Se existe uma profissão cruel com a idade, na era digital, é a publicidade. A inovação tecnológica e as transformações dos hábitos de consumo de mídia são, muitas vezes, implacáveis com alguns profissionais – especialmente aqueles menos afeitos à tecnologia. Quem gosta de falar mal das redes sociais e adquire um ar blasè em relação a novas ferramentas que vão surgindo num ritmo frenético, deve ficar atento: é forte candidato à obsolescência no curtíssimo prazo. Entender as ferramentas não significa, naturalmente, amá-las. Mas não utilizá-las e tentar provar, com discursos conservadores e intelectualóides, que é possível sobreviver sem elas, no ramo da publicidade pode ser um tiro no próprio pé. Não tem jeito. O consumidor jovem – esse com quem as marcas, para garantirem sua sobrevivência, precisam se comunicar – não pára. Está cada dia mais conectado, goste-se ou não. Entender seus hábitos torna-se cada vez mais complexo. Uma reportagem no Advertising Age desta semana conta a história de Dave Shea, um profissional de publicidade de 56 anos, portanto senior, que se pergunta porque tantas empresas o rejeitaram quando esteve desempregado em 2010, com toda a bagagem que possui.
Na matéria, uma profissional de RH da TBWA, Nancee Martin, dá dicas aos profissionais seniors que estão em busca de emprego:
- Abrace seu histórico profissional - se você tem algo no seu currículo de que não se orgulha, muito provavelmente isso será percebido por quem o ler. E por que alguém iria se interessar pelo que você tem a oferecer se nem mesmo você se orgulha da sua história?
- Valorize suas habilidades - Todos temos áreas em que não somos brilhantes. A revolução digital deixou até mesmo jovens em situação complicada. Os clientes esperam que estejamos ligados no que há de novo no negócio, na tecnologia, na cultura de consumo. Matricule-se em cursos e seminários, acelere e mantenha-se ligado.
- Compreenda seu real valor – Talvez você tenha dirigido um departamento inteiro um até mesmo uma área global na empresa em que trabalhou anteriormente. E talvez chegue a fazê-lo novamente. No entanto, esteja aberto a oportunidades que pareçam menores, até para voltar ao jogo e provar que você continua atualizado.
- Expanda sua network - Quanto mais pessoas souberem que você procura uma oportunidade, melhor. Busque ex-chefes, colegas, mas não fique nisso. Busque pessoas que você contratou, treinou. Não acesse apenas quem está acima, mas também abaixo.
- Reconheça os novos tempos - Estamos na era eletrônica. Use a tecnologia a seu favor. Se não tem presença no mundo digital, faça isso rapidamente. Tenha perfis no Facebook, no LinkedIn, no Twitter. Deixe seu currículo acessível online. A tecnologia permite que vc esteja acessível 24h. Comunique-se via e-mail e sempre inclua seu telefone celular nas mensagens.
- Pesquise - Procure saber o máximo possível a respeito da empresa em que gostaria de trabalhar. Saiba quem são os clientes, os players do segmento. Veja onde e em que pode contribuir. Se você passou sua vida criando anúncios para bancos e sabe que uma agência acaba de conquistar a conta de um banco, por que não se candidatar?
Stalimir Vieira, 58 anos, diretor de criação da CMC, agência de Santa Catarina, diz que não vive de diplomas, troféus e glórias passadas – que são muitas, em agências como DPZ, W/Brasil e DDB Argentina – e hoje supervisiona de perto duas dezenas de jovens profissionais. Ele pensa que, nesta idade, continuar trabalhando vinculado a uma equipe só vale a pena se você for percebido como alguém capaz de acrescentar alguma coisa que complemente e potencialize o talento do grupo. Ele confessa que, ao ser incorporado ao projeto CMC, já vivia a “aceitação do caminho convencional da consultoria”.
“É necessário que todos percebam na sua presença um recurso verdadeiramente necessário, senão você cai na velha condição do sujeito dessincronizado do coletivo, uma figura à parte, incorporada à agência por motivos que fogem à compreensão da equipe. Para isso, não basta ter conhecimento, é preciso ter habilidade para lidar com gente bem mais jovem. O pior caminho será sempre o da competição ou o exercício puro e simples do poder, atitudes que eles têm muito claras ser sempre produto da insegurança do mais velho. É preciso ser confiável profissional e pessoalmente.”, diz Stalimir.
Ronaldo Conde, 61 anos, que acaba de retomar sua atividade profissional como diretor Associado da Casa da Criação, decidiu deixar, no ano passado, a sociedade na 11:21, que mantinha com Gustavo Bastos. 
” Fizemos um acordo e vendi minhas ações. Por experiência, por anos de mercado publicitário, sabia que essa importante decisão de vida teria o seu lado bom e o seu lado ruim. O lado bom é que precisava de um tempo para repensar uma porção de coisas, a começar se eu queria continuar um empresário, um executivo ou trabalhar por conta própria mesmo, tocando projetos, sem empregados, sem fim do mês, sem mordomias – home office. O lado ruim é administrar a cabeça, levando em conta que comecei a trabalhar aos 18 anos, ainda no meu primeiro ano de Faculdade de Comunicação, na PUC/RJ. Administrar, também, o desaparecimento de telefonemas, de retornos, de e-mails ou, simplesmente, o não atendimento às minhas chamadas.”, conta Conde.
Conde diz ter aproveitado bem o ócio e vivido situações engraçadas, como casos em que pessoas chegaram a dizer que estava fechada uma relação de trabalho e nunca mais retornaram ou atenderam ligações.
“Na maioria das vezes, encarei esse comportamento com bom humor. Se ter facebook, twitter, linkedIn, entre outros, é ser antenado também, segundo reza a cartilha dos head hunters, pode me colocar nesse escaninho. Se confiar nas minha habilidades e compreender o meu real valor é importante, pode crer, eu tenho esses requisitos e vivo deles, até hoje. Se ter, e expandir network valer, contem comigo. Sou bom nisso. Por fim, esse depoimento pode ser o começo de um livro que pretendo escrever em breve sobre isso tudo: o mercado, as pessoas, o valor, a ética, a amizade, o momentos pelos quais passa um profissional. Onde poderei confessar um problema: gosto sempre de estar cercado de amigos e de profissionais que admiro. Porque eu mesmo não me aguento sozinho. Sou um chato, na solidão.”, conclui.
Outro veterano, Carlos Pedrosa, 73 anos, considerado um dos melhores textos da propaganda carioca, acha que as dicas de Dona Nancee não deixam de ser úteis, de certo modo.
“Acho que o profissional veterano deve tomar cuidado para que a natural vaidade pessoal não o faça entrar em competições inglórias. Ele deve saber mais do que diz que sabe e guardar surpresas para seus futuros companheiros. Principalmente resistir à tentação de procurar usar termos da moda,coisa que o fará ficar parecido com certas senhoras entradas em anos que não abrem mão de usar o fio dental. O bonito depois de muitos anos de carreira é saber mesclar os novos conhecimentos que ele tem obrigação de adquirir com o orgulho das conquistas e do aprendizado do passado, coisa que ninguém lhe tira. Se essa postura vai lhe trazer oportunidades melhores?Acho que sim, mas não posso garantir. De qualquer forma, dormirá e acordará melhor. E se conselho fosse uma coisa boa de se dar, eu diria o seguinte.: nunca fale, nem para o seu melhor amigo, mesmo que seja depois de cinco doses de uisque, as três palavras fatais ‘No meu tempo’…”, aconselha o criativo.