Estrelas Michelin na Bela Vista
“Tenho um pequeno restaurante desses sem placa, sem gastronomia molecular, sem espumas, mas com uma comidinha bem gostosa e adoraria que você conhecesse.” Foi assim que a Lucia Sequerra se apresentou no primeiro email que me enviou.
Simpatizei logo de cara e fiquei perguntando mais sobre o lugar. Ela contou que era daqueles restaurantes sem placa na porta, conhecido mais por amigos. Me deu o endereço, na Bela Vista, na região central de São Paulo. E contou que fica lá durante o dia e às quintas à noite. Prometi ir uma quinta dessas. Uns 20 dias depois, ela enviou outro email, disse que estaria no restaurante naquela noite.
Convidei dois amigos, anotei o endereço e fui, sem nem pesquisar muito sobre a Lucia ou o seu pequenino restaurante. Não sei por que, mas assumi que encontraria por lá uma comida caseira, bem simples e gostosa. Talvez pelo jeito maternal que a Lucia fala da sua cozinha.
Era uma noite de quinta-feira gelada. Entramos no Santa Madalena, o restaurante, e pedimos uma garrafa de vinho enquanto nos divertíamos com a sua decoração totalmente feita por garimpos de feirinhas de antiguidade.
Comentávamos como coisas com padronagens, estampas e formatos tão diferentes pareciam se harmonizar tanto naquela sala, quando a Lúcia veio se apresentar. Uma mulher baixinha, de cabelos negros, sempre sorrindo. Nos vendo de cardápio nas mãos, fez cara de desapontamento e perguntou: “Mas vocês vão querer pedir algo do cardápio? Hoje tem um menu degustação. Não querem experimentar?” Nem perguntamos quais seriam os pratos, nem quanto custaria. Confiamos completamente.
Lucia ainda explicou que absolutamente tudo o que seria servido foi feito no restaurante, desde o pão até o chocolate acompanharia o café. E logo em seguida começaram a chegar à mesa, em pratos de porcelana antigos, um diferente do outro, o que eu só consigo classificar como um banquete, à altura dos restaurantes estrelados da França, feito em uma casinha no Bixiga. Com vieiras, trufas, lagosta, paté de foie gras… Impossível não comparar com a Festa de Babete.
A primeira coisa que provamos foi um pão caseiro, quentinho,com erva-doce, acompanhado de caviar de berinjela, mini fundos de alcachofra e os patés de foie.
Depois, um carpaccio de peixe branco, com bastante azeite e flor de sal, como é servido na Itália e na textura perfeita.
E ovos de codorna poché, sobre torradas, com pedacinho de trufa
Veio então um tomate, sem peles, levemente assado, recheado com bacalhau.
E, junto com ele, servido em uma xícara de café, um creme de cebola trufado, que foi uma das coisas mais sensacionais que já provei na vida. Espesso, com leve sabor de cebola e mais leve ainda de trufa. Perdi a respiração. E desconfio que foi servido em uma porção tão mini porque, se fosse maior, ficaríamos só com o creme de cebola o jantar todo. E ainda tinha muita degustação pela frente.
Próximo prato: vieiras, frescas e translúcidas, com azeite e limão.
Em seguida, raviólis de vôngoles, com uma massa transparente de tão leve e fina, servido com um caldo sensacional, que imagino ser onde o vôngole foi cozido, provavelmente com vinho branco, talvez um mínino de creme de leite. O resultado foi um líquido brilhante, leve, saborosíssimo, arrebatador.
Mas não acabou. O prato seguinte foi um paglia e fieno com molho de tomates frescos, camarões e uma grande lagosta cozida por cima.
E ainda teve uma carne, um filé de vitela, servido com aligot (uma espécie de purê de batatas com queijos) com minúsculos pedaços de trufas. Foi de emocionar.
Comendo a sobremesa, uma saladinha de frutas com pistache torrado e creme de amêndoa, descobri que Lucia é uma super chef de cozinha. Dá aulas em universidades no Brasil, já forneceu comida para restaurantes e empórios em São Paulo e será a coordenadora da unidade de gastronomia da universidade carioca Estácio de Sá em São Paulo, em parceria com a Alain Ducasse Formation. Sem dúvida, uma chef digna de estrelas Michelin, servindo uma comida de altíssima gastronomia (e também dos deuses), em uma pequenina porta de uma rua sem movimento no centro de São Paulo.
Junto com o café, vieram também pedacinhos de bolo de banana, biscoitos recheados com tâmaras e figo seco, mini trufas de chocolate Aalst recheadas com ganache de chocolate branco.
O menu degustação não está no cardápio e só é servido sob encomenda, para grupos de pessoas. Tivemos a sorte de ter uma família comemorando aniversário ali naquela noite e que, muito esperta, encomendou o menu havia meses. E eu agora tenho que agradecê-los para sempre. Fomos embora do restaurante completamente extasiados. Cheguei em casa por volta de 1h30 e não conseguia dormir, porque não queria perder mais aquele gosto que estava na boca…
Santa Madalena: rua Santa Madalena, 27, Bela Vista, São Paulo. Tel. 11 3287-6999. O preço do menu degustação varia de acordo com os pratos servidos. É preciso telefonar e se informar.
40 comentários | Comentar
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40 Ana Paula Mattos 03/05/2009 22:22
Alessandra se eu tivesse pedido o menu degustação o jantar sairia por R$ 150,00 e da forma como eu fiz paguei R$ 125,00, me senti lesada!!!!
39 Ana Paula Mattos 03/05/2009 22:12
Alessandra estive lá por causa do seu artigo e fiquei decepcionada.Pedimos um carpaccio de peixe que veio num pires, um ravioli (veio 4 ravioles) e uma sobremesa e só por isso pagamos mais de R$ 120,00!!!! A comida era bem feita porém numa quantidade ridícula para um restaurante que não é sofisticado ou pelo menos se apresenta como simples e não tem espumas!!!!!Ademais não é no Jardins, não entendi a proposta de comida boa, em porções pequeninas, local simples e autêntico mas o preço sofisticado.Me senti enganada por aquele artigo e aquelas fotos, nas fotos as quantidades são maiores das que foram servidas para uma cliente que não é amiga da proprietária ou colunista gastronômica.Ah, não bebi nenhum dos vinhos, foi uma simples cerveja mesmo.Na mesma semana estive no Restaurante indiano Govinda e gastei muitos menos, por muito mais comida e local que exigiu maior investimento.
38 NÃO SOMOS APENAS ROSTINHOS BONITOS 20/01/2009 14:19
Amamos a dica e o restaurante, que é divino!
Beijocas,
37 Mônica 17/12/2008 11:43
Lúcia,
Você merece! Adoro e recomendo sempre seu restaurantwe; sinto falta dos almoços aos sábados.
Sua participação junto com o Gil em meu programa na tvorkut, foi um sucesso! http://www.youtube.com/programamonicaserta
PARABÉNS!
Abraços,
36 Daniela 14/12/2008 20:02
Oi Alessandra!
Temos uma confraria de amigos que apreciam vinhos e harmonização. Depois de ler este artigo, entramos em contato com a Lucia e fizemos o último encontro do ano lá, ontem.
Muita simpatia, atendimento personalizado e, principalmente, uma comida simplesmente maravilhosa!!! Excelente dica… Voltaremos lá várias vezes, com certeza.
Seguem as fotos: http://picasaweb.google.com.br/dasilvestre/20081213ConfrariaStaMadalena#
Abraço!
35 Carol 28/10/2008 12:04
Lucia,
Adorei a materia! So estou triste por nao ter provado de seus talentos culinarios enquanto vc estava em Paris! Falar nisso quando e que vc vem de novo? Estou curiosa e com saudades!
Beiinhos da Carol (amiga da Celia)
34 paulo trevisan 20/10/2008 23:03
O Santa Madalena é realmente incrível: cerveja gelada, carta de cachaças, chopp artesanal e exclusivo, feito numa cervejaria na Vila Madalena direto para a Santa Madalena, aconchegante, afável… conheço bastante esse lugar porque sempre estou por lá, inclusive, aquele cara de costas na primeira foto sou eu já no final da noite impregnando no balcão do bar. Longa vida ao Santa!
33 mari 20/10/2008 14:50
Ale, se não fosse assim…nem saberiam que alí se come tão bem.É o mal de hoje, o que vale é o que aparece, o que é badalado, esses nem precisam mesmo saber desse cantinho tão especial…valeu a dica, iremos com certeza.
32 Edu Passarelli 20/10/2008 7:55
Ops, Ale, e não Cris!!!!
Mas mesmo assim, ainda vale o escrito!
Um abraço
31 Edu Passarelli 19/10/2008 20:33
Cris,
Você provou a cerveja deles? se não, vale provar!
Adoro o seu blog!
um abraço,
Edu Passarelli