SONHO AFRICANO
Foi um jogo sofrido, cansativo, dramático. E a África sobrevive na sua Copa. Na última, Gana caiu contra o Brasil nas oitavas. E, na primeira fase, tinha vencido os mesmos Estados Unidos pelos mesmos 2 a 1. Tinha sido também, em 2006, a única seleção africana a passar da primeira fase.
Gana foi campeã mundial sub-20 em 2009. Teve um craque com nome de craque nos anos 80, Abédi Pelé. Dele eu lembro, mais pela curiosidade do nome do que pelo futebol propriamente dito. Jogava no Olympique de Marselha e fez sucesso. Não é qualquer um que mete Pelé no nome e sobrevive ileso. Pelos resultados recentes, dá para dizer que o Continente Negro já tem sua potência. E não é a badalada Costa do Marfim, nem Camarões, que vive do passado.
Os EUA se esforçaram barbaramente. Mas estavam mortos ao final do jogo. A prorrogação foi um suplício. Acontece, não é culpa do preparador físico — que, ao que parece, é brasileiro. É que certas partidas consomem todas as energias de um jogador de futebol. Foi assim nessa batalha de Rustemburgo.
O bom é que Gana não saiu distribuindo botinadas para se classificar, como fez Costa do Marfim contra o Brasil. Jogou futebol. E para desmentir a tese de que os africanos precisam de treinadores africanos, que eu mesmo mencionei aqui humildemente, seu técnico é sérvio.
Gana tem uma boa seleção, e como diz a frase pintada no seu ônibus, é “a esperança africana”. É mesmo. Foi a que sobrou da primeira fase, e agora está entre as oito melhores do planeta. Terá a Celeste pela frente. Jogo interessantíssimo. A estrela negra de sua bandeira é, mais do que nunca, a estrela da África.
Palmas para Gana, palmas para os americanos. Sua classificação, naquele jogo com a Argélia, já havia sido emocionante. Arrancada nos acréscimos, com um gol salvador de Donovan, elevou seus jogadores à condição de heróis. Nesse jogo de hoje, apesar do desespero, os EUA não deram um pontapé. Jogaram com uma lisura admirável, o que é legal porque introduz um certo comportamento ao jogo, talvez por seu contato recente com o próprio, que nem sempre é o padrão.
Numa Copa, a gente vai morrendo de pena de todos os eliminados durante um mês inteiro. É um exercício de solidariedade, também. Bem, é claro que não serve de consolo, mas os Obama Obama podem voltar para casa orgulhosos do que fizeram. E, ao contrário do que acontece em muitos esportes quando se trata dos EUA, sem a antipatia de ninguém.






