Itália: 3 dias no Don Alfonso 1890
Há cerca de dois meses, a cada post do Comidinhas, encontrava um comentário de um rapaz italiano que dizia precisar entrar em contato urgente. Dois ou três desses pedidos depois, finalmente, trocamos alguns emails. A urgência era para convidar para participar de um encontro de blogueiros no Relais & Chateau Don Alfonso 1890, um hotel em Sant´Agata sui Due Golfi, na Península Sorrentina, no Sul da Itália, que tem também um dos melhores restaurantes da Europa.

Vista de Sant´Agata sui Due Golfi. No fundo, o vulcão Vesúvio
O Don Alfonso existe mesmo desde 1890, quando o avô Alfonso Costanzo Iaccarino, retornou à pequenina cidade da costa mediterrânea próxima a Nápoles. Mas o restaurante só foi existir em 1973, quando seu neto, também Alfonso, e a mulher Lívia decidiram levar adiante o negócio da família. Recentemente, o Don Alfonso passou por uma reformulação. E a idéia da família era contar para alguns blogueiros selecionados pelo mundo as suas novidades e trocar informações, percepções etc.

Vista aérea do Relais & Chateau Don Alfonso 1890
Ir até a Europa para um final de semana à beira-mar num dos melhores restaurantes do mundo, claro, pareceu muito tentador. Mas também surreal. Como chegaram até o blog? Quem selecionou? É muita loucura ir ali até a Itália jantar e voltar ao Brasil?
Mas, reunir um blog brasileiro, um americano, um inglês, um alemão, um italiano e um japonês para discutir comida em um dos países que levam mais a sério esse assunto e que também é dos mais conservadores, me pareceu muito moderno e não dava para ficar de fora. E ainda bem que eu topei.
A cozinha hoje do Don Alfonso é comandada por Ernesto Iaccarino, um dos filhos de Lívia e Alfonso. O pai foi cuidar da fazenda da família. A mãe é a relações-públicas e também uma espécie de controle de qualidade dos serviços prestados. E o outro filho, Mario, é o administrador. Essa nova organização foi fundamental para conseguir entregar a nova filosofia da casa: um restaurante de comida tradicional italiana, baseada na qualidade dos produtos da região da Campana, todos orgânicos e, de preferência, produzidos na fazenda da família ou, no máximo, por artesãos locais.

Alfonso e Lívia Iaccarino
Do xampu nos banheiros dos quartos ao azeite extra-virgem, tudo é orgânico. E tudo é pensado para aproveitar ao máximo o que o sol e o calor da região têm a oferecer. “Os tomates ficam no pé até quase caírem, para aproveitar toda a riqueza do sol dessa região, sem nenhuma química”, conta Alfonso Iaccarino.
Pouquíssima coisa é comprada. A fazenda fornece todos os legumes, verduras, ervas, frutas, carne de frango, leite (manteiga e iogurte) e até o azeite. Apenas carnes, trufas, chocolates e queijos são comprados de produtores artesanais.
Na cozinha de Ernesto não entra manteiga, óleo comum ou creme de leite. Só é usado azeite extra-virgem. E, para engrossar caldos e molhos, ele usa, por exemplo, uma gelatina feita com tapioca (tapioca com água a 90°C). Até mesmo o alho, só entra em dente inteiro, para dar sabor ao prato no início do preparo e depois é retirado da panela. “Nós não enganamos ou fingimos usar alguns ingredientes. Seguimos à risca a idéia de uma culinária saudável, mediterrânea, com produtos locais e de qualidade. Às vezes, o mais fácil é o mais complicado. Usamos bons ingredientes e cozinheiros que têm bom coração e paixão. Até nas sobremesas, por exemplo, temos um limite de só 10% de açúcar, para ter cuidado com a saúde”, diz Ernesto.
Em 3 dias, Sigrid Verbert, do Cavoletto di Bruxeles , Keiko Oikawa, do Nordljus , Matt Armendariz, do Matt Bites, Nicole Stich, do Delicious Days, Chika Yoshizaki, do She Who Eats e eu fizemos 3 jantares completos (um deles com 10 pratos), aulas de culinária com o chef Ernesto, pizza com Don Miguel, o melhor pizzaiolo de Nápoles (portanto, o melhor da Itália), visita à fazenda orgânica da família (que fica de frente para a ilha de Capri), visita à fábrica de mussarela de búfala orgânica e falamos muito de comida e de blogs.

Toda a turma de blogueiros com o chef Ernesto Iaccarino ao fundo
Então, vou publicar aqui todo esse material em algumas partes: hoje, o primeiro dia de almoço e jantar; terça-feira pós-feriado, outros dois jantares e café da manhã; as visitas à fazenda e à fábrica de mussarela na quarta-feira; quinta, as aulas e as receitas dos pratos que aprendemos a fazer lá; na sexta, um pdf com todo o material para quem quiser baixar e guardar e um fotoshow com as fotos mais bacanas. Prepare-se para a maratona.
Todas as fotos são da Andrea Maia/Studio Agnus.
Assim que chegamos ao Don Alfonso, fomos recebidos com um “almoço leve”, como chamaram, porque o jantar seria extenso.

Começamos com um amuse bouche: uma fatia de uma fruta parecida com a nectarina, pistaches e uma lasca fina de um cogumelo raro da região, bem parecido com uma trufa negra.

Depois, comemos um dos pratos mais famosos da casa: o rigatone Vesúvio. Esse foi um dos pratos que tivemos aula e vou dar a receita aqui nos próximos dias. A massa rigatone é montada na forma do famoso vulcão da região. É recheada com mussarela de búfala, ervilhas, ovo cozido e coberta com um molho ragu, salsa de manjericão e um creme de mussarela de búfala.

Como sobremesa, baba ao rum, servida com um zabaione perfeito e gelatina de frutas vermelhas no fundo do prato.

Junto com o café, vieram os mini doces tradicionais italianos: cannoli, sfogliatela, bomba de café, gelatina de chocolate amargo, torta de frutas com creme de ricota.
Ainda bem que o almoço foi “leve”, porque menos de cinco horas depois, haveria o jantar completo:

Começou com mini lulas recheadas com provoleta, um queijo provolone mais líquido e suave, feito por uma artesã local, com um sabor bem leve, servida com um creme de pimentões amarelos e umas folhinhas de estragão. Parece não combinar o queijo e a lula. Mas fica perfeito.

Depois, o melhor prato da casa: ovo cozido a 63°C por 1h10, com vagem, espuma de mussarela de búfala e trufas brancas. Ovos e trufas são uma clássica combinação e todo mundo já sabe que poucas coisas podem ser tão boas. Mas com a espuma de mussarela de búfala orgânica então… é de encher os olhos de lágrimas! Nada como a perfeição.

Bolas de ricota de búfala defumada, com raspas de limão siciliano e servida com um consomé de peixe. Leve, fresco, outra incrível combinação de queijo e peixe.

Risoto (feito com arroz carnaroli orgânico), carne de caça (Alfonso passa todos os anos alguns dias na Mongólia caçando) e trufas negras

Cherne cozido no vapor com um molho feito com favas de baunilha, croquete de batatas e gengibre, manjericão e um zabaione feito com colatura de anchovas. A colatura é o líquido salgado que sai de uma pressão de anchovas, água, sal e azeite.

Carne de guiné, recheada com foie gras, servida com cenoura crocante e batata em uma redução de vinho da região

A sobremesa foi um creme de limão siciliano servido dentro da própria casca do limão, com uma fatia fina de limão seco, um gomo de limão empanado (sério, fica incrível) e um massa patachou recheada com creme de limão. Uau!
Aguarde os próximos posts….
Autor: Alessandra Blanco - Categoria(s): Comidinhas na Itália Tags: azeite, comida italiana, don alfonso 1890, Itália, limão siciliano, mussarela de búfala, Nápoles, trufas