FIM
Não entendo picas de futebol. Não sei o que são duas linhas de quatro, nem o que é volante de contenção, a diferença entre lateral e ala é um daqueles mistérios da humanidade que jamais desvendarei, como quem construiu as pirâmides, ou se eram os deuses astronautas.
No fundo, acho que minha capacidade de entender de alguma coisa já se esgotou. Meu HD já era. O que entrou, entrou. O que não entrou, não entra mais.
Por isso sempre me assombro quando alguém me chama para escrever ou falar sobre qualquer coisa.
Copa do Mundo? Putz, eu queria era estar lá. Sempre quero estar onde as coisas acontecem, meu projeto de vida, que jamais será cumprido, é ficar viajando atrás das coisas para escrever sobre elas, um vulcão hoje, um papa amanhã, um tsunami depois de amanhã, um terremoto no fim da semana, uma Copa, uma Olimpíada, uma revolução, uma guerra, uma enchente, uma festa popular.
Mas não deu, paciência, e mesmo assim me pediram para escrever, e como gosto de escrever, aceitei. Na faculdade, um professor pediu que a gente ficasse um mês escrevendo todos os dias. Sobre qualquer coisa. O cara era um visionário, provavelmente aquilo ali era um blog. Tenho guardadas as folhas, batidas à máquina, minha velha Olivetti de letras esquisitas. Assim, ficar um mês escrevendo sobre uma Copa do Mundo não seria tão difícil assim. Passa tudo na TV, aparece tudo nos jornais. Bico. Lá vamos nós para mais um embromation remunerado, até que um dia me desmascarem.
E me preparei, que não se cometa nenhuma injustiça neste quesito. Logo no primeiro dia descolei uma tabela dos jogos, que ficava pendurada aqui na parede dos estúdios da rádio, porque também trabalho em rádio e em TV, engano muitos o tempo todo, é incrível esta capacidade inata de fingir que sei alguma coisa. Depois da terceira rodada, valiosa, a única em que eu confiava, passei a levar na mochila, dela não desgrudava nunca, nem sob a mira de um fuzil.
Criei um instituto de pesquisas, o DataGomes, esse aí da foto. Não é impressionante? Foi esse papel aí, na verdade uma folha de papel dobrada no meio, que me forneceu todos os dados estatísticos ridículos que fiquei postando aqui por um mês a fio. Sou um grande ilusionista.

Recusei-me a usar o Google. Quando não sabia de alguma coisa, quase sempre, o tempo todo, perguntava a pessoas. Se me pedirem para escalar o time campeão do mundo agora, receio que vou decepcioná-los. Sei o nome do goleiro, Casillas, do cara que fez o gol, Iniesta, e tem um Xavi e um Xabi, algo assim, além de um Villas e um cabeludo de nome Puyol. E basta. O técnico é um certo Tabáres, ou Gonzalez, ou Velazques. O da Holanda, então… Van Basten?
Errei todos meus palpites. Queria que o Uruguai fosse campeão, passei a gostar do time da Alemanha, virei um devoto de Maradona, caguei para a seleção brasileira. Não tive nenhuma grande sacada, não descobri Paul, o Polvo, nem Larissa Riquelme, minha deusa inatingível, não notei que a Jabulani era uma bola esquisita, só mesmo quando começaram a falar nisso, porque para mim bola é redonda, chuta e não enche o saco.
Curti a Copa com meus filhos, no fundo queria que eles abastecessem este blog sem reforço na mesada, mas a eles não engano, já faz alguns dias que se mandaram de férias, estão em noviórque, fiquei em último no bolão lá de casa, com quatro participantes, e não foi porque deixei alguém ganhar, é porque eles entendem muito mais do que eu, mesmo.
Foi-se a Copa, vai-se o blog. Desaparece nas vias obscuras da Grande Rede, tudo que aqui foi dito, por mim e por aqueles que cá pingaram suas impressões, jamais será encontrado por um arqueólogo no futuro, porque claro está que no futuro vai haver um pau monstruoso em todos os computadores do planeta e tudo desaparecerá, o planeta inclusive.
Apesar disso, procurei fazer o melhor, como sempre procuro. Mesmo sabendo que quase nunca consigo.






