Uma explicação para a alta da bolsa.
O atual comportamento da bolsa brasileira parece contrariar o bom senso econômico. Os sinais da economia doméstica mostram claros sinais de fraqueza e, no entanto, o mercado acionário continua de “bom humor”, fazendo a posição comprada vencer da vendida em 2009 de longe (a alta do iBovespa chega a 38% no ano, em dólar a bolsa brasileira acumula estonteantes 57%).
As razões deste movimento são muitas; entre estas cito a posição relativamente melhor do país em relação aos nossos colegas emergentes e industrializados, e, em especial, ao próprio Brasil de alguns anos atrás. Existem outros pontos relevantes que merecem atenção: a valorização do Real frente ao dólar e as reservas cambiais do Banco Central, que no último dia 18 contabilizavam US$ 203 bilhões (em tempo: o BC voltou as compras de dólar nas últimas semanas, o que deve aumentar nossas reservas).
A questão das reservas é controversa entre alguns economistas; muitos argumentam que é temerário acumular reservas num ativo (dólar) que tende a se desvalorizar nos próximos anos, uma vez que o FED vem conduzindo uma política monetária expansionista (inundando os EUA e o mundo com dólares) para combater a crise econômica aguda que aquele país passa. Estes mesmos economistas acreditam que estas reservas seriam melhores aplicadas se fossem destinadas à investimentos diretos, em especial financiando os planos de expansão de empresas brasileiras no exterior.
O fato novo é que, com reservas volumosas em moeda forte (se o dólar não é moeda forte, qual seria?) neste montante, o Brasil criou um mecanismo financeiro até agora eficiente de amortecimento de impactos externos, ficando comprado em dólar quando preciso, ou vendido se necessário. A estratégia deliberada do BC de acumular reservas tem tido sucesso e é bem vinda; imaginem se o país tivesse que, neste momento, aumentar a taxa de juros para fechar as contas externas como era de praxe anos atrás. Estaríamos hoje em franca depressão econômica.
Porém o objetivo deste comentário é avaliar um único aspecto da economia brasileira: a taxa de juros. Para falar de taxa de juros temos que ter em mente que hoje vigora no país o Sistema de Metas de Inflação. O instrumento por excelência da implementação da política monetária hoje é a manipulação de um elemento exógeno da economia, ou seja, a taxa de juros básica, a SELIC. Se não há perigo de inflação o BC abaixa a taxa básica; assim ele “libera” recursos para a economia, estimulando o desencaixe de moeda em posições menos líquidas (depósito a prazo, títulos e etc..) para posições mais líquidas. Desta forma ele incentiva o consumo, seja na forma de consumo final ou em investimentos.
Caso a inflação esteja alta o BC age no sentido inverso. No caso brasileiro, nosso BC tende a ver a inflação como resultado de demanda exagerada, pressionando assim os preços uma vez que a oferta é inelástica – não se altera – no curto prazo. Neste caso o BC aumenta a taxa de juros para retirar da forma líquida o dinheiro (moeda em poder do público e depósitos à vista), e evitar o consumo. É como se o BC criasse uma “recessão de laboratório” e jogasse no tecido econômico, de tal sorte que a demanda recue para um patamar adequado que pare de pressionar os preços.
O BC tradicionalmente também observa com atenção a evolução do câmbio, uma vez que o Real desvalorizado encarece as importações, fazendo que o país “importe” inflação. Foi este o medo da maioria dos economistas quando o câmbio disparou no final do ano passado: que a inflação viesse na forma de bens importados, que pressionam os custos das empresas (uma vez que muitos insumos são importados) e o consumo das famílias (alimentos e bens industrializados).
Vamos então supor que sejam apenas estes dois elementos que o BC observa, fora a inflação em si, para determinar a taxa de juros básica:
• Demanda
• Câmbio
Primeiro vamos observar a demanda doméstica. Os dados disponíveis apontam para uma deterioração da capacidade de compra dos indivíduos por duas frentes. Num primeiro momento a crise de crédito no país, um sub-produto da crise de confiança generalizada que o mundo enfrentou, diminuiu a capacidade de endividamento das famílias. O Brasil vivia até bem pouco tempo uma explosão no consumo de bens duráveis (carros, geladeiras, motos, TV´s, celulares, etc..) e este consumo tende a cair uma vez que o crédito enfraqueça. O governo se esforçou bastante para reverter esta tendência, reduzindo impostos e ajudando setores chave, em especial a indústria automotiva. Mesmo que o crédito esteja disponível, a confiança do consumidor está deprimida, fazendo este indivíduo ficar menos disposto a se endividar.
Observamos que desde novembro de 2008 a confiança está abaixo do valor verificado no início da série, apontando uma percepção muito ruim sobre a atual situação econômica, frustrando assim muitas decisões de consumo. Observamos também melhora da confiança na margem, no entanto ainda abaixo do início da pesquisa.
Outro determinante da demanda é a renda disponível. Para observar este fenômeno iremos abordar sob dois critérios: renda habitual e emprego.
A Renda Nominal habitualmente recebida pelos trabalhadores brasileiros está relativamente estável nos últimos meses segundo o IBGE, não apresentando dessa forma fonte de estresse aos preços.
Do lado do emprego vimos que a deterioração da economia chegou ao mercado de trabalho. È o que aponta os dados do CAGED divulgados essa semana e, como apontamos no Comentário Diário de ontem, a série dessazonalizada apresenta perda de empregos em abril em relação ao que é habitualmente observado (foram 106 mil vagas contra 140 mil vagas normalmente criadas). Em outras palavras: o desemprego deve aumentar, retirando mais uma vez fôlego da demanda (amanhã será divulgada a taxa de desemprego no Brasil, atualmente está em 9%).
Pelo que expomos aqui o problema não é do lado da demanda.
Agora vamos observar o comportamento do câmbio. O gráfico abaixo mostra a evolução da moeda norte-americana nos últimos meses.
Após a disparada em setembro/outubro de 2008 por conta do arrefecimento da crise de confiança, o Dólar volta a sua trajetória descendente e retira por completo receios de “importação de inflação”. O motivo desta valorização do Real frente ao dólar tem uma explicação mais ligada ao mercado mundial que a questões domésticas. O Dólar está perdendo força de forma constante frente às moedas do mundo.
Fora estes dois fatores (demanda e câmbio) a desaceleração econômica recente produziu mais um efeito desagradável do ponto de vista econômico, mas benigno do lado inflacionário: o aumento da não utilização da capacidade instalada. Isto indica que o país poderá crescer ocupando a capacidade instalada, evitando assim pressões de custo na inflação.
Em decorrência deste conjunto de fatores, onde a demanda, o câmbio e o nível de atividade econômica conspiram para uma inflação menor, a taxa de juros acompanha o movimento e cai frente a esta realidade.
Prova disso são os contratos de juros futuros. Pegamos para ilustrar o fato o DI futuro com vencimento em janeiro de 2010.
O BC, que habitualmente observa estes parâmetros, já demonstra interesse em continuar com a política de corte de juros. Por todos estes sinais que acreditamos que os juros no país devem continuar caindo no país.
Mas onde Juros e Bolsa se encontram? De diversas maneiras, mas neste momento vamos nos ater a apenas duas formas. Antes, porém, devemos reiterar o que significa uma ação negociada na Bolsa de Valores para termos claro o ponto de partida.
Ao comprar uma ação de uma empresa o indivíduo adquire a propriedade privada dos ganhos futuros desta empresa. Ou seja, ele vira sócio daquele negócio daquele ponto em diante. Se o histórico daquela empresa era bom ou ruim pouco importa sob esta perspectiva. O que importa é o futuro desta empresa, não seu passado.
Neste momento é que temos a primeira relação entre Juros e Bolsa. Qual o preço justo de uma ação? O preço justo dessa ação é a valorização esperada deste papel de hoje até um futuro predeterminado (um ano, dois anos, vinte anos, tanto faz), comparado as outras opções possíveis de investimento. Para calcular o ganho potencial desta empresa temos que comparar a evolução esperada deste ativo (ação) contra a aplicação financeira livre de risco, no caso papéis atrelados a dívida pública que variam em torno da taxa básica de juros. Quando a taxa de juros cai, e as projeções futuras sobre essa taxa são de queda, o preço do ativo (ação) descontado a valor presente aumenta.
Para exemplificar isso vamos trabalhar com um exercício hipotético. Imagine que a taxa de juros básica seja de 10% ao ano e que no dia primeiro de janeiro você compre uma ação de uma empresa. Você espera, segundo sua expectativa, que esta ação valorize ao longo deste ano 15%. No dia primeiro de janeiro o preço desta ação era, vamos supor, de R$ 20,00. Este preço equilibra a expectativa de ganho com este ativo (ação) e a taxa livre de risco, que no caso é de 10% ao ano.
Se, por acaso, a taxa de juros começa baixar – e tudo indica que ela vai cair – o que acontece com aquele ativo (ação) que você tem em mãos? Ele começa a subir, uma vez que o ganho potencial entre o ganho esperado entre a valorização daquele ativo (ação) e os juros aumentou.
Este é o primeiro efeito, e quase que imediato, de alta que a bolsa sofre com a queda dos juros.
Se a primeira forma descrita representa uma dinâmica inscrita na própria esfera da bolsa, a segunda forma acaba relacionando a bolsa com outras formas de aplicação financeira.
Se os juros caem, e tudo indica que vai, a rentabilidade da Renda Fixa, atrelada a evolução da taxa básica de juros da economia, perde frente aos ganhos potenciais da Bolsa de Valores. A Renda Variável (Bolsa) fica mais atraente que a Renda Fixa (Juros) e isto faz que recursos que antes se encontravam numa dada aplicação sejam canalizadas para os investimentos em ativos (ações) na Bolsa de Valores.
Este movimento explica parte da volta dos estrangeiros para a Bolsa brasileira, uma vez que a taxa de juros em sues países de origem é praticamente nula (claro, devemos ponderar ainda nesta equação para os estrangeiros o risco cambial, que não é desconsiderável). Após um período em que o estrangeiro liquidou suas posições em países emergentes para tentar sanar os prejuízos em suas matrizes, o movimento agora é de volta destes capitais. O ano passado a fuga de capitais chegou a R$ 24 bilhões de reais. Neste ano o saldo até o dia 14 de maio é positivo em R$ 7,3 bilhões, praticamente o recorde histórico de 2003, que fechou o ano com R$ 7,5 bilhões.
Este movimento dos juros em baixa influenciando a bolsa também incentiva um novo investidor: a pessoa física. Após anos renegado ao segundo plano entre os grandes investidores do mercado, a pessoa física conquista um lugar de destaque no cenário. A busca é de uma rentabilidade maior que as aplicações financeiras tradicionais.
Hoje este segmento representa cerca de 32% do volume da bolsa (dez anos atrás era metade disso), trazendo mais estabilidade ao mercado acionário uma vez que as decisões deste tipo de investidor não é centralizada.
Só este dois movimentos, da volta do estrangeiro e do crescimento da pessoa física, já explicam boa parte deste movimento de alta da bolsa.
Esta explicação de alta na bolsa, como conseqüência da queda nos juros, é apenas uma das causas possíveis do fenômeno. Não há dúvida de existem outros motivos que interferem na alta recente das bolsas.
O objetivo deste comentário é deixar claro que as bolsas estão subindo impulsionadas, em grande medida, por um motivo negativo. A queda na taxa de juros neste momento representa a reação da autoridade monetária (BC) aos sinais ruins da economia.
Logo reiteramos nosso cenário de nível de atividade ruim este ano no país.
Nos dias 9 e 10 de junho o COPOM se reúne para determinar a nova taxa SELIC. No dia 9 de junho será divulgado o PIB do primeiro trimestre. É esperar pra ver.
Autor: André Perfeito - Categoria(s): Sem categoria Tags:








muito bom!!!
Obrigado Pietro
E imaginar que a bolsa agora acumula 50% em eais e 90% em dólar.
Vai vendo.
Abs.
Muito explicativo e elucidativo a matéria sobre a alta na bolsa…
Esta alta realmente incentiva-nos a sair um pouco do “porto seguro” da renda fixa e investir um pouco de nossas aplicações na bolsa.
Abraço a todos!
http://www.dinheirobr.com