O direito de não ser importunado
P.S. tardio. A respeito do “gancho” desta nota, Mauricio Stycer publicou recentemente duas notas em seu blog a respeito da reza dos jogadores brasileiros após a vitória na Copa das Confederações e da reação da Fifa: aqui e aqui.
Na semana passada, o jornalista Juca Kfouri escreveu em sua coluna na Folha de S. Paulo um artigo sobre manifestações religiosas em partidas de futebol. Estimulado por reações raivosas de alguns, voltou ao assunto em sua coluna de ontem.
Juca mencionou esse negócio de “atletas de Cristo”, de rezas públicas antes e depois do jogo e assemelhados e argumentou que manifestações religiosas devem ser reservadas a ambientes religiosos, como igrejas, sinagogas, mesquitas etc.
Ao que poderia aduzir barraquinhas dedicadas ao Santo Daime, quiosques de numerologia, terreiros de Umbanda e assim por diante.
Da mesma forma que Juca, este que escreve é filosoficamente agnóstico e pragmaticamente ateu. Um ateu que viva num ambiente repleto de evocações a seres incorpóreos, influências etéreas e exortações à “espiritualidade” não pode deixar de indignar-se com a coisa toda.
A mão livre que se dá ao proselitismo religioso desbragado se baseia num raciocínio tradicional.
O raciocínio é o seguinte: como existem
• A liberdade de expressão;
• A liberdade de associação (que inclui a liberdade de culto religioso; daquele jeito sempre prolixo do brasileiro, nossa Constituição inutilmente especifica ambas),
segue-se que aos cultores de religiões seria assegurada liberdade de proselitismo, ou seja, de tentar amealhar seguidores por meio de propaganda, a saber, comunicação por meio de veículos dirigidos a coletivos (de folhetos distribuídos de porta em porta a programas de televisão).
Ora, sob o ponto de vista estritamente lógico, liberdade de expressão e liberdade de associação não implicam a liberdade de propagandear alguma coisa.
Apesar de não ser assegurada por consequência lógica, a liberdade irrestrita de propaganda existe por uma combinação de dois motivos: o primeiro é o lobby das religiões; o segundo, porque condicionar a liberdade de proselitismo traz riscos à liberdade de expressão política. De modo a não estimular a repressão a esta última, deixa-se rolar.
Em casos extremos, o Estado intervém.
Assim, por exemplo, se um grupo qualquer decidir lá por eles fazer propaganda contrária à vacinação coletiva contra doenças, o Estado processará os responsáveis. O Ministério Público fará isso para proteger o interesse coletivo, de que tem a tutela.
O que está em jogo no caso da propaganda religiosa é o interesse coletivo. Interessa ao coletivo a disseminação de crenças em seres incorpóreos, influências etéreas e assim por diante?
Me parece que, claramente, não interessa. Na medida em que crenças religiosas dizem respeito ao inatingível e na medida em que estipulam a predominância de mundos imaginários sobre o mundo real, têm influência deletéria sobre este último, pois a possibilidade de intervenção sobre o mundo real é desviada para a obediência a superstições.
O impacto que isso tem sobre o mundo real é imenso. Para mencionar apenas as três principais religiões monoteístas, temos:
O islamismo radical, que submete as populações dos países em que predomina a códigos e costumes discriminatórios e sanguinários;
O judaísmo radical, com enorme influência sobre a política israelense, tanto interna quanto externa, para desgraça dos palestinos;
O cristianismo em suas diversas manifestações, que dos Estados Unidos à América Central e a diversos países africanos, passando pela Polônia e outros, orienta a vida da comunidade na direção da manutenção do status quo.
Inteiras bibliotecas foram escritas para demonstrar que religião não é uma boa coisa, não apenas pelos motivos acima, mas por diversos outros — em particular a ofensa que religiões representam à racionalidade, portanto à compreensão do mundo, portanto à capacidade de alterar o mundo.
P.S.: Juca Kfouri é fundador da Transparência Brasil, membro de seu Conselho Deliberativo, presidente da Comissão de Ética da organização e meu amigo. Informo que esta nota teria sido escrita mesmo se o autor da reclamação pública sobre manifestações religiosas não tivesse sido ele mas Joaquim ou Eugênio . Como o eventual visitante poderá verificar por si mesmo, o assunto foi tratado algumas vezes na primeira encarnação deste blog. Ver o histórico.
Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
venho aqui dizer quer o sacrificio de jesus cristo no calvario por mim e por ti não pode ser esquecido em nenhu mometo de nossas vidas. por este motivo temos que proclamar aos quatro cantos que Deus nos ama de tal maneira que deu em sacrificio seu unico filho para que todos que nele cre não pereça mas tenha vida eterna.jukinhas que Deus te abençoe.
Quanto incômodo… será que é porque é onde o calo aperta para muitos?
Só copiando e colando o que havia escrito no blog do Mauricio, sobre demonstrações religiosas em público (fariseísmo):
Na realidade, a questão não se resume apenas nisso. Não é o melhor comparativo (esse de duas torcidas), pois uma competição esportiva, não existe apenas entre os atletas, mas entre as torcidas, visto que, essa permanecendo no âmbito da esportividade, é ótimo e salutar.
Agora, religiões nunca, NUNCA devem “competir”. O simples sentimento de competição religiosa presume um sentimento enrustido de supremacia ideológica.
É extremamente fácil defender a atitude de Lúcio e seus companheiros de seleção, pois estão protegidos por uma certa simpatia por parte do público…. “olha que bonitinho, que caráter, que pureza, estão rezando…”
Suponhamos que, no meio do círculo, estivesse um budista, ou um hinduísta, ou um muçulmano, ou… qualquer outro seguidor religioso. Ele seria respeitado? Teria que ficar de lado, esperando o final da pregação? Fingir que (momentaneamente) pratica, para escapar de algum constrangimento ocasionado pelos jogadores “religiosos”?
Se o ato de orar em público fosse manifestação de liberdade de expressão, então por que os fariseus eram criticados? Não era pela atitude hipócrita? Lúcio, definitivamente, liderou uma demonstração pra lá de “fariséia”, ou seja lá como se re-escreve ” H-I-P-Ó-C-R-I-T-A”…
Mas ele não é o pior, pior é o volante Roberto Brum, do Santos, que se acha super-hiper-engraçadão e faz anedotas acéfalas como essa: “Minha vida amorosa é um triângulo amoroso: Eu, minha esposa e Jesus..” faça-me o favor, Sr. Brum.
Admiro o Zé Roberto, que é evangélico, e o Roberto Baggio, que é Budista, e nem por isso ficam se mostrando na frente de todo mundo pra passarem uma imagem de “certinhos e melhores que os outros”.
A questão que levanto é diferente da inicialmente colocada pelo colunista.
O pior de tudo, pra mim, é posar de certinho e se achar melhor que seu próximo, seja por abraçar uma religião, um conceito, uma posição social, o que for. Se achar superior a alguém que diz que duas vezes seis é igual a doze, porque você diz que seis vezes dois é igual a doze. Isso é ser hipócrita, no mais profundo sentido dicionarístico da palavra, ou no linguajar bíblico, isso é ser fariseu.
Existem muitos “fariseus praticantes” no mundo de hoje. Eles podem ser ateus, agnósticos, capitalistas, comunistas… e cristãos também. “Cristão falso”? Muitos o são, muitos não o são.
Sinto-me feliz por ter amigos evangélicos, católicos, budistas, espíritas que são excelentes pessoas e que se esforçam para contribuir com a felicidade dos outros, e melhoram, ainda que um pouquinho, o local onde vivem (pode chamar sociedade), sem esperar nada em troca.
É só aí que discordo do Sr. Abramo. Apreciei a publicação de sua opinião, concordo que a hipocrisia, não só religiosa, mas em qualquer área, incomoda, envenena e atrasa a humanidade, mas não me alinho ao pensamento do “morreu, acabou”. Será mesmo, que no fundo, um ateu sinta isso realmente?
Um ateu pode, concretamente, ser um bom cidadão e contribuir para a melhoria da sociedade, e esses exemplos de fato existem, mas, a meu ver, fica faltando um combustível básico para a vida humana, que é a crença intuitiva e inerente em uma Lei Universal (podem chamar do que quiser) que é responsável pela vida, pelo movimento dos planetas, pela origem das espécies, pela perfeição que é a máquina humana, pela beleza inexprimível em dizeres do drama da vida.
Afirmar “categoricamente” que essa vida ordenada é fruto do acaso e diminuir nossas sensações, emoções e experiências em um conglomerado de matéria que vira um imenso nada após a cessação da vida presente é, a meu ver, uma teoria frágil, uma mesa com três pernas.
Por isso, muita atenção quando um jogador posa de religioso publicamente. Ele pode até ser religioso e crer no que prega, mas não passa de um… fariseu. Vão rezar no seu quarto, como eu faço.
Prezado André: 1) As únicas evidências disponíveis a qualquer ser racional é que morreu, acabou. Quem afirma o contrário, a saber, que “morreu, não acabou” é que tem obrigação de exibir os indícios que justificam tal afirmação. E não servem autodeclarações, do tipo “estou convicto”, “sinto na minha alma”, “tiva uma iluminação” etc., porque nada disso é constatável por terceiros. 2) Não sei o que são crenças intuitivas e inerentes. Intuição, de um lado, não existe isolada da experiência sensível. É esta que cria as intuições (por analogia, associação, dedução lógica e outros mecanismos heurísticos). Intuições partidas do nada de nada servem. E inerentes a quê? O que isso quer dizer? Nada.
Prezado Sr. Abramo,
Tem toda razão, não é dedutível por terceiros. Autodeclarações, serve apenas a que os declarou.
Crenças intuitivas, são as que existem desde os primórdios da humanidade, desde as primeiras tribos. O homem sempre sentiu essa necessidade de explicar o fenômeno da vida e tentar materializá-lo em palavras, até mesmo em objetos, animais e em fenômenos da natureza, e dar “nome aos bois” (deus-trovão, deus-sol, etc.) Isso que eu tentei dizer com inerente, inerente na própria vida humana, no âmago de cada pessoa.
Os filósofos da Grécia Antiga também buscaram a compreensão, ainda que por um átimo, de “Theos” (que significa “Lei Universal” ou “Lei Primordial”. Pena que a Igreja Católica tenha literalmente assassinado a filosofia e deu à Lei uma forma de um Velho Barbudo e Rancoroso, hominídeo, sectário, branco e de olhos azuis. Aí, fica fácil entender a descrença da humanidade nos dias de hoje. Compreensível. Espero que, um dia, e que seja cedo, a Filosofia volte a ser ministrada nas escolas. Acredito que a Filosofia tenha força para recuperar a humanidade do buraco-negro do egoísmo generalizado.
Outro dia, um praticante budista fez uma bela explanação sobre a iluminação de Sakyamuni, ou Sidarta Gautama, como é mais conhecido no Ocidente, onde ele disse que o Estado de Buda (ou iluminação) não é explicado nem alcançado pelo intelecto. Simplesmente, ele é, ou existe.
E não, intuições não podem partir do nada. Nada é igual a zero. O fato de estarmos vivos já vale “1″. Não é que seja nada, é, de fato, intangível, e por isso, muitos não a aceitam. Assim como a eletricidade, o magnetismo, as ondas de rádio, e infinitas outras manifestações abordadas pela Física e pela Química que são, aos pobres cinco sentidos, invisíveis, mas cujas existências foram constatadas através do avanço da ciência, da tecnologia e do conhecimento humanos, acredito que a existência desse “fluido universal”, que permeia tudo no universo, e está em tudo (só não castiga como muitos pensam) será constatado cientificamente. Só não sei se vai demorar muito.
O perigo da intuição, ou da fé, é a fé cega, que fere, massacra, pune, castiga, escraviza. A violência religiosa, em sua grande maioria, provém das três religiões monoteístas, ou seja, as que incorporaram “Deus” ou a “Lei” como um velho de barbas, rancoroso, branco e de olhos azuis, hominídeo.
Perdoe-me pela extensão da mensagem. Achei realmente interessante a coluna que publicou.
Prezado André: Conheço tanto a mitologia quanto a história da filosofia e a evolução dessas idéias a respeito do “móvel do mundo”. Comparar eletricidade etc. com teísmo é absurdo. Não se trata necessariamente de ver com os olhos, mas detectar. Ouvimos um passarinho piar e o detectamos sem que seja necessário enxergá-lo (é claro que hpa conhecimento prévio). Qualquer conceito físico, apra ser um conceito físico, precisa ser detectável, direta ou indiretamente. Do contrário, não pode ser um conceito físico. Qual é a detecção possível para um espírito, ou “móvel”, ou como queira chamar?
Não entendi, Sr. Abramo. Por que absurdo?
Não pus em dúvida se o Sr. conhece ou não Mitologia ou Filosofia. Defendo, aqui em seu blog, que a Filosofia pode contribuir positivamente na educação nos próximos séculos. O Sr. não acha?
Móvel do Mundo? Vou pesquisar, não conheço essa expressão. Quis tão somente fazer uma comparação entre incompreensível e compreensível. Há dois mil anos atrás, chamaríamos a eletricidade do quê? Vai saber…
Como falei antes, ainda não detectamos, mas um dia conseguiremos, só isso que queria abordar. Acredito plenamente na ciência e no avanço do conhecimento humanos. Mas ainda vai demorar um pouco.
Não estou falando em espíritos, estou falando da essência da vida universal, essa que rege todos os fenômenos do Universo.
Prezado André: Não quis ser indelicado. Dois mil anos atrás (aliás, até hoje, como demonstra a persistência do pensamento religioso) a possibilidade de explicação do mundo era entendida de uma forma que não permitia uma boa separação entre mitologia e empirismo. Não vivemos há dois mil anos. Vivemos hoje. Quanto à “essência da vida universal”, tem o mesmo estatuto cognitivo de espíritos. O que isso quer dizer, exatamente?
Bom dia Sr. Abramo,
Na realidade, ainda estamos na busca pela “Essência da vida Universal”, portanto não temos como explicá-la nem prová-la a ninguém. Por enquanto. A conhecimento humano irá alcançá-la.
Não, de forma alguma foi indelicado! Obrigado pelo espaço democrático em seu blog.
Prezado André: Muito bem, então a mesma saída deve valer para as seguintes proposições: “O pensamento humano resulta da influência de enteléquias etéreas sobre projeções arquetípicas de neurônios”; ou “alfaces se reproduzem pela formulação de teoremas da teoria de números”.
Não entendi…
Trata-se de proposições com idêntico caráter do tal “espírito universal”. Não se referem a coisa alguma e portanto não têm significado.
Porque fechar os olhos e os ouvidos para o espírito???
Sua racionalidade é limitada a sí mesma,
Tenho tristeza de ver que sua mente e alma não podem voar,
Estás preso na caia do recionalismo, do humanismo