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quarta-feira, 9 de junho de 2010 Copa 2010, Copinha | 18:20

COPINHA

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Crianças gostam de Copas do Mundo. Meus moleques também. Assim, foram ambos convocados para ajudar neste blog. “Filhos, peçam para seus amiguinhos fazerem desenhos com a visão deles da Copa”, eu disse ontem. Hã?, falou um, e nem olhou para o lado porque estava jogando PS3,e era o joguinho da Copa, aquele que os jogadores de verdade imitam. Ah, pai, não enche, falou o outro, que estava fazendo o mesmo, eles formam uma dupla, estavam se enfrentando.

Postei-me à frente da TV, os dois me xingaram porque o Messi perdeu a bola e o Rooney também, estraguei o jogo dos dois sem saber que era a final, e assim consegui convencê-los a me trazer, todos os dias, “a visão deles da Copa”. Caso contrário, sumiria com o disco do joguinho da Copa. Para não correrem o risco, estão pagando o mico e pedindo aos amigos para fazerem qualquer coisa.

Até que não começaram mal. O mais novo me veio com esta singela homenagem à seleção da Eslovênia, produzida em dupla com um amigo na aula de inglês. E por que a Eslovênia, filho?, Porque ele tinha a figurinha e a gente copiou, explicou, e garantiu que à noite traria mais material.

Por enquanto, esta é a visão da Copa dos meus moleques e de seus amiguinhos. Não ousem dizer que ficou ruim.

Autor: Flavio Gomes Tags:

Agenda, Copa 2010 | 17:01

AGENDA TRASH/EMBAIXADINHAS

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Os assessores chamam essas coisas de “pautas alternativas”. Uau. Bem, se você não bebe e não se interessa por vinhos sul-africanos, apesar de sua qualidade de buquê, pode “entrar no clima da Copa” (os assessores adoram isso) vendo a recordista brasileira de embaixadinhas na categoria infantil, Karine Duarte. Ela tem até site. E fará duas apresentações diárias no Shopping Frei Caneca nos dias 12, 19 e 26, às 15h e às 18h. Putz.

Karine ficou 2 horas e 22 minutos fazendo embaixadinhas e parece que isso é algum tipo de recorde. Foram cerca de 17 mil toques na bola. Putz.

 Além de dar um verdadeiro show com a bola nos pés, ela ainda vai interagir com crianças de 4 a 12 anos, distribuindo camisetas do Brasil durante uma gincana. Os participantes que apresentarem maior habilidade nas embaixadinhas levam o presente para a casa. O shopping também preparou uma oficina temática, onde a garotada aprende a confeccionar bandanas, cataventos, bandeiras, colares e pulseiras que ajudarão a compor o visual para torcer pelo Brasil. A oficina “Torcida Espaço Kids” acontece entre os dias 12 e 27 de junho, somente aos finais de semana. Os horários são: sábados das 12h às 20h e domingos das 14h às 20h. O Shopping Frei Caneca fica na Rua Frei Caneca, 569 – Cerqueira César.

Putz.

Autor: Flavio Gomes Tags: ,

Copa 2010, Grandes Craques | 16:46

GRANDES CRAQUES (2)

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Jürgen Sparwasser. Quem? Ora, ora… A quantas anda a ignorância futebolística neste país… Ainda bem que tenho leitores como o Lucas Chianello, que me intimou a não deixar de fora de nossa série “outrista” o grande craque alemão-oriental que fez o gol da gloriosa DDR no único jogo jamais disputado entre as duas Alemanhas. Aos 3min do vídeo acima Sparwasser fuzila Sepp Maier e faz 1 x 0. Ficou nisso. Na época, disseram que o poderoso time de Beckenbauer & cia. perdeu de propósito para pegar um grupo baba na fase seguinte. Calúnia, claro.

Esse jogo é tratado como um momento histórico, e foi, por todos os alemães. Afinal, nunca as duas seleções do país dividido ao meio haviam se enfrentado, e nunca mais se enfrentariam. A partida foi disputada em Hamburgo. E estava cheio de torcedor da Alemanha Oriental. Neste vídeo aqui, o gol está em preto e branco. Do jeito que chegou às TVs do lado de lá do Muro. Ou do lado de cá, dependendo do ponto de vista.

Sparwasser é nosso craque de hoje e ponto final.

Autor: Flavio Gomes Tags: , ,

Copa 2010 | 08:25

OS INIMIGOS

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Já repararam que a imprensa virou a grande inimiga de todas as seleções? Que técnicos e jogadores não aguentam mais os jornalistas? Acham insuportáveis as entrevistas coletivas, as zonas mistas, as perguntas, os comentários?

É uma relação curiosa, e sempre turbulenta, esta da imprensa com as seleções. Na Argentina e na Itália, por exemplo, são históricas as guerras francas e abertas, como em 1982, naquela Copa que a Azzurra ganhou depois de fazer greve de silêncio contra a imprensa da Bota. Aqui do lado, Maradona, quando ainda não era técnico, deu até tiro de espingarda em jornalistas na frente de sua casa. Outro dia, passou com o carro sobre o pé de um fotógrafo. Acho que era fotógrafo. Nas eliminatórias, quando se classificou, mandou todos chuparem alguma coisa. Chupem! E, na África do Sul, deixa os caras do lado de fora da cerca e não quer nem saber.

Dunga ainda não chegou ao ponto de distribuir bordoadas de verdade em ninguém, nem atropelou colunistas ou repórteres, não se sabe se andou dando tiros de espingarda em alguém. São apenas verbais, seus petardos. Abre suas entrevistas, sempre, cuspindo marimbondos.

O resultado é que a cobertura da seleção brasileira nunca foi tão sem sal como nesta Copa. O exército de jornalistas que lá se encontra precisa se contentar com coletivas e mais nada. Não vê treinos, não conversa com ninguém. O goleiro titular está com dor nas costas faz uma semana e o médico ainda não apareceu para dizer o que está acontecendo. Na folga, o que de mais emocionante aconteceu, ontem, foi um passeio por um shopping. Não teve farra, noitada, puteiro, álcool e fumaça. Não há curandeiros, pais-de-santo, onde anda o Vicente Matheus?

É um verdadeiro seminário, essa seleção.

Aí a imprensa, coitada, é obrigada a apelar para as estatísticas mais inúteis do mundo para preencher espaço. “Kleberson só jogou 49 minutos na era Dunga!”, grita um pasquim. “Robinho já fez 19 gols em 49 jogos com o Dunga!”, berra outro. Putz, bela merda.

Dá pena dos colegas. São tratados como inimigos. E a maioria, Dunga que não se engane, torce desesperadamente para a seleção. Ou porque torce mesmo, ou porque “é bom para a imprensa” se o Brasil ganhar, ou porque se o time for eliminado a viagem fica mais curta. E esse comportamento besta vai para as entrevistas, claro. Os caras se acham no direito não de perguntar, mas de cobrar o técnico, perguntar opinando, essas coisas — com as exceções de sempre, claro.

E Dunga devolve com suas patadas dos pampas, porque é chato, mesmo, alguém apontar o dedo para você e dizer o que você tem de fazer, por que não coloca o Ramires?, por que convocou o Doni?, e essas perguntas são feitas não como perguntas, mas sim como acusações, e é por isso que o Dunga não aguenta a imprensa e ninguém aguenta o Dunga.

Em resumo, Dunga é um pentelho. Mas a imprensa também é chata. E, com isso, tem-se a fórmula ideal para se chegar ao que estamos vendo nestes dias de preparação da seleção: zero de notícia. “Saldo de gols depois das substituições é de 23 contra 15 dos titulares!”, me informam as folhas de hoje, desesperadas com a falta de assunto. Putz, caguei. Queria saber é se alguma loira gostosa invadiu o clube de golfe e catou alguém.

Autor: Flavio Gomes Tags: , ,

terça-feira, 8 de junho de 2010 Agenda, Copa 2010 | 21:17

AGENDA TRASH/VINHOS

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Todo mundo já deve ter uma tabelinha da Copa na carteira, ou pendurada na baia do escritório, ou já registrou nos favoritos do computador a melhor de todas, feita pelo site do jornal espanhol “Marca”. Pode clicar sem medo que vale a pena. O único problema é que os horários não são de Brasília.

Assim sendo, este blog natimorto (sim, morre inapelavelmente no dia 11 de julho, sem direito a velório, nem coroa de flores), na medida do possível, vai indicar eventos paralelos para quem está no Brasil e, mesmo não gostando de futebol, quer se sentir participante, de alguma forma.

A dica de hoje é ótima para quem vê no vinho a verdade. Quem sabe depois de algumas taças surja no horizonte a verdade das dunguetes amarelinhas. Lá vai:

Na sexta-feira, dia 11 de junho, às 19h, o SESC Carmo realiza o bate-papo “Vinhos da África do Sul”. O sommelier e consultor Arthur Azevedo irá conduzir a conversa, que terá degustação posterior. O ex-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo falará sobre as tradições, a geografia, a rota do vinho e as curiosidades, tendo como foco a região da Cidade do Cabo.

Falar sobre vinhos da África do Sul, mesmo nos dias de hoje, ainda causa espanto e admiração, pois são poucas as pessoas que se dão conta de que há muito tempo o país produz vinhos e de muito boa qualidade.

Boa parte desse desconhecimento deriva do fato de que a África do Sul ficou por longo tempo afastada do restante do mundo, por conta de sua política racial, o apartheid, que condenou todos os produtos do país a ficarem fora do mercado internacional. E os vinhos não foram exceção.

Somente no início dos anos 90 é que a África do Sul voltou a fazer parte do cenário vitivinícola mundial, começando de forma tímida e depois bastante agressiva uma campanha de recuperação de mercado.

A exportação dos vinhos sul-africanos vem crescendo de forma acentuada, passando de algo como 25 milhões de litros em 1991 para expressivos 240 milhões em 2003.

O principal vinho exportado é o produzido com a Chenin Blanc, seguido pelos vinhos à base de Chardonnay, com a Sauvignon Blanc ocupando o terceiro lugar.

Os ingressos custam de R$ 2,50 a R$ 10,00. O endereço do SESC Carmo é Rua do Carmo, 147. Mais informações pelo telefone 3111-7000 ou pelo portal do SESC.

Autor: Flavio Gomes Tags: ,

Copa 2010 | 21:01

E DAÍ?

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Recebo e-mail com o seguinte teor:

Segue sugestão de release. Audi R8 V10 e Adidas F50, a chuteira mais leve do mundo, juntos em exposição no Shopping Morumbi.

Coloco-me à disposição para quaisquer dúvidas e solicitações.

Não tenho nenhuma dúvida, nem solicitações. Quer dizer… Se puder me responder, essa chuteira tem ar, airbag e trio elétrico?

Autor: Flavio Gomes Tags: , ,

Copa 2010 | 20:53

OS NOTÁVEIS

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Putz. Até alguém desmentir, esse aí é o logo oficial da Copa de 2014. Não vou entrar na discussão estética. Em geral, esses logos são horríveis. E os mascotes, piores ainda. Não é nem feio nem bonito, pronto. E é ótimo para piadas como “todo mundo mete a mão” e coisas do gênero.

Ocorre que a escolha já está sendo contestada pelas agências que participaram do concurso que chegou na taça das mãos-leves. E tem muita gente que não engole direito o conselho de notáveis responsável pela aprovação. A saber: Ivete Sangalo, Gisele Bündchen, Paulo Coelho, Hans Donner, Oscar Niemeyer, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Comitê também, digamos, extra-oficial. Ninguém confirma sua existência, nem se se reuniram secretamente em algum castelo no Vale do Loire ou algum boteco do Baixo Gávea.

Acho um absurdo. Como é que montam um conselho desses com Ivete, La Bündchen & companhia bela e deixam de fora Cláudia Leitte (é com dois Ts?), Luciano Huck, Fausto Silva e Gugu Liberato?

O episódio me faz lembrar de algumas crônicas deliciosas de Carlos Heitor Cony sobre duas personagens luminares que ditaram os rumos do Brasil por anos a fio. Ele se referia a Dona Neuma e Dona Zica da Mangueira. Nada se fazia neste país sem que antes algum jornalista consultasse Dona Neuma e Dona Zica. Elas opinavam sobre tudo. Planos econômicos, política nuclear, medicamentos genéricos e pesca ilegal das baleias. De tudo sabiam, sobre tudo tinham opiniões firmes e definitivas.

Depois que Dona Neuma e Dona Zica morreram, ficamos à mercê da Ivete e da Gisele. Pelo menos têm pernas bonitas, as duas.

Autor: Flavio Gomes Tags: ,

Copa 2010, Grandes Craques | 20:29

GRANDES CRAQUES (1)

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Sou cheio de inventar seções, então podem ir se preparando. E sou goleiro, também. Se tivesse uns 20 cm a mais, teria sido titular da seleção brasileira desde a Copa de 86. Talvez estivesse disputando a última agora.

Como todo “outrista” que se preze, meus grandes ídolos não são os da maioria. Um deles é Dasaev, goleiro da União Soviética que ficou famoso nos anos 80. Quando parou de jogar, passou a encher a cara com frequência, mas se curou do alcoolismo.

Pronto, está aí meu primeiro grande craque que a poeira da memória permite lembrar. Vão lembrando os seus. Se eu gostar de algum, pingo um YouTube aqui.

Autor: Flavio Gomes Tags: ,

Copa 2010 | 16:21

CHEGUEI PRIMEIRO

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Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa. Não estou na África do Sul para cobrir a Copa.

Isso posto, vamos esclarecer outra coisa. Estive lá cobrindo futebol muito antes do que todo mundo. Portanto, falo de cátedra sobre a África do Sul e seu futebol. Afinal, cobri uma final de Copa por lá. Não do mundo, mas sul-africana. O que legitima toda e qualquer bobagem que eu escrever nos próximos 30 e poucos dias.

Sim, cobri uma final de Copa da África do Sul. Era o ano da graça de 1992, e me mandaram para lá quando a F-1 voltou ao país. Por alguma razão, cheguei muitos dias antes da corrida. Acho que tinha algo a ver com a passagem. Se eu ficasse, sei lá, dois anos na África do Sul, a passagem era mais barata do que se eu ficasse cinco dias, que era o que precisava.

E lá fui eu para Joanesburgo, que será grafado assim aqui, sem H ou N dobrado, muito menos G mudo, quando muito escreverei Jo’burg, que é para os descolados, via Cidade do Cabo, num vôo da Varig que morria em Bangcoc — o que explica a falência da Varig, onde já se viu manter uma linha para Bangcoc via África do Sul?

Cheguei à cidade antes de todo mundo, hospedei-me num hotel no centro e tinha lá uma semana sem muito para fazer até começarem os treinos, e aí fui arrumar trabalho.

O apartheid tinha acabado oficialmente, então desprezei os avisos de que o centro de Jo’burg não era lá muito amigável para branquinhos de olhos azuis e na primeira noite resolvi dar umas bandas por ali. E devo dizer que se é verdade que fui olhado com alguma estranheza pela imensa maioria negra que já começava a ocupar os espaços na cidade — os branquelas se mandaram para condomínios fechados, vigiados e afastados, e parece que continuam por lá até hoje —, é também verdade que não fui hostilizado por ninguém em momento algum.

Não me lembro direito como, mas acabei conhecendo um rapaz de Curitiba que estudava jornalismo e escrevia para algum jornal ou revista de Joanesburgo. Eu trabalhava na “Folha”. Não, não foi no Facebook, nem no Orkut. Minha conexão com o mundo, em 1992, resumia-se a um Toshiba T1000 que chegou sem bateria e não consegui carregar na tomada para barbeadores elétricos no banheiro do hotel. Tive de sair à cata de um adaptador para a tomada sul-africana, que acabei achando, mas me foi surrupiado anos depois pelo Clóvis Rossi, que foi para lá cobrir não sei o quê.

(Eu já tinha saído do jornal, mas o Clóvis foi enviado, se não me engano, para cobrir a eleição do Mandela. A única pessoa que ele conhecia que já tinha estado na África do Sul era eu, e foi em casa buscar o adaptador.)

O rapaz de Curitiba, cujo nome infelizmente me escapa, gostava de futebol e sabia de uns brasileiros que militavam no bravo futebol sul-africano. Entre eles um técnico havia anos trabalhando na África, em vários países, Suazilândia, Gana, Moçambique, Angola, Congo, Uganda, Rodésia, sei lá. O cara era um saltimbanco que não parava em lugar algum, e para onde ia levava a mulher e as duas filhas. Lindas, diga-se. Era um sujeito divertidíssimo e muito inteligente, cujo nome igualmente me escapa. Não reparem, faz muito tempo. Procurei a reportagem nos meus pertences e não encontrei. Mas vou encontrar.

Entrevistei o treineiro e meu amigo curitibano perguntou se eu queria encontrar um jogador razoavelmente conhecido, o Jaiminho, que tinha sido do São Paulo e estava jogando bola no Orlando Pirates, um dos times mais populares do país. Aliás, aqui vale um parêntese. Os nomes dos times sul-africanos são horríveis. Orlando Pirates, Kaizer Chiefs, Sundowns (tarados por protetor solar?), Swallows, Golden Arrows, tem até um ridículos Santos. Orlando Pirates não dá. Orlando é nome de gente. E o escudinho é uma caveira. Coisa mais macabra. E por incrível que pareça, não sou mentiroso, hoje vi um cara na avenida Paulista com uma jaqueta preta do Orlando Pirates. Não deu tempo de fotografar, mas juro que vi.

Fechado o parêntese, era semana da final da Copa da África do Sul, e os quatro primeiros citados na minha lista de times sul-africanos jogariam no FNB Stadium, sendo FNB a sigla, se não me equivoco, de First National Bank. Seriam realizados, no mesmo dia, dois jogos: disputa de terceiro e quarto e final. O Jaiminho, portanto, estava nessa.

Como estou firmemente disposto a fazer este blog sem consultar o Google, ajudem-me vocês com essas informações básicas. Descubram quem decidiu a Copa da África do Sul em 1992. Não me lembro. Só lembro que o tal de Sundowns estava hospedado no meu hotel, e os caras se intitulavam “The Brazilians”, pela camisa verde e amarela, e pelo futebol que julgavam jogar. E antes do jogo, encontramos, eu e meu amigo de Curitiba, o Jaiminho. Fomos tomar uma cerveja. Faltavam uns dois dias para a grande final, ninguém precisou fugir da concentração.

E foi quando, finalmente, o tom cor-de-rosa daquela África do Sul que até ali estava achando civilizadíssima, de ótimo asfalto e simpáticas casinhas vitorianas, quase uma Inglaterrinha, desbotou. Eu tinha um carro alugado, eu que dirigia, já estava íntimo das ruas e dos bairros de Jo’burg, peguei o amigo de Curitiba e o Jaiminho e fomos a um bar qualquer, esses que se veem em todas as cidades, cheio de jovens, bonito e bacana, boa cerveja, bons petiscos.

Parei o carro diante do bar, que ficava numa calçada recuada num bairro nobre, eu ao volante, Jaiminho, negro, no banco do carona, o amigo de Curitiba, branco, atrás. Imediatamente saíram do bar alguns caras brancos, bem brancos, bem brancos e bem fortes, gritando impropérios em africâner ou outra língua qualquer. Vieram em nossa direção, e eu não precisava ser nenhum poliglota sensitivo para perceber o que estava acontecendo.

Eu levava um negro no carro, e os brancos bem brancos e bem fortes não permitiriam que entrássemos no mesmo bar que eles. Cercaram o carro e um deles começou a mijar no meu parachoque. Jaiminho olhava para o chão do carro sem medo ou pavor. Provavelmente já tinha passado por aquilo antes. Talvez até no Brasil. Meu amigo curitibano também não demonstrou nenhum nervosismo. Acho melhor a gente ir, ele disse.

Eu fiquei sem saber o que falar. Filhos da puta, disse, liguei o carro e fui embora.

Encontrei Jaiminho alguns dias depois no FNB Stadium, que vem a ser exatamente o Soccer City, é lá que foi erguido o estádio que sexta-feira abre a Copa e no dia 11 de julho fecha os trabalhos boleiros na África do Sul. Entrei no campo, na condição de jornalista. As arquibancadas tinham só torcedores negros. De brancos, no estádio, eu, meu amigo de Curitiba, o trio de arbitragem, o presidente da federação de futebol e os goleiros. Eles não confiam nos goleiros negros, me explicou o amigo curitibano. Acham os brancos melhores. Não sei se o goleiro da seleção sul-africana é branco ou negro, esse que joga sexta-feira. Este blog é “Google free”, lembrem-se. Saberei daqui a três dias.

O rúgbi é o esporte dos brancos aqui, continuou o amigo de Curitiba. Futebol é para os negros. Antes de começarem os jogos, um grupo vocal entrou no campo e com um único microfone as negonas mandaram o hino do país em zulu, uma das coisas mais emocionantes que vi na vida, aquela multidão cantando junto, uma coisa.

Tenho parcas lembrança do jogo, para dizer a verdade. O coral das negonas, um louco que ficava animando a torcida, as traves de madeira com quina, algo meio medieval, o placar suspenso por cabos de aço sobre o círculo central, a tranquilidade e o sossego de tudo aquilo, apesar de estarem jogando ali equipes rivais no meio do Soweto, num estádio onde Mandela discursou logo que saiu da prisão.

Foi meu batismo na África do Sul. Acho que é o suficiente para falar desta Copa, mesmo não estando lá. Já estive, e quando estive não havia Copa. Era um país que saía da senzala e do ódio promovido, bancado, financiado e alimentado pelos branquelas que mijaram no parachoque do meu carro, os filhos da puta. Pior que este que nos chegará pela TV, sem dúvida. Mas de verdade.

Autor: Flavio Gomes Tags: , , , ,

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