Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa. Não estou na África do Sul para cobrir a Copa.
Isso posto, vamos esclarecer outra coisa. Estive lá cobrindo futebol muito antes do que todo mundo. Portanto, falo de cátedra sobre a África do Sul e seu futebol. Afinal, cobri uma final de Copa por lá. Não do mundo, mas sul-africana. O que legitima toda e qualquer bobagem que eu escrever nos próximos 30 e poucos dias.
Sim, cobri uma final de Copa da África do Sul. Era o ano da graça de 1992, e me mandaram para lá quando a F-1 voltou ao país. Por alguma razão, cheguei muitos dias antes da corrida. Acho que tinha algo a ver com a passagem. Se eu ficasse, sei lá, dois anos na África do Sul, a passagem era mais barata do que se eu ficasse cinco dias, que era o que precisava.
E lá fui eu para Joanesburgo, que será grafado assim aqui, sem H ou N dobrado, muito menos G mudo, quando muito escreverei Jo’burg, que é para os descolados, via Cidade do Cabo, num vôo da Varig que morria em Bangcoc — o que explica a falência da Varig, onde já se viu manter uma linha para Bangcoc via África do Sul?
Cheguei à cidade antes de todo mundo, hospedei-me num hotel no centro e tinha lá uma semana sem muito para fazer até começarem os treinos, e aí fui arrumar trabalho.

O apartheid tinha acabado oficialmente, então desprezei os avisos de que o centro de Jo’burg não era lá muito amigável para branquinhos de olhos azuis e na primeira noite resolvi dar umas bandas por ali. E devo dizer que se é verdade que fui olhado com alguma estranheza pela imensa maioria negra que já começava a ocupar os espaços na cidade — os branquelas se mandaram para condomínios fechados, vigiados e afastados, e parece que continuam por lá até hoje —, é também verdade que não fui hostilizado por ninguém em momento algum.
Não me lembro direito como, mas acabei conhecendo um rapaz de Curitiba que estudava jornalismo e escrevia para algum jornal ou revista de Joanesburgo. Eu trabalhava na “Folha”. Não, não foi no Facebook, nem no Orkut. Minha conexão com o mundo, em 1992, resumia-se a um Toshiba T1000 que chegou sem bateria e não consegui carregar na tomada para barbeadores elétricos no banheiro do hotel. Tive de sair à cata de um adaptador para a tomada sul-africana, que acabei achando, mas me foi surrupiado anos depois pelo Clóvis Rossi, que foi para lá cobrir não sei o quê.
(Eu já tinha saído do jornal, mas o Clóvis foi enviado, se não me engano, para cobrir a eleição do Mandela. A única pessoa que ele conhecia que já tinha estado na África do Sul era eu, e foi em casa buscar o adaptador.)
O rapaz de Curitiba, cujo nome infelizmente me escapa, gostava de futebol e sabia de uns brasileiros que militavam no bravo futebol sul-africano. Entre eles um técnico havia anos trabalhando na África, em vários países, Suazilândia, Gana, Moçambique, Angola, Congo, Uganda, Rodésia, sei lá. O cara era um saltimbanco que não parava em lugar algum, e para onde ia levava a mulher e as duas filhas. Lindas, diga-se. Era um sujeito divertidíssimo e muito inteligente, cujo nome igualmente me escapa. Não reparem, faz muito tempo. Procurei a reportagem nos meus pertences e não encontrei. Mas vou encontrar.
Entrevistei o treineiro e meu amigo curitibano perguntou se eu queria encontrar um jogador razoavelmente conhecido, o Jaiminho, que tinha sido do São Paulo e estava jogando bola no Orlando Pirates, um dos times mais populares do país. Aliás, aqui vale um parêntese. Os nomes dos times sul-africanos são horríveis. Orlando Pirates, Kaizer Chiefs, Sundowns (tarados por protetor solar?), Swallows, Golden Arrows, tem até um ridículos Santos. Orlando Pirates não dá. Orlando é nome de gente. E o escudinho é uma caveira. Coisa mais macabra. E por incrível que pareça, não sou mentiroso, hoje vi um cara na avenida Paulista com uma jaqueta preta do Orlando Pirates. Não deu tempo de fotografar, mas juro que vi.

Fechado o parêntese, era semana da final da Copa da África do Sul, e os quatro primeiros citados na minha lista de times sul-africanos jogariam no FNB Stadium, sendo FNB a sigla, se não me equivoco, de First National Bank. Seriam realizados, no mesmo dia, dois jogos: disputa de terceiro e quarto e final. O Jaiminho, portanto, estava nessa.
Como estou firmemente disposto a fazer este blog sem consultar o Google, ajudem-me vocês com essas informações básicas. Descubram quem decidiu a Copa da África do Sul em 1992. Não me lembro. Só lembro que o tal de Sundowns estava hospedado no meu hotel, e os caras se intitulavam “The Brazilians”, pela camisa verde e amarela, e pelo futebol que julgavam jogar. E antes do jogo, encontramos, eu e meu amigo de Curitiba, o Jaiminho. Fomos tomar uma cerveja. Faltavam uns dois dias para a grande final, ninguém precisou fugir da concentração.
E foi quando, finalmente, o tom cor-de-rosa daquela África do Sul que até ali estava achando civilizadíssima, de ótimo asfalto e simpáticas casinhas vitorianas, quase uma Inglaterrinha, desbotou. Eu tinha um carro alugado, eu que dirigia, já estava íntimo das ruas e dos bairros de Jo’burg, peguei o amigo de Curitiba e o Jaiminho e fomos a um bar qualquer, esses que se veem em todas as cidades, cheio de jovens, bonito e bacana, boa cerveja, bons petiscos.

Parei o carro diante do bar, que ficava numa calçada recuada num bairro nobre, eu ao volante, Jaiminho, negro, no banco do carona, o amigo de Curitiba, branco, atrás. Imediatamente saíram do bar alguns caras brancos, bem brancos, bem brancos e bem fortes, gritando impropérios em africâner ou outra língua qualquer. Vieram em nossa direção, e eu não precisava ser nenhum poliglota sensitivo para perceber o que estava acontecendo.
Eu levava um negro no carro, e os brancos bem brancos e bem fortes não permitiriam que entrássemos no mesmo bar que eles. Cercaram o carro e um deles começou a mijar no meu parachoque. Jaiminho olhava para o chão do carro sem medo ou pavor. Provavelmente já tinha passado por aquilo antes. Talvez até no Brasil. Meu amigo curitibano também não demonstrou nenhum nervosismo. Acho melhor a gente ir, ele disse.
Eu fiquei sem saber o que falar. Filhos da puta, disse, liguei o carro e fui embora.
Encontrei Jaiminho alguns dias depois no FNB Stadium, que vem a ser exatamente o Soccer City, é lá que foi erguido o estádio que sexta-feira abre a Copa e no dia 11 de julho fecha os trabalhos boleiros na África do Sul. Entrei no campo, na condição de jornalista. As arquibancadas tinham só torcedores negros. De brancos, no estádio, eu, meu amigo de Curitiba, o trio de arbitragem, o presidente da federação de futebol e os goleiros. Eles não confiam nos goleiros negros, me explicou o amigo curitibano. Acham os brancos melhores. Não sei se o goleiro da seleção sul-africana é branco ou negro, esse que joga sexta-feira. Este blog é “Google free”, lembrem-se. Saberei daqui a três dias.

O rúgbi é o esporte dos brancos aqui, continuou o amigo de Curitiba. Futebol é para os negros. Antes de começarem os jogos, um grupo vocal entrou no campo e com um único microfone as negonas mandaram o hino do país em zulu, uma das coisas mais emocionantes que vi na vida, aquela multidão cantando junto, uma coisa.
Tenho parcas lembrança do jogo, para dizer a verdade. O coral das negonas, um louco que ficava animando a torcida, as traves de madeira com quina, algo meio medieval, o placar suspenso por cabos de aço sobre o círculo central, a tranquilidade e o sossego de tudo aquilo, apesar de estarem jogando ali equipes rivais no meio do Soweto, num estádio onde Mandela discursou logo que saiu da prisão.
Foi meu batismo na África do Sul. Acho que é o suficiente para falar desta Copa, mesmo não estando lá. Já estive, e quando estive não havia Copa. Era um país que saía da senzala e do ódio promovido, bancado, financiado e alimentado pelos branquelas que mijaram no parachoque do meu carro, os filhos da puta. Pior que este que nos chegará pela TV, sem dúvida. Mas de verdade.