70, 40
Hoje faz 40 anos que o Brasil conquistou o tricampeonato no México. Eu tinha cinco anos, quase seis.
Minhas lembranças.
Morava em Moema, na rua Divino Salvador. Tínhamos um tio bem de grana que morava perto, numa casa enorme. Lá no fundo tinha uma espécie de salão de festas onde colocavam a TV para ver os jogos da seleção. Em preto & branco. A gente tem uma falsa ideia daquela Copa, porque as imagens que são vistas hoje são coloridas. Mas não havia TV colorida no Brasil em 1970.
Como estava perto do meu aniversário, ganhei uma camiseta amarela com a gola verde. O escudo da CBD era pregado com colchetes. O número se comprava em lojas de esportes, e era costurado nas costas. A minha era a 7. A 10 custaria mais caro, seria preciso comprar dois números para costurar nas costas.
Lembro de uma cadelinha pequinesa de uma tia, irmã do meu tio bem de grana, que na verdade era tio-avô, se chamava Suzy a cachorrinha, e era uma pentelha, latia sem parar, ninguém aguentava. Meu pai e meus tios viviam dando bicos nela, sai, Suzy pentelha do caralho. No dia da final, meu avô deixou cair o cigarro no chão, Continental sem filtro, e ele caiu de pé. O espantoso acontecido foi tomado como sinal de sorte, o cigarro teria de ficar de pé até o fim do jogo. Quando a Suzy chegava perto do cigarro, levava mais bicos dos meus tios e do meu pai. Porque se ela derrubasse o cigarro e o Brasil perdesse, seria da Suzy a culpa pela derrota canarinha.
Lembro que o Brasil ganhou e todos ficaram muito felizes. Meu pai tinha uma Variant, que eu beijava o capô quando ia dormir. Quando a seleção chegou ao Brasil, desfilou pela 23 de Maio em carro de bombeiros, com a Jules Rimet na mão. Lembro que fomos para cima do viaduto Indianópolis ver a seleção passar com a Jules Rimet na mão. Isso pode ser que seja fantasia minha, que fomos para cima do viaduto ver a seleção passar.
Lembro, porém, que a Variant tinha um portamalas grande, e que quando ficava aberto, a molecada podia se sentar lá para dar voltas pela cidade agitando bandeiras do Brasil. Foi por isso que comprei uma Variant. Quando olho para ela, tenho certeza que carregou alguns moleques no portamalas para ver a seleção passar.
Minha Variant sabe das coisas, ela que não me conta nada, mas sei que sabe.