
Todos os períodos apresentam comportamento sazonal semelhante, porém podemos ver que a inflação de 2009 guarda mais semelhança à inflação de 2007. Em 2008 ocorreu choques de preços atípicos; num primeiro momento a implosão do setor imobiliário, e, num segundo momento, a aceleração abrupta das commodties.
Em 2008 o IPCA foi de 5,90%, em 2007 de 4,46%, praticamente no centro da meta. É esperar para ver.
Europa cria menos empregos.
O desemprego ronda o Velho Continente como um fantasma nestes meses de crise econômica aguda. Notícias sobre a situação do trabalho por lá dão conta de reiterados resultados ruins, e a Espanha vem liderando esta estatística na Europa Ocidental.
O último número disponível aponta que a criação de vagas afundou por lá, são dados trimestrais e que reiteram o cenário ainda deteriorado da economia européia. No 1° trimestre de 2009 a queda foi de 0,8% em relação ao 4° trimestre de 2008, um valor sem precedente na série que começou em 1995.
O tecido econômico europeu está operando sob considerável estresse desde o início da crise. As peculiaridades do mercado de trabalho por lá tornam mais difícil a recuperação econômica e deve tornar mais persistente a crise por lá.
Os motivos são muitos e não cabe aqui condenar o conjunto de medidas de proteção social conhecido como Well Fare State. Porém devemos reconhecer do modo frio que este arcabouço trabalhista sofre enorme pressão das mudanças estruturais que a economia mundial passou nas últimas décadas; em especial a incorporação da vasta (e barata) mão de obra chinesa na manufatura mundializada.
Os europeus estão enfrentando pesados dilemas estes últimos meses.
Falando em China, o Dragão vermelho que virou esperança capitalista, dados divulgados hoje apontam para uma piora na economia do gigante. Os Preços no Atacado estão apresentando quedas substanciais e, na última medição de maio, já haviam despencado 7,6% ao ano.
Todos nós sabemos que a recente onda deflacionista é um sinal claro da crise econômica, não do aumento de produtividade. Logo este movimento aponta, infelizmente, no sentido contrário das expectativas em relação à China poder dar conta de puxar o trem da economia mundial.
Em tempo: hoje começa a reunião entre os chefes de estado dos BRIC. Esta reunião será acompanhada com redobrada atenção pelo mundo industrializado. Um dos principais temas na mesa é a criação de mecanismos para financiar o comércio entre os países deste “bloco” sem contar com os dólares norte-americanos.
O tema é polêmico e apenas engatinha, e mesmo que não avance acaba jogando pressão sobre as economias industrializadas para fornecer algum tipo de contra partida nestes tempos de crise.
Desde o início da crise financeira adotamos como espécie de termômetro a evolução do risco percebido sobre o gigante financeiro norte-americano: o Citi. Vemos o risco percebido através dos CDS (um derivativo que pondera a taxa livre de risco – as treasuries – contra o custo de captação de dada instituição ou país).
Após o risco explodir, ele nunca mais voltou aos patamares anteriores. Isso era esperado, afinal ninguém espera que a situação se normalize tão rápido. O que chama atenção é que, mesmo após o pacote de capitalização às instituições bancárias e dos Testes de Estresse, o CDS do Citi recuou, mas parece ter encontrado um suporte. Devemos continuar de olho na evolução do risco para termos uma exata noção da situação bancária por lá.
Acaba de ser divulgado o Empire Manufacturing, um dado de nível de atividade da região de Nova Iorque. O resultado foi péssimo no mês de junho. O anterior havia registrado uma queda de -4,55 e era esperado para agora uma ligeira piora, em -4,60. Porém o índice afundou e apresentou queda de -9,41.
Como vemos falta ainda muito para a crise de fato parar de piorar
SELIC: Corte de 100 pontos base
Eis a nota à imprensa:
“Brasília - Tendo em vista as perspectivas para a inflação em relação à trajetória de metas, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 9,25% a.a., sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela redução da taxa Selic em 0,75 p.p. Levando em conta que mudanças da taxa básica de juros têm efeitos sobre a atividade econômica e sobre a dinâmica inflacionária que se acumulam ao longo do tempo, o Comitê concorda que qualquer flexibilização monetária adicional deverá ser implementada de maneira mais parcimoniosa. O Copom acompanhará atentamente a evolução do cenário prospectivo para a inflação até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos da estratégia de política monetária. ”
Brasília, 10 de junho de 2009
Banco Central do Brasil
Assessoria de Imprensa
Para o dia dos enamorados: Georgia on my Mind com Ray Charles
Essa música é pura saudade.
Selic: Uma parada técnica.
Dados de inflação trazem mais temperatura ao último dia de reunião do colegiado do BC reunido desde ontem para decidir a nova taxa de juros básica. O IGP-M do 1° decêndio e o IPCA deixam claros que os preços ao consumidor estão sob controle e evoluem de forma benigna no país.
O IGP-M até surpreendeu negativamente à primeira vista; afinal ele saltou de uma deflação de -0,52% para uma alta de 0,29%, deixando para trás todas as previsões.
A despeito da recente alta, conseguimos observar no gráfico acima a evolução de baixa do índice Geral. Um sinal importante, mas não final. Para entendermos a inflação capturada temos que abrir o índice e vermos seus componentes.
Os Índices Gerais de Preços da FGV são uma ponderação entre os preços no atacado (IPA), preços ao consumidor (IPC) e preços da construção civil (INCC), na razão de 6, 3 e 1 respectivamente. Recentemente o IPA (atacado) havia apresentado deflações significativas na esteira do derretimento dos preços das commodities e este comportamento emprestou ao índice quedas fortes no Geral. Mas este movimento terminou, e a deflação já apresenta alta moderada (não há explosão de preços de commodities, apenas uma retomada a patamares pré-bolha).
Do lado do INCC (construção civil) um aumento recente na mão de obra fez que o índice explodisse, mas esta alta é pontual e não deve estressar o índice novamente.
Quando se pensa metas de inflação e a decisão da taxa Selic, o que devemos observar com atenção é o comportamento da inflação ao consumidor (IPC). Este índice apresentou queda substancial de 0,15% para 0,07% reforçando a trajetória benigna.
O IPCA veio dentro da nossa expectativa e fecha maio em 0,47%.
Com estes dados na mesa, tudo leva a crer que o BC tem espaço para continuar patrocinando cortes na Selic. Nosso call era de corte de 100 pontos base (fazendo a Selic cair de 10,25 para 9,25), porém o mercado está agindo fortemente contra nossa leitura onde desaceleração econômica e inflação apresentam queda e onde não há risco numa inflação futura (seria até bom, nestes termos, que houvesse inflação). Tendo isso em mente, e levando em conta o ineditismo de taxas de juros de 1 dígito, acreditamos que o BC vá fazer um corte de 75 pontos base, fazendo a taxa de Selic sair de 10,25 para 9,50. O BC avançaria, mas não iria muito além, fazendo dessa decisão (corte de 75 pb) um movimento tático.
Seria uma espécie de parada técnica, onde – após anunciada a taxa – o BC poderá ver a reação do mercado com este novo cenário. O BC sabe, e os economistas também, que o corte dos juros por si só não vai recolocar a economia na rota do crescimento.
A taxa de um dígito será comemorada pelo governo como uma vitória, fazendo assim coro com a leitura positiva da economia brasileira e aplacando certas pressões políticas
É esperar para ver.














