Eu e a burrata
Burrata é um tipo de queijo italiano que pode ser considerado um meio termo entre a mussarela de búfala e a manteiga. Aliás, seu nome vem daí: burrata, de burro, manteiga em italiano. É uma bola, parecida com aquelas mussarelas de búfalas de 500 gramas, do tamanho de um punho fechado.

É também feito a partir do leite de búfala. Por fora, tem uma casca de queijo firme, com sabor parecido com o das mussarelas que conhecemos. Quando você parte, o interior é suave, macio, um creme, quase uma manteiga. E com um gosto azedinho, que lembra o iogurte natural.
Sempre soube que era um queijo especial. Na Itália, é vendido envolto em folhas verdes, para demonstrar seu frescor: se as folhas estão verdes é porque o queijo acabou de ser preparado. É extremamente sensível e tem uma durabilidade de dois ou três dias no máximo.
Ouvi falar da burrata por um amigo. Ele havia morado em Roma por seis meses. Eu estava indo para lá de férias e pedi algumas dicas. Ele deu duas: beber quantos cafés curtos eu pudesse agüentar e ir bem cedo à feira do Campo dei Fiori, no centro de Roma, comprar burrata.
“É um queijo difícil de encontrar. Só achei nessa feira e bem cedo. Porque assim que chega, acaba. Os romanos não gostam muito dele porque foi criado em outra região, na Puglia. E eles preferem a mussarela de búfala. Mas você não vai se arrepender”, disse.
E eu fiquei uma semana hospedada em um hotel no próprio Campo dei Fiori. Fui à tal feira todos os dias. E em nenhum sequer consegui comprar a burrata. A resposta era sempre a mesma: “Vieram poucas e acabaram” ou “hoje não veio nada, leve a mussarela”.
Depois disso, fui para a Itália mais duas vezes e, de novo, nada.
Uns três anos depois da primeira tentativa, descobri uma loja em São Paulo, a La Bufalina, que vende queijos feitos a partir do leite de búfala. Todos os queijos vendidos lá são feitos na fazenda dos proprietários em Guaratinguetá e havia no seu cardápio a tal burrata. Fui correndo tentar comprar: “Não estamos fazendo mais, a máquina que fazia burrata quebrou e é italiana, não tem manutenção aqui. Não temos previsão”, disse a funcionária.
Mais uns meses e fui jantar no Terraço Itália. Adivinhe: tinha burrata como entrada no cardápio. Fiquei toda feliz e pedi a minha. Uns minutos depois, veio o próprio chef se desculpar: “Sinto muito, hoje não temos burrata. Compramos de um fornecedor de Minas Gerais e não é toda semana que ele consegue trazer”.
Claro que aí fiquei obcecada com o queijo, pesquisei o tal fornecedor na internet, telefonei para algumas lojas de queijo. Nada.
Já tinha até esquecido o assunto quando fui comer pizza com a família para comemorar o aniversário de um dos primos. Em geral, nessas ocasiões nem olho o cardápio. É o tio que fica encarregado de fazer as contas de quantos estão na mesa, quais são os gostos mais comuns e pedir pizza suficiente para deixar todos felizes.
Mas naquele dia, cheguei mais cedo e comecei a dar uma olhada no cardápio. Entre as entradas: burrata. Fiquei até nervosa, perguntei ao garçom se tinha mesmo. E ele disse “Claro, é um dos nossos segredos, tem gente que vem aqui só por causa disso”.
Veio minha burrata: uma bola de queijo que parecia a mussarela de búfala. Parti ao meio com a faca e o creme de dentro escorregou para todo o prato. Provei pura, depois com pedacinhos crocantes da massa da pizza.
É realmente um queijo especial, porém, difícil, para poucos paladares. É leve, quase azedo, um acompanhamento perfeito para uma focaccia macia e salgada.
Fiquei sabendo então que o Empório Santa Luzia também vendia burrata, mas precisava ligar para encomendar ou deixar uma reservada. Telefonei para perguntar. O responsável da seção de queijo disse que “tinha sim, um queijo tipo burrata, mas feito no Brasil e que podia deixar um reservado para mim”. Prometi chegar lá até oito da noite. Mas saí do escritório quase nove horas.
No dia seguinte, à noite, lá estava eu. Perguntei pela minha burrata. “Foi você que não veio ontem, né? Olha tive que esconder seu queijo, uma senhora até brigou comigo porque o viu e eu não a deixei levar”.
Agradeci, cheguei em casa e fiz o mesmo processo: parti a bola ao meio, deixei o creme escorregar, joguei um fio de azeite por cima e comi com pão integral.
Uma amiga disse que aquele era bom, mas ainda estava bem longe da burrata italiana legítima, que era ainda muito mais fresca e cremosa. Hoje confesso que tenho até medo de provar a tal legítima. Tenho certeza de que será um caso de amor, que vai gerar alguns quilinhos a mais….
Pizzaria Quintal do Bráz: rua Gandavo, 447, Vila Mariana, São Paulo. Tel. 11 5082-3800
Empório Santa Luzia: Alameda Lorena, 1471, Jardins, São Paulo – (mapa) – Tel. (11) 3897-5000

