
Há uns quatro meses, eu estava no final de uma gravidez e tive vontade de uma sopa de brócolis com linguiça portuguesa. Era provavelmente a única semana que fez frio no inverno de São Paulo. Fui até a feira comprar os ingredientes. Na minha barraca de sempre de embutidos, na rua Sabará, em Higienópolis, a dona perguntou se eu queria a linguiça industrializada ou uma artesanal, feita por um senhorzinho português, do mesmo jeito, há mais de 30 anos.
Para que eu me decidisse, ofereceu as duas linguiças para eu cheirar. Não tinha nem comparação. A industrializada tinha cheiro de embutido industrializado, sempre igual. A artesanal era perfumada com especiarias. Levei pra casa e preparei a sopa. Além de perfumada, tinha também mais gordura, no bom sentido, aquele que dá mais sabor. Virei “freguesa” e também me dei conta de que já tinha uma lista de embutidos artesanais que muitas vezes me fizeram cruzar a cidade atrás deles.
A linguiça Blumenau, aquela que se desmancha e vira quase um patê, por exemplo, me faz ir de Higienópolis (centro) até Santo Amaro (zona sul), no empório Blauhaus, que gosto de chamar de a loja dos “gordinhos”. Sim, os donos são bons de garfo e têm sempre ótimas indicações (e também fornecedores secretos de produtos artesanais que fazem valer cruzar a cidade atrás deles). A alheira, compro no Ipiranga. O dono do pequeno açougue costuma avisar minha mãe quando recebe sua remessa de alheiras artesanais, também feitas por um senhorzinho português, e já guarda a minha parte. Gosto de comprar linguiças no Gijo, na Vila Mariana. A casa existe há 63 anos, comandada sempre e somente por seu Luiz Trozzi, o Gijo, que faz mais de 20 tipos de linguiças artesanais, favoritas de chefs como Massimo Ferrari. Gosto ainda de ir ao Empório Sagarana, o bar no Alto da Lapa, atrás da porção de salame artesanal, feito em algum lugar em Jundiaí, segundo a equipe da casa, e perfeito com uma dose de cachaça (a casa tem dezenas delas para escolher).
Além dessa lista de lugares, depois da minha descoberta na feira, comecei a prestar mais atenção nos embutidos artesanais e me dei conta de que, felizmente, eles estão se espalhando pela cidade. Não apenas em lojinhas e empórios escondidos. Mas também pelos restaurantes.
Os chefs cansaram de esperar e resolveram seguir o embalo da “moda dos artesanais” e produzir seus próprios embutidos. Muitos deles seguindo exatamente os mesmos processos que seus parentes fazem na Itália, na Alemanha, nos países árabes há algumas gerações.
“Essa história de pensar o embutido como o salame servido com limão e comido com palitinho só existe no Brasil. Nunca tinha visto isso antes. E o limão é usado para disfarçar o gosto, já que nosso embutido aqui é ruim. Na Itália, embutido é servido com pão sem sal, para realçar o seu sabor”, diz Sauro Scarabotta, chef do restaurante Friccò, que começou recentemente algumas experiências em produzir embutidos, exatamente como é feito por sua família na Itália desde sua tataravó.
No prato de embutidos do Friccò já é possível encontrar guanciale, tipo de bacon feito com as bochechas do porco, mas com sabor muito mais suave e com mais gordura; coppa di testa, uma espécie de salame cozido, feito com carne da cabeça do porco, língua, orelha, cartilagens e ossos; salame, presunto cru, cotechino (linguiça com pele), copa lombo…
No início deste ano, Scarabotta viajou à Itália junto com o chef Marcio Kimura para fazer um estágio em um açougue pequeno artesanal e em uma fábrica de embutidos da região da Úmbria. “Fomos lá aprender sobre umidade, temperatura, fungos, carga bacteriana e começamos a testar como isso funciona e as diferenças aqui no Brasil. Também importamos uma câmara de cura, que deve logo chegar. Queremos ter a qualidade do artesão e o rigor da indústria, fazer um produto top e dentro dos padrões da lei”, conta.
Os resultados também estão sendo introduzidos aos poucos no menu do restaurante. O tradicional carbonara, por exemplo, agora é feito com o guanciale, a bochecha do boi, extremamente saborosa. “É importante que as pessoas deixem de lado o preconceito com a gordura. A gordura pode ser maravilhosa. O guanciale, por exemplo, você coloca na boca e não precisa nem mastigar. É igual a chocolate, derrete e dá uma sensação intensa, mas muito prazerosa.”
Num almoço de sábado, passei lá pelo Friccó e levei pra casa uma amostra de cada embutido do cardápio do dia (eles não vendem para domicílio, mas com uma bebê pequenininha e sem poder sair, tive uma exceção). Dá uma olhada:

Pirei no guanciale, realmente derrete na boca.
É, aliás, muito parecido com o lardo italiano, uma iguaria toscana, servido em fatias bem finas, geralmente condimentadas com temperos, sobre torradas de pão. Até então quase impossível de encontrar aqui no Brasil, o lardo agora faz parte do cardápio de entradas do novo restaurante Attimo. Esse é trazido da Italia, mas o chef Jefferson Rueda também é fã dos embutidos artesanais e faz em sua própria cozinha todas as linguiças servidas no restaurante e o codeguim, feito com o couro do porco. O mesmo acontece com sua mulher, a chef Janaína Rueda, que serve linguiça caseira e codeguim no seu bar, o Dona Onça.
E os exemplos não param por aí. Paola Carosella serve no seu Arturito uma entrada de linguiça Merguez artesanal, apimentada, típica dos países árabes, em uma entrada junto com berinjela assada, pinoli e coalhada.
Andrea Kaufmann também faz no seu restaurante, o AK Vila, pastrame, bacon e presunto artesanais. “O Bacon AK, inclusive, é parte da tostada BLT, com abacate e camarão que fizemos para a São Paulo Restaurant Week. E o presunto royale é servido morno com chucrute e batatas cozidas”, conta.
Diethelm Maidlinger, proprietário do restaurante tradicional alemão Bierquelle, é outro que, por não encontrar por aqui as salsichas que gostava de comer na Europa, começou a fazer na casa diversos tipos diferentes de salsichas artesanais, da viena à currywurst (salsicha de porco cortada e servida com ketchup e curry). A história é, de novo parecida, Maidlinger foi até a Alemanha fazer estágio em um açougue tradicional e depois começou a adaptar as receitas com os ingredientes brasileiros.
Se o mundo da gastronomia cada vez mais se inclina para a produção artesanal e defende o uso do “nose to tail” para justificar o abate de um animal para o consumo de sua carne, ou seja, já que o animal foi sacrificado, pelo menos que haja respeito e não desperdício, ao que tudo indica a moda dos embutidos premium vai ganhar ainda muitos mais adeptos. Mal posso esperar pelos próximos….

Essa é a sopa de brócolis com linguiça portuguesa. É muito fácil de fazer. Primeiro, fervi a linguiça em uma panela com bastante água, para tirar um pouco da gordura. Joguei a água fora e reservei a linguiça. Aí branqueei os brócolis (colocar 2 minutos em água fervente e depois 2 minutos em uma vasilha com gelo). Aí refoguei o brócoli na manteiga com cebola e alho por mais dois minutinhos, acrescentei mais ou menos 1,5 litro de caldo de legumes e uma batata descascada. Deixei cozinhar por uns 15 minutos. Retirei do fogo e bati tudo no liquidificador para formar um caldo.
Voltei o líquido ao fogo em uma panela, acrescentei a linguiça cortada em rodelas, temperei com sal, pimenta e um fio de azeite e servi com um pedaço de broa de milho.
Friccò: Rua Cubatão, 837, Paraíso. Tel.: (011) 5084-0480
Attimo: Rua Diogo Jácome, 341, Vila Nova Conceição. Tel. (011) 5054-9999
Bar da Dona Onça: Avenida Ipiranga, 200, República. Tel. (011) 3257-2016
Arturito: Rua Artur De Azevedo, 542, Pinheiros. Tel. (011) 3063-4951
AK Vila: Rua Fradique Coutinho, 1240, Vila Madalena. Tel. (011) 3231-4496
Empório Sagarana: Rua Marco Aurélio, 883, Lapa. Tel. (011) 3539-6560
Bierquelle: Av. Prof. Papini, 169, Interlagos. Tel. (011) 5666-3416
Gijo: rua Dr. Pinto Ferraz, 16, Vila Mariana. Tel. (011) 5579-2935 / 5904-3694
Blauhaus Empório: Avenida João Carlos da Silva Borges, 889, Santo Amaro. Tel. (011) 5641-3750
Casa de Carnes Itaúna: na rua Costa Aguiar, 1231, Ipiranga.