Nunca tinha ouvido falar dos doces de Pelotas até conhecer o Tulha, um recém-inaugurado “café achado” na rua Pedroso Alvarenga, no Itaim. Sabe aquele tipo de lugar pequenininho e charmoso e que tem um pouquinho de várias coisas deliciosas que você adora, além de ser perfeito para encontro de amigas?
Pois é, o Tulha (que é uma palavra usada em Portugal e que significa cova ou local de pedra onde se coloca e comprime a azeitona) é assim. Tem um ótimo capuccino, pão de queijo, croissants. Serve umas duas ou três opções de almoço e sempre fora do tradicional (já provei um minestrone delicioso e uma terrine de carnes no vinho bem interessante). No final da tarde, dá para tomar dry martini ou cerveja Nortenha (isso, pra mim, já diz muito do local). Tem um bolo húngaro, feito por uma senhorinha da região que dizem que é um escândalo e eu estou louca pra experimentar. E tem os doces de Pelotas!!!
Visitei o Tulha pela primeira vez no dia seguinte à inauguração há cerca de um mês. Elogiei o lugar, e o dono, todo simpático, disse que eu não perdia por esperar os doces de Pelotas, que seriam entregues no dia seguinte pelo fornecedor.
Claro que no dia seguinte eu estava lá. E descobri que doces de Pelotas são olhos de sogra, camafeus, quindim de ovos e de nozes!!!, vários outros doces de nozes divinos e outros de damasco mais ainda. Tipo o paraíso.
Quando viu meus olhos brilharem, a Adília, uma amiga fofa, disse que havia ganhado de sua mãe um livro chamado “Doces de Pelotas”, de 1959. Só a capa já é linda.
No prefácio, Athos Damaceno conta um pouco de como tais doces surgiram e se tornaram tão famosos. A verdade é que o Rio Grande do Sul sempre sofreu, principalmente no final do século 19, de falta de açúcar, o que criou uma verdadeira “tara” local por doces. A técnica de fazer as guloseimas foi aprendida com os portugueses (aliás, nunca havia notado que a maioria dos doces por aqui tem origem portuguesa).
As senhoras pelotenses (d. Arminda, d, Mariquinhas Vizeu, d. Laura Zanotta e tantas outras citadas no livro) começaram com compotas, doces de abóbora e de pêssego cristalizados. Depois, foram se aperfeiçoando e cada vez mais bem-casados, olhos-de-sogra, fios de ovos, toucinhos do céu e muitos outros mais foram sendo provados em Pelotas e “importados” por viajantes por todo o país. Daí a fama.
“Doces de Pelotas” traz quase 500 receitas “especialidades” da região. O livro, infelizmente, não é mais “encontrável” e só a sortuda Adília tem. Entre as 500, aí vai a minha receita favorita (na linguagem do livro):
Bem-Casados
Ingredientes:
200 g de açúcar
6 ovos e mais 3 claras
1 colherinha de fermento Royal
200 g de farinha de trigo
Misture as gemas com o açúcar e bata-as bem; junte as claras batidas em neve e, por último, a farinha peneirada com o fermento. Sobre um tabuleiro untado com manteiga, faça os bem-casados com uma colherinha e leve-os ao forno quente. Una os docinhos de 2 em 2 intercalando-os com ovos moles (receita abaixo), e cubra-os com glacê fino (pirãozinho de açúcar e água quente o quanto baste para dissolver o açúcar).
Ovos Moles
Ingredientes:
12 gemas
3 xícaras de chá de açúcar
1 xícara de chá de água
1 colherinha de manteiga
1 pitadinha de sal
Com o açúcar e a água, prepare uma calda grossa; retire-a do fogo e deixe-a esfriar. Acrescente-lhe, aos poucos, as gemas passadas por uma peneira de arame e leve, então, a mistura ao fogo para ferver, mexendo sempre para que não pegue no fundo da panela. Logo que ferva, retire-a do fogo e junte-lhe a manteiga e o sal.
O Tulha fica na rua Pedroso Alvarenga, 1177.