O direito de não ser importunado
P.S. tardio. A respeito do “gancho” desta nota, Mauricio Stycer publicou recentemente duas notas em seu blog a respeito da reza dos jogadores brasileiros após a vitória na Copa das Confederações e da reação da Fifa: aqui e aqui.
Na semana passada, o jornalista Juca Kfouri escreveu em sua coluna na Folha de S. Paulo um artigo sobre manifestações religiosas em partidas de futebol. Estimulado por reações raivosas de alguns, voltou ao assunto em sua coluna de ontem.
Juca mencionou esse negócio de “atletas de Cristo”, de rezas públicas antes e depois do jogo e assemelhados e argumentou que manifestações religiosas devem ser reservadas a ambientes religiosos, como igrejas, sinagogas, mesquitas etc.
Ao que poderia aduzir barraquinhas dedicadas ao Santo Daime, quiosques de numerologia, terreiros de Umbanda e assim por diante.
Da mesma forma que Juca, este que escreve é filosoficamente agnóstico e pragmaticamente ateu. Um ateu que viva num ambiente repleto de evocações a seres incorpóreos, influências etéreas e exortações à “espiritualidade” não pode deixar de indignar-se com a coisa toda.
A mão livre que se dá ao proselitismo religioso desbragado se baseia num raciocínio tradicional.
O raciocínio é o seguinte: como existem
• A liberdade de expressão;
• A liberdade de associação (que inclui a liberdade de culto religioso; daquele jeito sempre prolixo do brasileiro, nossa Constituição inutilmente especifica ambas),
segue-se que aos cultores de religiões seria assegurada liberdade de proselitismo, ou seja, de tentar amealhar seguidores por meio de propaganda, a saber, comunicação por meio de veículos dirigidos a coletivos (de folhetos distribuídos de porta em porta a programas de televisão).
Ora, sob o ponto de vista estritamente lógico, liberdade de expressão e liberdade de associação não implicam a liberdade de propagandear alguma coisa.
Apesar de não ser assegurada por consequência lógica, a liberdade irrestrita de propaganda existe por uma combinação de dois motivos: o primeiro é o lobby das religiões; o segundo, porque condicionar a liberdade de proselitismo traz riscos à liberdade de expressão política. De modo a não estimular a repressão a esta última, deixa-se rolar.
Em casos extremos, o Estado intervém.
Assim, por exemplo, se um grupo qualquer decidir lá por eles fazer propaganda contrária à vacinação coletiva contra doenças, o Estado processará os responsáveis. O Ministério Público fará isso para proteger o interesse coletivo, de que tem a tutela.
O que está em jogo no caso da propaganda religiosa é o interesse coletivo. Interessa ao coletivo a disseminação de crenças em seres incorpóreos, influências etéreas e assim por diante?
Me parece que, claramente, não interessa. Na medida em que crenças religiosas dizem respeito ao inatingível e na medida em que estipulam a predominância de mundos imaginários sobre o mundo real, têm influência deletéria sobre este último, pois a possibilidade de intervenção sobre o mundo real é desviada para a obediência a superstições.
O impacto que isso tem sobre o mundo real é imenso. Para mencionar apenas as três principais religiões monoteístas, temos:
O islamismo radical, que submete as populações dos países em que predomina a códigos e costumes discriminatórios e sanguinários;
O judaísmo radical, com enorme influência sobre a política israelense, tanto interna quanto externa, para desgraça dos palestinos;
O cristianismo em suas diversas manifestações, que dos Estados Unidos à América Central e a diversos países africanos, passando pela Polônia e outros, orienta a vida da comunidade na direção da manutenção do status quo.
Inteiras bibliotecas foram escritas para demonstrar que religião não é uma boa coisa, não apenas pelos motivos acima, mas por diversos outros — em particular a ofensa que religiões representam à racionalidade, portanto à compreensão do mundo, portanto à capacidade de alterar o mundo.
P.S.: Juca Kfouri é fundador da Transparência Brasil, membro de seu Conselho Deliberativo, presidente da Comissão de Ética da organização e meu amigo. Informo que esta nota teria sido escrita mesmo se o autor da reclamação pública sobre manifestações religiosas não tivesse sido ele mas Joaquim ou Eugênio . Como o eventual visitante poderá verificar por si mesmo, o assunto foi tratado algumas vezes na primeira encarnação deste blog. Ver o histórico.

Cláudio, obrigado pela resposta. Vou refletir sobre o que escreveu.
AO BRUNO: Da mesma forma que você diz que seguir a bíblia e achar que ela é um manual da moral humana é insensato, pegar um monte de frases feitas e achar que nelas está contida toda a verdade sobre Deus e a humanidade é RICÍCULO. Já pensou a respeito disso?
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NÂO,pois são apenas exemplos de frases ditas,por pessoas
que de uma forma ou de outra,nos ajudaram a sermos um pouco menos ignorantes,e aquilo que aprendo gosto de repassa-los
a pessoas, somente para terem uma opinião melhor formada,do mundo que nós vivemos,isto é um pouco de cultura não faz mal a ninguém,com toda a sua fé,tenho certeza que neste momento vc gostaria de me esganar,para mim isto nada signfica pois sei,a origem da humanidade,cientificamente exclarecida.
Claudio Weber
O comentário é sobre a segunda parte de seu texto. Entendo que a liberdade de expressão/associação não implica necessariamente a propaganda, porém esta pressupõe aquela. E me parece ponto pacífico ser questão espinhosa a definição de limites à propagação de ideias e pensamentos. A liberdade de propagar conteúdos filosóficos é a mesma relativa aos religiosos (evito propositadamente o termo teológico, procurando me ater à terminologia de seu texto), até porque estes podem estar vertidos naqueles. Os exemplos históricos, no pensamento ocidental, são tantos e tão conhecidos, que julgo desnecessário sua menção.
Nesse sentido, algumas observações sobre seu texto:
1) O conceito de religião trabalhado em seu texto me parece inadequado. A conceituação de transcendência e/ou divindade não está limitada ao pensamento do “incorpóreo” ou “influências etéreas”. Religiosidade não se limita à invocação de realidades intangíveis do ponto de vista material. Novamente, há inúmeros exemplos de religiosidade ativa ou atuante. Observo que sua caracterização da religião implica em alienação social, o que me parece não ocorrer em inúmeras expressões de todas as religiões citadas em seu texto.
2) A partir de tal conceito, seu texto infere, a meu ver impropriamente, uma questão moral: o interesse coletivo. Parece-me haver contradição na própria formulação, posto que é tomada uma definição de religiosidade que não é a da coletividade, para se perguntar pelo que interessa à coletividade.
3) Mais preocupante: na forma como está escrito, e pela terminologia utilizada, o último parágrafo de seu texto representa ofensa, preconceito e discriminação às pessoas que professam religiosidade, seja qual e em que nível for. Qualificar como ofensa à racionalidade – que, em seu texto, condiciona o espaço e vivência públicos – a atitude religiosa, significa aviltar a própria liberdade de expressão da religiosidade. O exemplo historicamente reverso salta à mente: a qualificação de comunistas e marxistas como perniciosos à sociedade, largamente utilizada pelos autoritarismos e ditaduras de toda ordem, igualmente era baseada na “racionalidade”.
4) Por fim, permito-me alusão a exemplo histórico de reconhecimento, por parte de – para usar sua própria auto-definição, que acredito coubesse perfeitamente ao exemplo que cito – um agnóstico filosófico e ateu pragmático, de que religiosos não são necessariamente alienados, ao contrário. Cláudio Abramo, seu pai, de postura trotskista, teve sua primeira entrevista como jornalista com Sobral Pinto, cristão católico professo e reconhecidamente tradicionalista. Sua firmeza e intransigência ética foram ressaltadas por Cláudio Abramo. Igualmente, Abramo soube reconhecer o papel fundamental de Dom Paulo Evaristo Arns na luta contra a ditadura, anos 70.
Roberto Pignatari
Caro Roberto: Acredito que a divergência fundamental esteja realmente no que se entende por religiosidade. Caso por “religiosidade” se entenda a adesão a alguma determinada família de valores e a uma militância social de acordo com esses valores (que é o que me parece que você faz), então qualquer pessoa que se paute por valores etc. e milite socialmente etc. terá de ser considerado pelo menos proto-religioso. Para ser completamente religioso, por assim dizer, faltaria apenas um conjunto de crenças em divindades. Para ser religioso é necessário crer em seres intangíveis (e é também suficiente, pois o pensamento religioso não é incompatível com qualquer espécie de doutrina social, por mais descabida que seja). O meu ponto não são doutrinas sociais. É evidente que ser religioso não é incompatível com alimentar doutrinas sociais que possam ser simpáticas a mim. O meu ponto é a crença injustificada em qualquer coisa, o que inclui como caso particular as divindades, as almas etc. Quem acredita em seres extra-sensíveis está preparado para acreditar em qualquer coisa. Não me importa que a pergunta ofenda a alguém, mas: qual é realmente a diferença entre crer numa divindade monoteísta do tipo cristão, muçulmano ou como se queira, e crer em espíritos da floresta, ou na “energia emocional dos cristais”, ou nas mensagens do tarô ou em qualquer outra fantasia arbitrária?
Cláudio
Sim, concordo que a divergência fundamental seja acerca do conceito de religiosidade. Mas noto que o propósito de seu texto, ou ao menos seu mote (que me parece estar explicitado no título), foi, salvo engano de minha parte, a preservação do direito de não ser vítima de proselitismo de qualquer espécie. Acredito que estejamos em acordo quanto a este direito.
Você afirma que seu ponto é a crença injustificada em toda sorte de entidades ou qualquer elemento fantasioso. Nesse sentido, duas colocações:
1) Creio haver suficiente diferenciação entre uma realidade – ou divindade – vivenciada, definida e conceituada como absoluta e sagrada, e os exemplos que citou. O lastro histórico no pensamento ocidental a esse respeito é, sabidamente, amplo e milenar. Mas não gostaria de, na troca de ideias que aqui efetuamos, entrar em tal discussão, porque não me parece ser o foco de seu texto, embora tenha ele caminhado para tal questão.
2) Parece-me que o ponto central continua sendo, à luz do seu texto e, agora, incorporando sua resposta à discussão, a relação entre crença, liberdade de expressão e propagação de ideias. Me parece que, do ponto de vista da vivência social e moral, não há diferença, no tocante à liberdade de expressar crenças, ideias, conceitos e visões-de-mundo, entre as pessoas que esposam as crenças que citou, e um religioso monoteísta, ou ainda um filósofo, teísta ou não. O proselitismo pode advir de qualquer um destes exemplos. A propagação de pensamentos me parece garantida – ao menos em tese e na letra da lei – pela liberdade de expressão, mas o proselitismo me parece o seu reverso em negativo, ou seja, funciona como atentatório à liberdade que nos é garantida constitucionalmente.
3) Por último, mesmo sabendo, como disse acima, que me parece não ser o foco de seu texto a conceituação de religião e vivência religiosa (embora tenha nela incursionado, como também – e mais explicitamente até – sua resposta), discordo quando você diferencia proto-religioso e religioso “total”. Penso que a pre-ocupação última pelo sentido da vida (questão genuina e milenarmente filosófica, mesmo trivializada ao longo da história), por exemplo, nutre de per si sentimento religioso e empenho vital. Mas essa é uma discussão paralela a nosso foco.
De qualquer forma, registro gratidão por sua resposta.
Roberto
Prezado Roberto: Se a impressão que transmiti foi a de que objetaria quanto a proselitismos de qualquer espécie, apresso-me a dissipá-la. Sou contra proselitismo do inefável. Seja como for, é evidente que a operacionalização dessa atitude seria impossível, pelas implicações políticas que traria, como a repressão a perspectivas políticas contrárias ao pensamento dominante.
Agradeço ao autor do blog por ter lido e respondido meu comentário.
Sim, claro, passarei mais vezes!!
Boa sorte e sucesso para você!!
“NÂO,pois são apenas exemplos de frases ditas,por pessoas
que de uma forma ou de outra,nos ajudaram a sermos um pouco menos ignorantes,e aquilo que aprendo gosto de repassa-los
a pessoas, somente para terem uma opinião melhor formada,do mundo que nós vivemos,isto é um pouco de cultura não faz mal a ninguém,com toda a sua fé,tenho certeza que neste momento vc gostaria de me esganar,para mim isto nada signfica pois sei,a origem da humanidade,cientificamente exclarecida”
Bruno, tá vendo como as pessoas podem interpretar mal uma simples pergunta. Se eu quisesse esganar toda pessoa que não concorda comigo acho que eu já estaria louco, até porque (não sei se você já notou) NINGUÉM pensa da mesma forma que a gente. Somos todos diferentes. O que eu te perguntei é: alguma vez você já pensou que pode estar errado em suas convicções? Somente cultura é suficiente para suprir toda inteligencia que você pode ter? – Eu posso estar errado ao acreditar que Deus existe e por isso respeito a sua opinião. Se eu estiver errado, ótimo, levei uma vida tranquila e ajudei bastante gente, fiz a minha parte e não me sentirei um otário por ter acreditado em uma força maior do que eu. Mas se eu estiver certo e Deus realmente existir, melhor ainda. Ah, e “exclarecida” é com S.
Que ‘FÉ’…
Não?
Haja individualismo.
Acho que a coisa mais chata do mundo aquele barulho desgraçado dos sinos das igrejas. Sem falar nos alto-falantes das igrejas evangélicas (principalmente as pentecostais) a nos ferir os ouvidos com seu barulho.
Ah, aquele foi o primeiro e este o último comentário postado aqui. Detesto qualquer blog com moderação prévia.
Por que voce não segue o exemplo do José Paulo Kupfer?
http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer/2009/08/06/em-defesa-do-ipea-inclusive-do-atual/
Um jornalista a censurar qualquer coisa é um verdadeiro absurdo, é um atentado contra a Lei de Imprensa.
Prezado: 1) Não sou jornalista. 2) Mesmo se fosse, não alteraria a resposta, que é 3) Moderar comentários não é censura. Você tem total liberadde de montar seu próprio blog, onde poderá escrever o que quiser. Este espaço é de minha responsabilidade e aqui se publica o que eu quiser. Passar bem.
Meu caro, você conseguiu colocar bem seu ponto de vista, no que lhe dou os parabéns, a despeito dos exageros, visto que há religiões e religiões.
evidente que as que lucram com a ignorância e a cegueira irão incitar seus acólitos para protestarem contra seu ateísmo, tanto que sua coluna mereceu citação no blog Deus lo Vult do papa-hóstia Jorge Ferraz [acena]. eu pessoalmente adoraria ver uma manifestação religiosa de um atleta pagão, mas não a de um muçulmano fundamentalista. aliás, pendando nisso, bem que se poderia permitir aos atletas dedicarem suas vitórias aos seus credos [ou mesmo na falta de um], eu aposto uma torta de maçã que os mesmos cristãos que hoje reclamam da proibição irão reclamar da permissão…
Como assim?? o.O
Meu caro, você não sabe que seu direito termina quando o do outro começa?
Cadê toda aquela história de “liberdade”? Agora ela não esxiste mais, né?
Bom… acredito que o problema esteja no fato de os gays, ateus, antcristos et cétera poderem fazer anifestações públicas, mas quando se trata de religiosos, INCOMODA!
Sou católica e me incomodo quando algum protestante nas ruas tenttam me dar aqueles papeizinhos c/ mensagens de autio-ajuda, porém, não posso impedi-los de fazer isso!
ME incomodo quando vejo anticristos rasgando bíblias e fazendo outras idiotices achando que vai mudar alguma coisa na humanidade…
Mas a grande difrença é que quando me incomodo, é por ter um senso religioso e saber que todos esses precisam entrar em comunhão com a verdade. Já no caso do autor deste post, NÃO CONSIGO ENTENDER!! Por que se incomodar c/ algo que você não acredita?? Se você não tem nenhum senso religioso de querer que as pessoas achem a verdade, pq se incomodar c/ uma manifestação religiosa?
Há tantas outras coisas para nos preocuparmos… olha a REDE GLOBO aí… mostrando novelas desde às 15h até às 9 da noite! Novelas que só ensinam a desinstruturar famílias. ISSO É PREOCUPANTE!
Vamos ter mais bom senso!
Um bom dia!
Prezada Lívia: O ponto é que o pensamento religioso admite qualquer espécie de crença. Como se acredita em seres sobre os quais não há sequer possibilidade de detecção, fica aberto o terreno para se acreditar em qualquer outra coisa sem indícios. Trata-se de um vício de pensamento que prejudica — irremediavelmente, no meu entender — a compreensão do mundo, da vida material, ou seja, do que de fato interessa. Por outro lado, cada um que acredite no que quiser. Mas não apregoe isso. Não faça propaganda, porque é propaganda enganosa.
Aconetece que é propaganda enganosa para voc~e que não acredita.
Quem acredita, segue e quer mostrar, pregar. É o que se pede a quem acredita:
“Pregai o evangelho”
Prezada: O ponto da pregação é exatamente esse: a existência de uma diretriz interna de uma seita qualquer afirmando “Pregai isto ou aquulo” não dá o direito de pregar quando essa pregação diz respeito ao nada.
Pregar ateísmo e marxismo pode? Aí não é propaganda enganosa não, né?
Não, não é. Marxismo diz respeito ao ordenamento sócio-econômico. Trata-se do mundo real, diferentemente de religiões, que tratam de fantasia.
Prezado Cláudio,
as religiões positivas de raiz semítica – judaísmo, cristianismo e islamismo – caracterizam-se, via de regra, sabemos, pelo caráter teísta, faceta que abrange quase todas as formas de manifestação religiosa de nosso conhecimento diário.
Tributa-se ao apóstolo Paulo, no caso do cristianismo, sua difusão para além das fronteiras judaicas. E esse apóstolo recebeu de Nietzsche acerbas críticas n’O Anticristo, obra que aponta admiravelmente a hipocrisia do teísmo cristão.
Embora esteja eu ainda nos primórdios do entendimento dos escritos semíticos – Bíblia e Alcorão, e de consciência ainda tímida para o padrão requerido, posso asseverar que Nietzsche erra em relação ao apóstolo e na leitura dos evangelhos, erro bem compreensível, pois os termos do apóstolo não podem ser tomados em sentido ordinário da palavra, bem como em muitas outras passagens da Bíblia. Entendo que as religiões teístas acima citadas sequer correspondem à espiritualidade propugnada em sentido exato pela Bíblia e Alcorão. São na verdade abominadas.
Termos como “homem” e “mulher” nesses compêndios não se referem a membros do “Homo sapiens”, mas a aspectos psíquicos do ser humano, assumindo funções como “entendimento” e “vontade” em determinadas passagens, além de outras significações.
O apóstolo Paulo cunhou a expressão “obras da lei”, moralmente negativo, em contraposição a “fé”. O que hodiernamente se entende por fé, atributo dos teístas, corresponde às “obras da lei” de Paulo, sem aperfeiçoamento interior algum, antes, contrariamente.
Frequentar igreja, entoar hinos, recitar tantos “pais nossos”, obedecer a isso e a aquilo de regras, de cumprimento exterior, tomados como atributos da fé, são na verdade obras da lei. Mesmo obras assistencialistas, fundadas na caracterização de virtude da agremiação religiosa professada são obras da lei. São de fácil cumprimento, e está à altura daqueles que gozam de menor autonomia crítica. Não exigem o sacrifício do ego, antes servem para exacerbá-lo. Paulo abomina esse comportamento, como em Gálatas, 3:10 “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição.”
A “fé” do apóstolo é obra voltada para a interioridade, implica o aperfeiçoamento do caráter, é contrapor-se ao seu próprio ego. Não se trata de crença. Em sua carta aos Coríntios, o apóstolo já indicara o caráter restrito da Bíblia, afirmando que se destinava àqueles que foram atingidos pelo “fim dos tempos”, ou “fim do mundo”, expressão que marca uma transformação de consciência do ser humano, a transcendência do ego. “Fim do mundo” não é acidente geológico, nem exterior ao ser humano.
Historicamente, a Bíblia e o Alcorão foram e são um desastre, infelizmente, porque não cumprem a função pela qual foram elaborados. Quase sempre, quando não sempre, são ferramentas de implementação e justificação daquilo que abominam, e obscenidade para a consciência moderna.
Vale ressaltar que, salvo exceção – acredito que não haja, não há uma bíblia traduzida do original hebraico que possa lhe ser fiel. No original hebraico, termos de raízes diferentes que ocupam hierarquias diferentes de leitura são transcritos por uma mesma raiz na versão traduzida, o que gera leitura como a proibição de “homem dormir com outro homem”, termos de uma mesma raiz, gerando leitura de homossexualismo, ainda que “homem” aí, em ambas as posições, não se trate de ser humano, mas numa delas, grosso modo, como entendimento do ego, ou raciocínio do falso.
Uma metalinguística moderna que desse conta do conteúdo esotérico desses escritos semíticos revelaria como até hoje o engenho hermenêutico tradicional só pode exercer uma leitura ptolomaica das escrituras, forma que cativou até as mentes mais ilustradas da humanidade, ainda que discordasse deles.
Redundaria também que o teísmo e o etnocentrismo religiosos seriam devastados de forma definitiva academicamente, agora com supedâneo na própria Bíblia e Alcorão. Deixo à imaginação as profundas transformações que adviriam disso, se isso se realizasse.
Sonhar não custa, não é, Cláudio?
Abraços, Flávio.
Caro Flávio: Algo me diz que o argumento não demoveria os pregadores de seus esforços catequéticos. Enfim, deixando de lado a brincadeira, é claro que você tem consciência de que o esforço interpretativo esbarra no limite de ser interpretativo. Enfim, confrontadas com a materialidade do proselitismo e do enforcement dos ditames doutrinários, não foram poucos os que derivaram para a religiosidade manifestada 100% internamente, uma relação com o próprio eu. Outros ainda evoluíram para religiosidades “cósmicas”. Por mim, tudo isso denota insegurança existencial.
Em outra vertente, a respeito de traduções da Bíblia, alguns anos atrás fiz um levantamento de dezenas de versões da Bíblia em busca da evolução de um certo conceito. Resultado: algo que era uma descrição de um objeto material transformou-se em ente imaginário ao longo das traduções do hebraico ao grego (a Bíblia dos Setenta), do grego ao latim por São Jerônimo (a Vulgata) e daí às muitas vertentes das traduções modernas. A Bíblia de Jerusalém (que demorou dezenas de anos para ser retraduzida de fontes remotas) reverteu o processo e devolveu a materialidade ao tal objeto. Infelizmente, nunca acabei direito esse artigo. Por falar no assunto, uma leitura extraordinária pela riqueza do uso do idioma é a King James Bible. Recomendo. O Apocalipse (Evangelho de São João) é particularmente bem escrito.
E aquele negócio de PROFETIZAR como vai ser a civilização futura, sob o suposto comando do “proletariado” (através de uma elite burocrática iluminada, claro), não é fantasia não, né?
Utopia.
Se um dia o homem consequir entender que tudo tem um começo, um meio e um fim, saberá viver cada minuto de sua vida como se fosse o último aproveitando de todos os prazeres que a natureza lhe oferece, sendo útil e colaborando para que outros também consigam seus intentos.
Em que pese a liberdade de imprensa que temos e admiro-a e entendo que deve ser mantida a todo o custo. Não creio que as orações de jogadores importunam alguém.
Talvez importunem aqueles, como o nobre colunista, que acredita que o real, seja somente aquilo que é visível e pode ser tocado pelas mãos dos homens. Constatado pelas lentes das câmeras e visto a olho nú.
Não sou nenhum radical, admito que possam existir agnósticos e pessoas atéias, porém não creio que falar de Deus seja importunar alguém.
Importuna, muito mais a propaganda consumista das marcas estampadas nas camisas dos jogadores, placas dos estádios e nos intervalos de programas esportivos nos levando a estar sempre ligados na última marca de tênis, materiais esportivos etc.
Sr. Cláudio, nosso presidente já foi considerado um radical, nem por isto deveria seu partido e ele ser excluído da nossa democracia, as religiões, como instituições não são radicais por natureza, há membros radicais, mas existem muitos ateus muito mais radicais em suas idéias do que religiosos.
Abraços.
Meu caro,
Falou e disse,como se diz na gíria. A religião é claramente um empecilho a racionalidade, e pior, se aproveita de pessoas crentes na sua fé para explorar-los financeiramente em beneficio próprio.
Em nome desta fé foram feitas guerras, assassinatos e injustiças diversas, para tempos depois aparecer alguns incautos a pedir perdão pelos seus erros.
Ora, vão se lixar………….
Um abraço,
Caro Cláudio,
concordo com você, pregadores fundamentalistas sempre existirão, sem dúvida, e terão sempre o rebanho correspondente. Você não pode ter um adulto sem que tenha sido antes uma criança. O problema é que o período de infante se estenda indefinidamente, ou seja demasiado prolongado.
A Internet é prova da diversidade de nichos de consciência, e vez ou outra somos surpreendidos pelo testemunho da dinâmica de migração de pessoas de um estágio de consciência para outro, corroborando a hierarquia entre diferentes estágios, conhecimento que se consolida na Psicologia do desenvolvimento.
Boa parte das pessoas que professam a religiosidade fundamentalista regram a sua vida de que ela tem significado, direção e propósito, com resultados determinados por um Outro todo-poderoso, ressalvando-se que esse padrão de comportamento e ideário não se restringe à “religiosidade”. Quem clama pela implantação da ditadura militar para dar solução às mazelas “políticas” professa ainda esse estágio de consciência, o comando militar lhe representa o papel da Ordem toda-poderosa que ordenará tudo e sublima o seu estado de impotência.
Cláudio, tornando às questões bíblicas, no caso de Apocalipse, esse livro tão controverso e pleno de símbolos, vemos nos capítulos finais a narração do surgimento de novo céu e nova terra e, após, a descida da Jerusalém celeste. Sabemos que é um livro polêmico e historicamente desastroso, porque é tomado como sinônimo de hecatombe terrestre e divisão entre as pessoas.
Por felicidade, o próprio apóstolo Paulo indica, tangencialmente, o universo do Apocalipse, quando em sua carta aos Gálatas, expressamente proclama que (4:26) “Mas a Jerusalém do alto [celeste] é livre e esta é nossa mãe”, realização já cumprida, não uma esperança utópica. O primeiro céu e terra, que são transcendidos no Apocalipse, correspondem justamente aquilo que Paulo proclama em 1Coríntios, 10:11, como “o fim dos tempos” ou “fim do mundo” que a ele a alguns dos seus companheiros se processou.
Essa é uma das razões que me levam a apreciar as cartas de Paulo, porque fornecem, ainda que pouco, a chave para compreender a simbologia bíblica. As cartas têm origem e destino determinados historicamente, em pessoas históricas. E assim, quando o apóstolo recorre aos símbolos que em outros livros não tem destinação fechada, e que dá azo à interpretação como de ocorrência no plano histórico, o apóstolo os encerra no plano psíquico (digo isso não só por essa passagem, mas pelo conjunto da obra, que tem diretriz única).
Quem detém domínio da espiritualidade autêntica do budismo ou do hinduísmo, percentual ínfimo da população, e se familiarizar um pouco com a simbologia bíblica, compreenderá melhor o apóstolo, bem como muita parcela do conjunto semítico de escritura. Há muitos paralelos incríveis, isso porque o substrato é de referência ontogenética, mas cujo estágio, ainda hoje, é vivenciado por pouquíssimas pessoas. Espiritualidade autêntica pertence ao campo de investigação da Psicologia do desenvolvimento, setor voltado ao ego maduro.
Verificar-se-ia também que os compositores dos compêndios, da ala da espiritualidade autêntica, registram profundas tensões e condenação desde aquela época do que hoje vinga como a face mais visível da religiosidade, isso porque é religiosidade construída sobre ego crasso, sem refinamento, e sem horizonte de aperfeiçoamento aos membros. É fruto da carne (ego) condenada. Espiritualidade autêntica nada tem a ver com crenças (as palavras na Bíblia e Alcorão não podem ser tomadas no sentido ordinário), mas transformação de consciência, em estágio bastante refinado, ainda hoje, da evolução humana.
Infelizmente, para os escritos semíticos, prevaleceu na história a leitura da forma sobre o seu real conteúdo, mas cujo suposto entendimento se faz não mediante linha contínua de leitura, porém por saltos. Despreza-se toda a estruturação lógica dos símbolos, que é montada referindo-se a dois padrões distintos de consciência: a consciência de ego bárbaro e o refinado, simbolicamente regido pelo novo céu e nova terra, pelo reino celeste (cuja natureza é interior ao ser humano, como já registrava textualmente Lucas, cap. 17) e por outras expressões, inclusive de termo comum ao budismo, hinduísmo e semítico.
Entretanto, historicamente, os espiritualistas autênticos semíticos falharam, pois não houve continuidade de mestres que conservassem viva a mensagem autêntica, inclusive transposição em linguagem que desbastasse ambigüidades. Sucedeu, infelizmente, fornecimento de instrumento de justificação do fundamentalismo, geração e consolidação de fábulas, inclusive distorções históricas profundas, acarretando sofrimento em que ainda geme a humanidade. Felizmente vejo horizonte de grandes transformações no futuro.
Afirmo que o assunto da espiritualidade é bem complexo, Cláudio, e, felizmente, para sua tranquilidade, a autêntica exige denodo existencial e apuramento de várias linhas de desenvolvimento psíquico do ser humano. Abraços.
O ser ateu não tem que buscar ou rebuscar aqui ali ou acolá, o ser ateu ‘convicto’ é ateu e pronto simplesmente não acredita.