
Ela tornou-se um dos grandes nomes da direção de arte em publicidade nos anos 70, trabalhando em grandes agências, ao lado de grandes nomes como José Zaragoza e Eric Nice. Magy Imoberdorf nasceu em Zurique, e formou-se na École Supérieure des Beaux Arts e Arts Apliquées, de Lausanne. Designer gráfica, trabalhou em agências como J. Walter Thompson, Norton, Alcântara Machado. Foi diretora de criação e presidente da Lage Magy. Como publicitária, criou o célebre slogan “Uma boa ideia” para a caninha 51.
Hoje, é artista plástica quase 100% de seu tempo, por escolha. Exibe na galeria Mônica Filgueiras & Eduardo Machado (SP) a exposição “Layers. Foco fora de foco”. São 25 desenhos que mostra o vai-vem das pessoas, cada vez mais anônimas e cada vez mais “indo e vindo sem saber de onde ou para onde”.
Conversei com ela sobre esse e outros assuntos.
Como você equilibra hoje o seu trabalho artístico e de design/publicidade?
Somente sobrou a artista que tem ainda um cliente de comunicação onde dou consultoria. Como ele é do ramo do meio ambiente, achei coerente. Então sou 90% artista
Qual foi a sua maior influência como diretora de arte – no Brasil e fora?
Willy Fleckhaus, Murilo Felisberto, Bauhaus etc. Bia Feitler etc. E etc.
Você acredita que os grandes diretores de arte brasileiros aprenderam com famosos diretores de arte do século passado que chegaram aqui como Fritz Lessin, Gerhard Wilda, Eric Nice?
Claro mas faltam na lista o Zaragoza, Petit, Helga Miethke. Ah que saudades do Eric Nice, ele era um gentleman, sensível e inteligente.
As mulheres e a propaganda – mudou algo ao longo do tempo, as mulheres conquistaram seu espaço?
Sim um pouco, mas somente estará totalmente resolvido quando ninguém mais fizer esta pergunta.
Você e Helga Miethke foram diretoras de arte na Almap nos anos 70. O que guarda mais daqueles tempos?
Foi divertido, maravilhoso, apaixonante enfim foi ótimo.
O que é/foi melhor: ser diretora de arte, artista ou empresária?
Hoje está sendo ser artista, mas foi muito bom ser diretora de arte e também ser empresária. Gostei de tudo mas hoje quero e estou artista.
Você voltaria para a Europa – para a Suíça?
Já estou metade do ano na Europa mas não na Suiça , em Berlin onde respira-se arte, arte, arte. Estou cada vez mais na Europa, mas ainda tenho amigos aqui.
Qual o melhor cliente que vc já teve – que deu mais estímulo, liberdade criativa etc?
Caninha 51
Fale um pouco mais desse cliente e do trabalho na sua agência, Lage Magy?
A agência tinha uma imagem muito de moda, porque tinha contas como Dupont, Lycra, Hoechst Trevira, Lás Pinguin, Cori etc. A 51 foi importante como cliente porque conseguimos mudar esta imagem excessivamente moda por se tratar de um produto de massa, masculino na maioria e de público classe C, na época. Tivemos com este cliente uma relação de total confiança e para você ter um exemplo: eu apresentava um roteiro de filme (para o Luiz Augusto Müller, um dos donos da empresa) e depois eles viam o filme no ar já pronto. Isto não existiu quase com nenhum cliente e duvido que hoje exista. Com esta confiança na agência, nós tivemos uma responsabilidade imensa e eu cuidava pessoalmente de cada detalhe de toda comunicação deles. A gente até tinha um código de ética para a comunicação, estabelecido entre cliente e agência, que continha coisas como não subestimar nem menosprezar mulheres, não mostrar gente bebendo, não brincar nem mencionar religião, raça etc. Em 14 anos, subimos de 0,5% do mercado para 40% do mercado nacional. A 51 foi o ideal de cliente em todos os sentidos. Lucraram o cliente, a agência e o consumidor.
O que mudou, na sua visão, de mais fundamental na propaganda ao longo dos anos?
A propaganda sucumbiu ao varejo, ficou tudo pague 2 e leve 3, horrível, mentiroso e feio.
Que publicitários brasileiros você admira, e por que?
O Nizan porque ele arrasta um caminhão, o Thomas Lorente porque foi meu melhor aluno, a Helga porque é delicada e agressiva ao mesmo tempo, o Marcello Serpa porque tem dignidade, o Alex por seu humor e saber escolher as pessoas, o Petit e Zaragoza por conseguirem ficar no topo 30 anos, etc. etc. etc.
Fale do seu trabalho artístico no momento: desses desenhos que você expõe. Como amadureceu este trabalho?
Este é um trabalho que fiz inteiramente em Berlin. São vários desenhos sobrepostos em Polyester transparente. Neste novo trabalho, eu discuto o vai e vem das pessoas, cada vez mais anônimas e cada vez mais indo e vindo sem saber de onde ou para aonde. O desfocado criado pelas várias sobreposições de transparências reproduz a falta de foco que acontece na nossa atenção para com o mundo e os outros. Cada um caminhando sozinho, vivendo e se movimentando em meio a uma massa de gente que o torna mais um anônimo no meio de tantos. Está difícil ser reparado no meio de tantos iguais. Roupas parecidas, conversas com alguém outro que não esta presente ou ouvem coisas de maneira particular e privada no meio do publico e coletivo. Vão aonde? Vão fazer o quê? Que pressa é essa? Vão fazer nada em outro lugar.


