A VEZ DA ÁSIA
O Japão eliminou hoje a Dinamarca. A Coreia do Sul passou para as oitavas. E foi semifinalista em 2002. Dos países asiáticos, apenas a Coreia do Norte se deu mal. A Ásia está sendo na bola o que se esperava que, a esta altura da história da humanidade, fosse a África.
Desde que Camarões apareceu bem numa Copa, não lembro bem qual (“Google-free”, não se esqueçam), a imprensa esportiva passou a declamar o futebol africano como o futebol do futuro. Moleque, artístico, rápido, fisicamente forte, malemolente e tal. Enquanto o Brasil se “europeizava” (existe isso?), os africanos surgiam como os novos brasileiros, alegres e descompromissados.
Minha primeira lembrança de uma seleção africana é de 1974, quando o Brasil pegou o Zaire e ganhou de 3 a 0 com um gol do Valdomiro. Mas todas me pareciam fracas. Até Camarões encantar o mundo. E, a partir daí, nigerianos, marfinenses, egípcios, ganenses, congoleses, marroquinos, líbios, moçambicanos, angolanos e toguenses (toguenses?) passaram a ser temidos e respeitados.
Pois a primeira Copa da África já viu quatro de suas seis representantes eliminadas na primeira fase. Camarões tem a pior campanha das 32 seleções deste Mundial, com três derrotas em três jogos. Gana é a única que passou, e deve agradecer à Alemanha, que goleou a Austrália e ajudou os africanos no saldo. Costa do Marfim não depende só dela, torce contra Portugal, é capaz de ficar pelo meio do caminho também.
Enquanto isso, os asiáticos não se assustam. Japoneses e sul-coreanos avançam com seus olhinhos puxados. Os japoneses jogando bem e pintando seus cabelos de loiro. Um bando de pókemons destemidos e espevitados.
Muito do que acontece com a seleção japonesa deve ser creditado ao Brasil. Nos anos 80 e 90, cheios da grana, eles começaram a importar técnicos e jogadores. Dezenas, centenas. Mas só caras bons de bola. E técnicos de qualidade. Zico talvez seja o maior desses nomes. Tanto que dirigiu a seleção japonesa na última Copa.
Mas, hoje, seu treinador é japonês. E talvez aí esteja uma explicação possível. As seleções africanas só usam técnicos europeus. Sérvios, checos, suecos, alemães, eslovacos, húngaros, sei lá. “Google-free”eu sou, ê-ô. Mas são europeus “duros”, que não entendem um cazzo de malemolência, molecagem, arte no trato da bola. São cartesianos, eficientes, táticos. Essas coisas não funcionam na África. É como colocar o mestre de bateria da Nenê da Vila Matilde para reger a Filarmônica de Berlim. Não vai dar certo. Alguém vai atravessar a harpa.
A África precisa de técnicos africanos que compreendam a natureza do futebol dos jogadores africanos. Enquanto não fizerem isso, vão ficar para trás. E a Ásia vai chegando. A próxima é a China, podem apostar.


