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03/08/2009 - 08:09

O direito de não ser importunado

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P.S. tardio. A respeito do “gancho” desta nota, Mauricio Stycer publicou recentemente duas notas em seu blog a respeito da reza dos jogadores brasileiros após a vitória na Copa das Confederações e da reação da Fifa: aqui e aqui.

Na semana passada, o jornalista Juca Kfouri escreveu em sua coluna na Folha de S. Paulo um artigo sobre manifestações religiosas em partidas de futebol. Estimulado por reações raivosas de alguns, voltou ao assunto em sua coluna de ontem.

Juca mencionou esse negócio de “atletas de Cristo”, de rezas públicas antes e depois do jogo e assemelhados e argumentou que manifestações religiosas devem ser reservadas a ambientes religiosos, como igrejas, sinagogas, mesquitas etc.

Ao que poderia aduzir barraquinhas dedicadas ao Santo Daime, quiosques de numerologia, terreiros de Umbanda e assim por diante.

Da mesma forma que Juca, este que escreve é filosoficamente agnóstico e pragmaticamente ateu. Um ateu que viva num ambiente repleto de evocações a seres incorpóreos, influências etéreas e exortações à “espiritualidade” não pode deixar de indignar-se com a coisa toda.

A mão livre que se dá ao proselitismo religioso desbragado se baseia num raciocínio tradicional.

O raciocínio é o seguinte: como existem

• A liberdade de expressão;

• A liberdade de associação (que inclui a liberdade de culto religioso; daquele jeito sempre prolixo do brasileiro, nossa Constituição inutilmente especifica ambas),

segue-se que aos cultores de religiões seria assegurada liberdade de proselitismo, ou seja, de tentar amealhar seguidores por meio de propaganda, a saber, comunicação por meio de veículos dirigidos a coletivos (de folhetos distribuídos de porta em porta a programas de televisão).

Ora, sob o ponto de vista estritamente lógico, liberdade de expressão e liberdade de associação não implicam a liberdade de propagandear alguma coisa.

Apesar de não ser assegurada por consequência lógica, a liberdade irrestrita de propaganda existe por uma combinação de dois motivos: o primeiro é o lobby das religiões; o segundo, porque condicionar a liberdade de proselitismo traz riscos à liberdade de expressão política. De modo a não estimular a repressão a esta última, deixa-se rolar.

Em casos extremos, o Estado intervém.

Assim, por exemplo, se um grupo qualquer decidir lá por eles fazer propaganda contrária à vacinação coletiva contra doenças, o Estado processará os responsáveis. O Ministério Público fará isso para proteger o interesse coletivo, de que tem a tutela.

O que está em jogo no caso da propaganda religiosa é o interesse coletivo. Interessa ao coletivo a disseminação de crenças em seres incorpóreos, influências etéreas e assim por diante?

Me parece que, claramente, não interessa. Na medida em que crenças religiosas dizem respeito ao inatingível e na medida em que estipulam a predominância de mundos imaginários sobre o mundo real, têm influência deletéria sobre este último, pois a possibilidade de intervenção sobre o mundo real é desviada para a obediência a superstições.

O impacto que isso tem sobre o mundo real é imenso. Para mencionar apenas as três principais religiões monoteístas, temos:

O islamismo radical, que submete as populações dos países em que predomina a códigos e costumes discriminatórios e sanguinários;

O judaísmo radical, com enorme influência sobre a política israelense, tanto interna quanto externa, para desgraça dos palestinos;

O cristianismo em suas diversas manifestações, que dos Estados Unidos à América Central e a diversos países africanos, passando pela Polônia e outros, orienta a vida da comunidade na direção da manutenção do status quo.

Inteiras bibliotecas foram escritas para demonstrar que religião não é uma boa coisa, não apenas pelos motivos acima, mas por diversos outros — em particular a ofensa que religiões representam à racionalidade, portanto à compreensão do mundo, portanto à capacidade de alterar o mundo.

P.S.: Juca Kfouri é fundador da Transparência Brasil, membro de seu Conselho Deliberativo, presidente da Comissão de Ética da organização e meu amigo. Informo que esta nota teria sido escrita mesmo se o autor da reclamação pública sobre manifestações religiosas não tivesse sido ele mas Joaquim ou Eugênio . Como o eventual visitante poderá verificar por si mesmo, o assunto foi tratado algumas vezes na primeira encarnação deste blog. Ver o histórico.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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569 comentários para “O direito de não ser importunado”

  1. Jatiacy Francisco da Silva disse:

    Li seu texto e lamento muito por seu modo de escrever, acredito eu, proposital, para que apenas alguns internautas venham a compreender e interpretar o que você tentou escrever. Seu preciosismo rebuscado para mim só tem um sentido, falar nada sobre alguma coisa, ou simplesmente “encher linguiça”. Não é à toa que você é subalterno do Juca, vocês, ao meu ver simplesmente se completam.

  2. jsilva disse:

    Um tremendo babaca… Esse cara deve estar sem noticiais pra dar ou é ateu!

  3. José Aparecido Fiori disse:

    Ótimo. Fé e religião são coisas de fórum íntimo, um dever a ser cumprido, antes de ser manifestado com o propósito proselitista.

  4. Lucas disse:

    é facil dizer que não é de interesse coletivo falar de alguma religião quando está tudo bem, tirando Deus de suas vidas, mas depois que acontece algo trágico, com alguém querido em uma comunidade, ou com um grupo maior de pessoas, todos questionam onde está Deus neste momento, primeiro tiram de suas vidas quando convem, depois, quando tudo vai mal, querem saber porque Deus não fez nada. Essa é uma reaalidade lamentavel.

  5. Meu caro Cláudio,

    Embora seja protestante, da vertente denominacional batista, concordo com o que você escreve. Na verdade, é dificil eu discordar de você.
    Também acho, exatamente porque a crença religiosa (não falo em religião) é livre em nosso país é que não vejo como se propagá-la em meios outros que não aqueles especificados para isso, como igrejas, cultos, etc.
    Imagine-se todas as “religiões” lutando por espaços democráticos em partidas de futebol, instituições publicas, etc.

    Ouso apenas discordar da sua frase “Na medida em que crenças religiosas dizem respeito ao inatingível e na medida em que estipulam a predominância de mundos imaginários sobre o mundo real” quanto às palavras “inatingível” e “mundos imaginários”.

    Ao contrário do que se possa pensar (embora respeite a opinião diversa) a crença religiosa é algo palpável, ou seja atingível, não se tratando de mundo imaginário, mas sim de espiritualidade que se materializa no cotidiano de quem crer.
    Pense nisso.

    Um grande abraço do Escritor

  6. Relibaba disse:

    Em minha vida profissional, vi coisas das quais não tinha como explicar, e para isto dei nome de Deus. Ainda não defini claramente quem é este ser supremo, creador, ou sobre sua onisciencia e onipresença, etc. Uma coisa eu tenho certeza. Dos filhos de Abraão, dos quais derivam as tres religiões citadas, vejo um preconceito, um racismo, entre outros e presentes na visão dos seguidores destas, arraigados e baseados no antigo testamento. Seria este Deus o responsavel pelo que está escrito lá? Problema maior é que para eles voce não tem o direito de não ser importunado por visões deste Ser, baseadas nas interpretações de cada um. Esquecem que vivemos em um Estado laico, não somos um Irã. Ah! Tambem não somos a Venezuela, que aquele senhor começou a acreditar que é representante de Deus, e dita bons costumes.

  7. José Ferreira disse:

    Prezado Cláudio, é incrível como somos bombardeados pelos canais de TV religiosos (católicos, evangélicos e outros), sem falar que alguns televangelistas ainda alugam horários em outras emissoras de TV. Infelizmente o povo não tem instrução suficiente para reger seu próprio destino, daí abastecerem as religiões com dízimos e ofertas, em busca de vida melhor após a morte. Não sabem que o Céu ou o Inferno é nesta existência: o Céu para quem recebe esses dízimos/ofertas; o Inferno para muitos dos que os dão.

  8. Giba Rossi disse:

    Sou cristão. Católico praticante, não aquele que se diz católico e mal sabe aonde fica a igreja !

    Falo isso, para então…. bater palmas ao texto do Juca e ao seu !

    O mesmo direito que eu tenho de manifestar-me a favor, quem é contrário tem também.

    Exatamente por isso, penso ser melhor, os jogadores e artistas em geral tem mais cuidado a revelar seu amor a Cristo, pois se alguém como o Juca citou, resolver mostrar uma camida dizendo que Jesus é uma farsa, teremos de aceitar.

    Temos que respeitar e aceitar (amar) os irmãos. Foi o próprio Cristo que falou isso !

  9. BRUSUDUM disse:

    Parabens, muito bem colocado, a questão religiosa precisa e deve ser combatida, regulamentada, enquadrada, etc. Do jeito que está sendo conduzida levará a consequencias inimaginaveis.

  10. tiago disse:

    a pior coisa é uma pessoa usar de palavras bonitas mas em vão para explicar uma coisa em que não participa. Nesses casos é melhor usar toda a sua “sabedoria” para algo mais proveitoso e se calar diante das coisas que sabe através de livors, noticias.

  11. Antonio disse:

    Simplesmente perfeiro. Todos nós temos o diretiro de ter e exercer uma religião, mas também temos o direito de não ter e não participar direta ou indiretamente de uma.

  12. O comentário acima é muito próprio de um ateu, no caso, confessado. Mas êsse tipo de comentário é mais próprio ainda de quem não conhece religião e ou não a professa. Como posso não gostar de uma bebida e ou uma comida se nunca a provei. Vai daí..
    Falar de religião é muito fácil pois dá machete. Êsse é um assunto muito delicado pois bole com uma grande maioria da população mundial. E sendo maioria….
    Melhor ficar calado. É mais prudente.
    Seja ateu e pronto. Não precisa proclamar e nem desfazer de alguém que professa alguma religião. Pelos menos os crentes em algo não desfaz do ateu. Tem pena dele.

  13. Leonardo Valles Bento disse:

    Complicado. Sempre tendo a repudiar qualquer tentativa de limitação da liberdade de expressão em nome de um suposto interesse público, mesmo que se trate de propaganda ideológica, ou religiosa, salvo em caso de apologia da violência ou coisa assim.

    Quanto à questão religiosa em si, curiosamente, tanto os ateus quanto os ecumênicos (que acreditam que todas as religiões são válidas) compartilham uma mesma premissa politicamente correta, embora extraiam dela conclusões opostas: a de que todas as religiões são iguais e se equivalem.

    A questão realmente espinhosa consiste justamente em distinguir as religiões. Elas não são todas iguais. Algumas são mais predispostas ao diálogo, são mais racionalistas e mais tolerantes do que outras. Isso varia de época para época, é claro. Mas, no momento histórico atual, é preciso reconhecer o irracionalismo religioso tende a vir de algumas religiões ou facções religiosas, não de todas.

  14. Ricardo Arini disse:

    Apesar de não ser ateu, concordo com tudo o que você disse e também com tudo o que disse o Juca Kfouri.
    O curioso é que não vão faltar comentários aqui apelando para a tolerância religiosa, que as pessoas que não professam a mesma fé dos ditos “atletas de cristo” os estão criticando por influência demoníaca e por ai vai…
    Não deixa de ser irônico que os mesmos que apoiaram o chute na Santa e vivem perseguindo os espíritas e umbandistas conclamem todos pela “tolerância religiosa”…
    Tolerância só é boa com a gente, com os outros…

  15. Este tipo de manifestação, contrária à liberdade de expressão religiosa – tendo como alvo o cristianismo e de forma velada o evangélico brasileiro, está tomando proporções preocupantes.
    Lembra a derrubada da lei de imprensa? Graças à alguns intelectuais que não se acostumaram a viver com a diversidade de idéias e ideais políticos, começou assim.
    Hoje, de forma velada, voltamos a viver num país sob liberdade vigiada.
    Ore. Ore. Ore e ore…
    Logo, logo nossa liberdade de expressão religiosa irá para o espaço.
    É só uma questão de meses.
    Que Deus tenha misericórdia dos seus verdadeiros filhos!

  16. Rafael Rodrigues Pereira disse:

    Eu tb sou ateu, concordo que a religião pode ter consequências ruins (fanatismo, intolerância etc), mas preciso reconhecer que tb pode ter alguns efeitos pragmáticos positivos, contribuindo para que algumas pessoas, sobretudo de baixa renda, tenham um núcleo moral forte. Mas essa repercussão toda ocorreu por causa da reza dos jogadores da seleção depois da conquista do título. Isto foi interpretado por grande parte da imprensa internacional como se fosse uma forma de propaganda religiosa, como se os jogadores estivessem se aproveitando da transmissão pela televisão para “catequisar” alguém, o que seria – segundo um jornal inglês – um desrespeito à religião dos outros. Achei isso um exagero, acho que foi apenas uma tendência natural de “agradecer a Deus” quando se conquista algo, vemos muito isso, inclusive em outros países, quando alguém recebe um prêmio etc. Não acho que os jogadores, ali, estivessem pensando tanto no fato de que a imagem estava sendo transmitida para mundo todo, a reza ocorre no meio do campo por uma questão de espaço, me parece, e pelo fato de se querer “agradecer a Deus” assim que ocorre a conquista. Enfim, me pareceu que a repercussão foi exagerada e baseada em uma má interpretação, mas, já que isso ocorre, não custa nada, por motivos pragmáticos, pedir ao jogadores da seleção para tomarem mais cuidado.

  17. Bruno disse:

    Enquanto os homens tiverem de morrer, uma parte deles não poderá suportar esta idéia e criará subterfúgios. Não se assassina um subterfúgio, não se pode matá-lo. Ele é quem nos mata: Deus mata tudo o que resiste a ele. Em primeiro lugar a Razão, a Inteligência, o Espírito Crítico. O resto vem por reação em cadeia…”
    Michel Onfray.

  18. Yuri disse:

    Essas manifestações religiosas, em campo de futebol, deveriam ser proibidas pela FIFA, CBF, etc.
    O objetivo dela é atrair a atenção de Deus, para quem acredita, para fazer com que seu time vença.
    Se Deus é justo, como deve ser se existir, não pode fazer com que apenas um time ganhe.
    Se existe um preceito religioso que diz que não devemos fazer ao próximo aquilo que não queremos para nós, podemos supor que o gol infringe esse preceito.
    Então religião e futebol são coisas incompativeis.
    Para que no futebol configure a igualdade religiosa, o resultado teria que ser sempre o empate.
    A diferença poderia ser estabelecida pela torcida, aquela que cantasse o hino religioso mais bonito seria o vencedor.
    É justo né.

  19. OSFilho disse:

    A sua inteligência ( e a do Juca) se tornou loucura; lixo;
    Acham que têm direitos demais;
    Senhor Deus, tenha misericórdia dos cegos e alcança os corações dos que não têm fé em ti; por teu amor e bondade, se revele a estes que acham que nasceram do nada e vivem por si e para si mesmos;

  20. João Carlos disse:

    Me parece que o Juca é ateu, apoiar o tal jornalista inglês que não meresse ter seu nome mencinado aquí, é ir de encontro as idéias nazistas de Hitler !

    Não é inteligente jornalistas usarem este poderoso veículo de comunicação para manipular a opnião publica, usando assim do mesmo suposto método evangélico.

    Sê voces não creem em Deus afastem-se dos que creem, pois estão mexendo com uma gigantesca carga explosiva.

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