Jantar no El Bulli dias antes do fim
Há um ano e três meses, eu estava bem de frente ao chef espanhol Ferran Adrià na coletiva de imprensa do Madrid Fusión, um dos principais eventos de gastronomia do mundo, quando ele anunciou que fecharia seu restaurante El Bulli após a temporada de 2011. Em vez de sair correndo para dar a notícia, minha primeira reação foi: “Eu tenho que ir até lá”.
Adrià foi oficialmente eleito ano passado o chef de cozinha da década. Seu restaurante também foi premiado como o melhor do mundo por quatro anos seguidos, no ranking dos 50 melhores organizado pela revista inglesa Restaurant . Mas, mais do que isso, quem acompanha e gosta de ler sobre o assunto sabe que Adrià mudou a história da gastronomia. Ele é o homem que, na beira da praia de Roses, ao norte de Barcelona, na Espanha, começou ainda na década de 90 a usar a tecnologia como sua melhor amiga ao lado do fogão.
Se você nunca ouviu falar no seu nome ou no do seu restaurante, com certeza, deve saber que existe um chef de cozinha espanhol maluco que transforma a textura e a forma dos alimentos. Ele muda líquidos em sólidos, por exemplo, como faz com a caipirinha, com a ajuda do uso do nitrogênio. Você mastiga e ela gruda no céu da boca e na língua. Com o uso do sifão, um instrumento de cozinha usado há anos na confeitaria, ele começou a criar espumas salgadas: de queijo, de ervas, de verduras… E entre suas técnicas mais comentadas está a esferificação: ele mantém uma certa textura dos alimentos por fora, mas por dentro é uma concentração líquida do mesmo produto. Faz isso com a azeitona. A aparência é de uma azeitona normal. Quando você morde, tem uma casquinha por fora. Dentro, é completamente líquida e com sabor de azeitona concentrado…. Enfim.
Eu simplesmente não podia deixar de conhecer o restaurante mais importante da década e a comida do chef que mudou a maneira como se pensa cozinha. Acontece que o Bulli só abre seis meses por ano. A cada dia atende 50 pessoas. Metade das reservas é para espanhóis; a outra metade para o resto do mundo. Metade para quem já esteve por lá e é amigo da casa. A outra metade para os que vão à casa pela primeira vez. Se normalmente a fila de espera por uma mesa era de dois anos, imagine agora: o último ano de funcionamento do principal restaurante da década. “Você não imagina a minha vida. A disputa por uma vaga para jantar começa no dia 1 de janeiro. E à 0h01 minha caixa de emails já está cheia de pedidos, com histórias tristes, engraçadas, românticas, apelos… E eu tenho que selecionar só 50 por dia. A cada pedido que confirmo, digo mil outros nãos”, conta Luis Garcia, responsável pelas reservas da casa.
Há um ano, eu também entrei nessa fila. Mandei email e implorei a cada pessoa que tinha algum contato com o restaurante _ outros jornalistas, antigos funcionários, chefs amigos_ que me ajudasse a conseguir uma vaga. O Bulli fechará suas portas no último dia de julho. Até começo de março, não tinha conseguido nada. Aí na metade do mês, recebo uma ligação da jornalista Roberta Malta: “Ale, você já tem planos para o jantar de 19 de abril? Não? Então, é melhor comprar uma passagem, porque nós conseguimos, temos uma reserva no Bulli às 20h. Já confirmei e disse também que não temos restrições alimentares. Eles nos prometeram um menu longo e especial”.
Longo mesmo: às 2h do dia 20 de abril, saí do Bulli, depois de seis horas na mesa e 48 pratos. O lugar é absolutamente lindo. Para chegar, é preciso pegar uma estradinha cheia de precipícios com o mar da Costa Brava embaixo. O restaurante fica em uma casa branca, simples e rústica, na beira de uma micro praia.

Entrada do El Bulli

Pequenina praia em Roses onde fica o El Bulli
Mas tenho certeza de que, mais do que saber o que era cada prato que provei (o que pode ver na galeria de fotos abaixo, com a descrição completa), você quer saber: é realmente o melhor do mundo (mesmo que nas últimas duas listas dos 50 melhores ele não tenha aparecido nessa posição)? Foi o melhor jantar que já tive?
A resposta é: foi, sem dúvida, o mais surpreendente. Não teve nenhum prato que eu não tenha gostado. Alguns deles, eu realmente amei. A azeitona esferificada é incrível. Quando se rompe na boca e aquele líquido com sabor concentrado e intenso de azeitona escorre pela garganta, você imediatamente sorri. É como um reflexo. Difícil dizer qual foi meu prato favorito. A azeitona foi um deles. O chip de azeite de oliva também. É como uma batata chip. Mas feita de azeite, que vai se derretendo na boca e nos dedos. Aliás, a grande maioria dos pratos no Bulli come-se com as mãos.

Gin Frozen e azeitona esferificada

Chip de azeite de oliva
Tudo é divertidíssimo. Começa com os drinques sólidos. A caipirinha e o mojito vêm embebidos em pedaços de cana de açúcar. Você deve sugar e morder para “tomar seu coquetel”. E tem até mojito em formato de sanduíche. A “bebida” sólida vem no meio de duas esponjas brancas. A piña colada vem em algodão doce. Você vai puxando o algodão com os dedos e colocando na boca, aí sente o sabor da bebida e pequeninos flocos de coco.

Caipirinha e Mojito
Várias coisas me lembraram sabores de infância. O “macaron” de parmesão era igualzinho à maria-mole, só que com gosto de queijo. Teve uma espécie de mandiopan de bacalhau (esse não gostei, achei o sabor muito forte). O “estanque”, que é sempre algo refrescante para limpar o paladar entre o final da refeição e as sobremesas, era um tipo de uma raspadinha de gelo, com sabor de Halls. “É Halls ao vivo”, disse a Roberta Malta.

Estanque
Os “filipinos”, sobremesa feita baseada em um biscoito chamado filipino, que é redondo, com casca de chocolate e recheio de coco/nata, aqui era gelado, como um sorvete, parecido com o Esquibom, só que o melhor Esquibom do mundo, com casquinha de chocolate bem amargo.

Filipinos
Alguns pratos pareceram absolutamente simples, mas com uma técnica perfeita, como “lagostino hervido” e “gamba dos cocciones”. O primeiro um lagostim ligeiramente cozido, quase cru; o segundo dois camarões com tempos de cozimento diferentes.

"Lagostin hervido"
Gostei especialmente do “guisantes 2011”, que eram ervilhas frescas, levemente cozidas, servidas com carne de lebre. Saborosíssimo. Aliás, dos 48 pratos, só cinco eram de carne. Os demais eram vegetais ou frutos do mar e peixe.

Guisantes 2011
Outros favoritos foram o globo de gorgonzola. Ele chega à mesa como um ovo gigante, branco. Você vai rompendo a “casca” com os dedos e colocando na boca. Aí derrete e é gorgonzola. O shabu-shabu de pinoli. É uma massinha recheada de pinoli servida com um caldo. Como no shabu-shabu tradicional, você deve pegar cada massa e “cozinhar” no caldo por 3 segundos no máximo ou ela se rompe de tão delicada. E o “ceviche” de lulo e molusco. Lulo é uma fruta da América Central que tem cara de maracujá e gosto de tomate. Foi servido cortado e recheado também com leche de tigre suave e perfeito.

Globo de gorgonzola

Ceviche de lulo e marisco
O jantar completo saiu por 270 euros sem bebidas. Ferran Adrià, que havia nos recebido na cozinha logo na chegada, veio conversar conosco no final e saber se tinha cumprido nossas expectativas (falamos ao chegar que era a primeira vez e estávamos ansiosas). Dissemos a ele que é óbvio que esperávamos um jantar excepcional, mas não sabíamos que seria tanto. E é verdade. Ele apenas riu.
Na porta da sua cozinha, comandando um time de 50 jovens, que fazem diariamente 3500 preparações, incluindo pequenos pratos, coquetéis etc., Ferran pareceu completamente diferente do homem que eu havia visto por duas vezes no Madrid Fusion. No evento, é agitado, evita jornalistas, faz uma coletiva de imprensa rápida, fala com todo mundo, parece estressado. No seu restaurante, é calmo, tranquilo e parece até mais velho (tem 48 anos). Às vezes observa o salão pela janela da cozinha. Dessa forma, combina mais com o clima de casa rústica na praia do melhor restaurante dos anos 00.

Ferran Adrià na cozinha do bulli
Um dia antes do nosso jantar, foi anunciado o ranking 2011 dos 50 melhores restaurantes do mundo. Desde 2002, é a primeira vez que o Bulli não aparece. Exatamente porque vai fechar suas portas.
Neste ano, assim como no ano passado, o Noma, de Copenhague, é o novo melhor restaurante do mundo. Seu chef René Redzepi passou pelo Bulli. “Todos os dez primeiros da lista têm alguma relação com nossa casa. São chefs que trabalharam aqui, ou são amigos. Isso me deixa muito feliz”, disse Adrià.
Sobre o futuro, o de Adrià e do Bulli é abrir uma fundação para pesquisas gastronômicas. E assim que fechar, em julho, começam as preparações para os novos trabalhos. Adrià diz que irá ao Peru, na feira gastronômica Mistura, e deve ir ao Brasil em novembro ou janeiro. Já o da gastronomia, para ele, está na América Latina. “Fiquei muito feliz que o Alex Atala tenha subido para sétimo na lista dos melhores restaurantes do mundo. E outros latinoamericanos entraram, a Helena Rizzo (Maní), o Gastón Acurio (do Peru). Eu fui o primeiro a dizer que o futuro estava na América Latina. Há uma ebulição de novas ideias lá. A Europa está decadente, careta. A novidade agora não vem daqui”, disse.
Veja abaixo a galeria de fotos com todos os pratos de um dos últimos jantares do El Bulli:
Leia também:
- Almoço no Rafa´s: peixes e frutos do mar fresquíssimos e dicas de como preparar em casa, pelo Rafa, especialista amigo de Adrià
- Jantar no 3 estrelas Michelin Sant Pau, de Carme Ruscalleda
- Os dois novos restaurantes “sensação” de Barcelona são orientais, o Koy Shunka e o Dos Palillos
- De bar em bar em Barcelona: dois lugares para tapas e tragos
- O mercado La Boqueria e seus frutos do mar e embutidos
- Leia também posts de viagens anteriores que fiz para a Espanha: visita ao Mugaritz de Andoni Luis Aduriz, ao restaurante de Juan Mari Arzak e cobertura do Madrid Fusión
Notas relacionadas:
55 comentários | Comentar
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55 Literalmente uma receita para harmonização « Blog do Club 17/06/2011 23:06
[...] do restaurante El Buli. Para quem não conhece o restaurante tem uma matéria muito bacana no IG veja aqui. Voltando para a cerveja… De acordo com o site da Damm, essa Witbier foi elaborada [...]
54 MARIO ANGEL 07/06/2011 23:44
ele sempre sera um genio na gastronomia ,eu sei porque trabalho com gastronomia .
53 MAZOLA 23/05/2011 11:04
Mas que idiotice a imposição DO ou DA tal de MGM . Acredito que a matéria tenha sido postada por Alessandra com o intuito de mostrar algo diferente, de noticiar algo que está acontecendo onde ela está e nós não. A Sra. Nicole simplesmente teceu um comentário,é um direito dela, concordo com ela, mas parece que O ou A MGM ( que nem se identificar tem coragem , não se sabe nem se é homem ou mulher ) se sentiu ofendido(a). Faça seu comentário e deixe os outros. Há poucos dias atrás foi eleito o restaurante Nórdico chamado NOMA, com mesmo estilo, a mesma proposta.De acordo com a Sra. Nicole ela também não aprovaria os pratos mas é a opinião dela.Vamos respeitar inclusive o blog da Alessandra! Muito bom seu comentário Sra. Nicole. E muito boa a matéria também Sra. Alessandra. Parabéns.
52 Algodão-doce para maiores | Bacana Informa 21/05/2011 17:12
[...] que levou o ingrediente, ossos de sardinhas envolvidos em algodão-doce, foi chamada de múmia. Hoje, um dos drinques de boas-vindas do longo menu do El Bulli é a piña colada. Seria normal se ele não viesse em formato de… [...]
51 Algodão-doce para maiores | FodaxNews 20/05/2011 17:43
[...] aterrizam em cardápios de restaurantes bacanas História e receitas de bolinhos de chuva Piña colada de algodão-doce é drinque de boas-vindas na última temporada do El Bulli, na Espanha… bb_keywords = "bulli"; bb_bid = "1613280"; bb_lang = "pt-BR"; bb_name = "custom";bb_limit = [...]
50 Victor Quaranta 20/05/2011 15:08
ah! conheca meu blog http://www.artemixologia.blogspot.com falo um pouquinho de mixologia molecular… tem haver com o Ferran!
49 Victor Quaranta 20/05/2011 15:04
Alessandra,
Parabens pela materia. Com certeza eh uma oportunidade rara! apesar de nao gostar mas respeitar, a gastronomia deve muito a ele!
48 Nicole 30/04/2011 18:27
De forma alguma, ao utilizar a palavra “circo”, eu quis ofender. Pelo contrário, eu gosto de ir ao circo. Então vamos repetir para o(s) distraído(s): UM CIRCO MUITO INTERESSANTE, BACANA, SURPREENDENTE.
Olhei os outros comentarios, e vi que outras pessoas postaram coisas bem grosseiras e negativas a respeito da experiência. Sinceramente, não entendi por que me pegaram para cristo. Afinal, como disse a Léticia Santos acima: “aceitem que as pessoas são diferentes, simples assim.”
Esta é a minha opinião. O mundo é feito de diferentes opiniões. Se você adora este tipo de restaurante, e voltaria mil vezes. Que ótimo! Aproveite. Mas se eu disser que não gosto, que não concordo. E daí?
O jeito que você escreveu faz parecer que quem não gosta exatamente do que você gosta, gosta de comida ruim. Parece que você acha que quem não concorda com você é burro e não entende nada de comida. Sabe o que é isso? PRETENSÃO.
Parafraseando : VAI “SE ACHAR” LÁ NA ESQUINA.
47 Letícia Santos 29/04/2011 12:00
Nossa como tem gente pequena, que não consegue pensar fora da caixa.
Você não gosta de alta gastronomia? De sabores e sensações diferentes com comida? Prefere um arroz com ovo (delicioso)? Ótimo, que bom. Não gaste seu dinheiro e seu tempo com isso Agora não venha dizer a quem aprecia esta arte que isso não é comida boa, ou que é desperdicio de dinheiro e energia.
É como uma pessoa não muito afeita a esportes radicais chegar pra um atleta e dizer que bom mesmo é jogar baralho! Isso sim é diversão…e não esta porcaria que eles fazem.
Aceitem que as pessoas são diferentes. Simples assim. Não precisa todo mundo se divertir e apreciar as mesmas coisas. Deixem de intolerância com os gostos alheios.
Eu adoro comida simples um arroz com feijão, ovo e salada é ótimo. Mas também me encanto com a possibilidade de sentir novas texturas, novos gostos, novas sensações.
Parem de achar que o certo, o bom, o legal é SÓ o seu modo de viver.
46 Nicole 28/04/2011 14:20
Este tipo de comida pode agradar algumas pessoas, mas acho pura pretensão chamar de melhor restaurante do mundo. Talvez seja o melhor nesse estilo. Para mim não passa de um circo. Um circo muito interessante, bacana, surpreendente. Mas um Circo, que eu poderia ir uma vez para conhecer, rir e me divertir. Mas que certamente eu não voltaria. Ainda mais se estivesse com fome. Restaurante bom e comida boa, para mim ,é outra coisa.
RGM 29/04/2011 19:30
então vai comer pf na esquina…
Obviamente a premiação segue diversos quesitos, como inovação e técnica até o próprio cardápio (não percebeste que foram 48 pratos escolhidos pelo chef?) e local. Questionar sobre a quantidade de comida e sobre a apresentação “circense” é algo que poderias te abster de escrever após uma leitura tão deliciosa e cheia de sabores que muitas vezes sequer podemos imaginar.