2009 agosto | Claudio Weber Abramo
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Arquivo de agosto, 2009

31/08/2009 - 07:15

Histórias privadas

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Regras deste blog. Apenas se aceitam comentários de pessoas que se identifiquem com nome e sobrenome, ou para as quais o sobrenome esteja explicitado no endereço de e-mail informado no formulário de submissão. Não se aceitam comentários incivilizados. Tampouco este espaço se presta a manifestações provenientes dos porões político-eleitorais. Não se aceitam comentários sobre estas regras.

A praxe brasileira quando da eclosão de alguma crise é a sua desinflação. Para isso contribuem não apenas aqueles que têm interesse em fazer a coisa desaparecer como, igualmente, os que têm o interesse oposto e muitos daqueles que observam de fora.

Emitem-se nuvens de informação e desinformação que tendem a transformar o tema eventual numa sopa ininteligível. Com o tempo, o cansaço vence e o assunto é esquecido.

Isso tem a consequência de manter misteriosas as causas da crise. Como estas não são examinadas, torna-se impossível corrigi-las para evitar a repetição futura de consequências semelhantes.

É para onde parece encaminhar-se o caso da Receita Federal.

A Receita é organismo fundamental para o funcionamento da União. Da eficiência da atuação dessa repartição pública depende a capacidade de custeio e de investimento de toda a esfera Federal.

Se uma gestão pautada pelo profissionalismo e pela isenção política é fundamental para que qualquer órgão público cumpra sua função de servir ao público, isso é redobradamente exigível na Receita.

Problemas que a afetem não são relacionados apenas ao governo, mas ao Estado brasileiro.

Tendo isso em vista, e mesmo considerando-se a tendência nacional em direção à pizzificação de tudo, surpreende a ausência de preocupação do Congresso Nacional em relação ao que aconteceu e está acontecendo com a Receita.

Das questões relacionadas ao caso que têm sido veiculadas (nunca se sabe com que grau de veracidade, o que é parte integrante do problema), algumas exigem esclarecimento especial.

Em primeiro lugar, como é que se formulam e se executam as políticas gerenciais do órgão? Qual é o mecanismo que leva a Receita a agir deste ou daquele modo? Onde as políticas adotadas são consignadas formalmente? Onde se pode encontrar alguma explicação sobre se a Receita passou ou não a mirar preferencialmente os grandes contribuintes (ou qualquer outra política) e onde é que se encontram eventuais contra-ordens em relação a qualquer política anteriormente adotada?

Na ausência dessas consignações, o público fica a ver navios em relação ao que as diversas partes alegam. Uns dizem que a ex-secretária caiu porque teria havido discordância em relação a uma alegada política de mirar os grandes contribuintes. Outros afirmam que não foi isso, mas outra coisa. Como dirimir a dúvida?

Se não existe um processo organizado de definição de políticas e se estas não são explicitadas em documentos, isso é assunto de interesse público de primeira grandeza, pois a alternativa é que não exista realmente processo decisório e que as decisões sejam atingidas por deliberações que permanecem restritas a indivíduos.

Nesse caso, a história fiscal brasileira se reduziria a histórias de relações privadas. A alguém ocorre que tal ou qual prioridade deve ser adotada, conversa-se com dois ou três e está feito. É assim mesmo que funciona?

Um segundo assunto diz respeito ao modo como se nomeiam pessoas para ocupar os cargos de responsabilidade na estrutura na repartição. Há concurso interno? Se não há, por que não há? Quais são os mecanismos de avaliação de desempenho dos funcionários do órgão? Ou será que todo mundo é sempre promovido por antiguidade? (É claro que o mesmo vale para todo o resto da administração.)

Qual espaço deliberativo se atribui aos sindicatos de auditores, de analistas, ou sejam quais forem? Faz algum sentido admitir-se que uma repartição pública seja dirigida por pessoas escolhidas por aqueles que serão seus subordinados?

Ainda no capítulo das nomeações e demissões, por quê a ex-secretária foi nomeada, e por quê seu antecessor e ela própria foram demitidos? Se houve motivos técnicos, quais foram eles? Onde estão os números e a argumentação? Se existem números e argumentação, por que não são apresentados de forma estruturada? Afinal, é tudo irracional ou há alguma racionalidade nisso tudo?

Mais, por quê se instalou uma situação em que dezenas de funcionários graduados decidiram afastar-se?

Se devemos acreditar na afirmação do ministro da Fazenda de que as exonerações que se têm noticiado são “normais”, como é possível que tal coisa seja “normal”?

Aspectos secundários da crise da Receita são muito menos relevantes, embora tenham interesse num sentido menos estrutural (encontrou-se a ex-secretária com a ministra da Casa Civil ou não se encontrou, ocorreram ou não ocorreram entrechoques relacionados à tributação da Petrobras).

O mais relevante são questões relativas ao modo como o Estado é gerido.

Apresso-me a esclarecer que a opacidade, a irracionalidade e a arbitrariedade nas decisões relativas ao gerenciamento do Estado brasileiro não foram inauguradas pelo atual governo.

Estão aí há muito tempo, sendo replicadas e pioradas nos estados e municípios.

Publicado ontem no Correio Braziliense.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/08/2009 - 10:24

Fluxo atravancado

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Regras deste blog

0. Não se aceitam comentários sobre estas regras.

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2. Não se aceitam comentários incivilizados.

3. Tampouco este espaço se presta a manifestações provenientes dos porões político-eleitorais.

Devido a sua evidente relevância nas relações sócio-políticas, a comunicação é objeto de discussão frequente. “Frequente” não significa que seja ampla no sentido demográfico.

Quem se ocupa desse assunto é uma parcela ínfima da população, e mais ínfimo ainda é o subconjunto daqueles que abordam a questão com algum embasamento ou conhecimento de causa.

Não é para menos. O Brasil é um país de analfabetos, conforme mostra o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, produzido pela Fundação Paulo Montenegro (ver resumo aqui). Em 2007, ano do último levantamento, nada menos de 73,8% da população brasileira era analfabeta funcional, ou seja, mostrava-se incapaz de compreender um texto simples que lessem.

O analfabetismo funcional tem forte relação com o grau de escolaridade, mas não é idêntico a este. Ter chegado ao ensino médio e mesmo à universidade não garante alfabetização plena.

Assim, enquanto 64% daqueles que frequentaram total ou parcialmente as quatro séries do ensino fundamental são analfabetos funcionais, o mesmo acontece com 27% dos que passaram pelos quatro anos seguintes (o antigo ginásio), com 8% dos que chegaram ao secundário e com 2% dos universitários. (A referência aos anos da escola transformou-se em exercício de desvendamento de enigmas, introduzindo um potencial de confusão particularmente na construção de séries históricas. Não existem mais 1ª, 2ª etc. séries, mas “anos”. A 1ª série corresponde ao 2º ano e assim vamos. Algum gênio da educação deve ter achado que “curso primário”, “curso ginasial”, “curso colegial” são expressões politicamente incorretas, ou algo semelhantemente sensato.)

Então, a comunicação e seus vagares é tema de pouquíssimos.

Um dos motivos pelos quais no Brasil se comunica pouco (e quando se comunica costuma haver mais calor do que luz) decorre da inadimplência de muitos dos intermediários naturais da informação.

Explica-se: informação só existe em fluxo. Dados guardados em repositórios e que não sejam transmitidos de um emissor a um receptor não constituem informação.

Os intermediários da informação são aqueles que, por motivos diversos (normalmente movidos por interesses ou por aspirações), coletam dados de certo tipo e os submetem a agregação, filtragem e interpretação, com o objetivo de explicar ou focalizar algum aspecto do mundo.

Em tese, tais intermediários são associações profissionais e empresariais, sindicatos de trabalhadores, associações comunitárias, ONGs, acadêmicos.

Naturalmente, a imprensa é o intermediário mais importante, embora em diversos territórios ela se situe na ponta, e não no início, da cadeia de transmissão de informação. Não se deve esperar da imprensa que analise em profundidade nenhuma espécie de assunto, e nem que se ocupe de todo e qualquer assunto.

Assim, para que haja um fluxo de informações a respeito de indicadores educionais, ou de saúde, ou de saneamento, ou de produção de minério de manganês ou qualquer outra coisa, é imprescindível que algum intermediário anterior tenha coletado e analisado dados primários.

Quem faz isso, no Brasil? Muito poucos.

Quantas ONGs brasileiras produzem algum tipo de informação objetiva a respeito de sua área de interesse, ainda que seja para guiar a sua ação? Contam-se nos dedos.

Quantas associações empresariais se ocupam de produzir estatísticas concernentes a sua área de interesse? Tome-se a maior delas, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, FIESP. Ganha um sorvete de pimenta-do-reino quem encontrar alguma espécie de estudo aprofundado produzido por essa entidade. A única produção dela é o índice de emprego da indústria.

A informação especializada é, no Brasil, tratada como todo o resto. Constitui bem privatizado pelas elites (entre as quais se incluem as sindicais, as das ONGs etc.) e pelas oligarquias (que, não raro, têm linha direta com o Estado e acessam privilegiadamente informação que deveria ser pública).

Ou seja, existem fluxos de informação, mas circulam entre os donos do poder.

Como a imprensa é também altissimamente concentrada, o resultado é que a população brasileira vive num mundo de desinformação.

O diabo é mudar isso, pois a razão fundamental é econômica — e mudar a economia é algo que apenas se faz contrariando os interesses dos que se beneficiam da situação.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/08/2009 - 08:40

Caminhos

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Este blog nasceu em 2005, em outra edição. Foi interrompido no final de 2007 e retomado, sob nova roupagem, no início deste ano.

Uma coisa mudou radicalmente nesse período: a atitude dos visitantes.

É evidente que uma parcela considerável dos indivíduos que passam por aqui não têm nenhuma intenção de estabelecer alguma espécie de diálogo com ninguém.

Alguns acham que podem acusar o blogueiro de desonestidade. Protegidos pela distância e pelo anonimato, escrevem observações ofensivas em que não se formulam quaisquer argumentos e que não teriam coragem de exprimir pessoalmente. A esses tenho respondido nos últimos dias mandando-os à merda.

O que estimula comentários de alguns outros, igualmente ignorantes a respeito do que seja um argumento, que têm o desplante de afirmar que o blogueiro não teria “direito” de mandar ninguém à merda.

Como assim? Por que alguém teria de admitir a publicação de um comentário ofensivo sem reagir?

A alternativa é não publicar o que seja ofensivo.

A esse respeito, observo que um blog não é um espaço livre. É de responsabilidade de quem o publica. Ou seja, deste que escreve e do portal que abriga o blog.

Se não ficou claro, é o seguinte: publica-se aqui o que eu quiser, não o que qualquer estafermo irresponsável quer.

Como minha paciência com esse tipo de gente se esgotou, informo que passam a valer neste blog os seguintes critérios para a publicação de comentários:

• Apenas serão publicados comentários de pessoas que se identifiquem com nome e sobrenome, e cujos endereços de e-mail informados no formulário de envio sejam plausíveis. Isso não garante autenticidade nem evita falsificações, mas é mais uma barreira.

• Nenhum comentário que contenha xingamentos ou insinuações contra seja quem for, incluindo-se o blogueiro, será publicado.

Por fim, aviso que não se admitirão comentários a esta nota. Caso apareçam, serão extirpados sem leitura.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Regras deste blog Tags:
25/08/2009 - 09:15

Silêncio revelador

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O desenrolar do episódio Dilma Rousseff vs Lina Vieira fornece uma linha de visada sobre um dos aspectos mais deletérios da forma como o Estado brasileiro é gerido.

Ontem, diversos integrantes da cúpula da Receita Federal pediram afastamento de suas funções como consequência da exoneração da ex-secretária da Receita Federal.

O motivo, claro na nota que os demissionários emitiram, foi a mudança de rumos na política fiscalizatória da Receita que se prenuncia com a substituição de Vieira.

Os nomes poderiam ser outros. Lina poderia ser José e Dilma, Alfredo.

Rousseff (ou Lula, não se sabe) mandou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, demitir Vieira. Os motivos da demissão não foram explicitados. Como não foram explicitados, abre-se espaço para a especulação. A mais insistente, tornada plausível pela nota dos demissionários de ontem, é que o Palácio do Planalto estaria descontente com a política de fiscalização implementada na gestão Vieira, que focalizava a atenção sobre os grandes contribuintes.

Contribui para essa interpretação o fato de que o ministro da Fazenda não emitiu uma palavra quanto à política a ser seguida pela Receita. Não desmentiu a alegação de que o governo pretende aliviar a barra dos grandes contribuintes. No caso, o silêncio é revelador.

É inevitável estabelecer relação entre tudo isso e esforços arrecadatórios relacionados à campanha presidencial que já corre solta.

O que aconteceu na Receita Federal é o retrato acabado da captura do Estado pelo interesse privado dos políticos. Como os ministros podem nomear e desnomear pessoas à vontade para ocupar cargos na administração, é isso o que fazem, protegidos pela Constituição.

Se o Brasil fosse a Noruega, o governo jamais se atreveria a substituir um chefe da Receita sem motivo. Teria de justificar a substituição. Mais importante, teria de responder direitinho a perguntas sobre a política arrecadatória e fiscalizatória.

O Brasil não é a Noruega. Mais parece a República Centro-Africana.

No Brasil, o Estado existe para servir aos interesses dos políticos, não para servir aos interesses da comunidade.

Não se imagine que esse tipo de ingerência aconteça apenas no governo federal. Acontece em todos os governos estaduais e municipais. Como no Brasil o critério fundamental de preenchimento de cargos na administração pública é político e não técnico, não tenha dúvidas o eventual visitante de que as secretarias estaduais de Fazenda são geridas exatamente da mesma maneira, com objetivos semelhantes.

A diferença é que a imprensa brasileira não cobre o plano local, de forma que o público fica sem saber o que acontece.

Os políticos usam a máquina pública para satisfazer seus próprios interesses, que podem ser alegadamente políticos, mas que, uma vez aberta a porteira, conforme o caso incluem o diretamente criminal.

P.S.: Fazia tempo que não se lia uma peça tão gosmenta quanto o artigo que o ex-ministro José Dirceu publicou na Folha de S. Paulo de domingo a respeito da sua ex-colega de Ministério Marina Silva. Este que escreve não nutre simpatias especiais pelo ambientalismo. Tampouco é dado ao cultivo de heróis. E, por último, tem pouco interesse nos lances da sucessão presidencial. Contudo, é impossível deixar de assinalar que, de alguém que militou durante 30 anos ao lado da ex-ministra, não se deveria, em condições normais, esperar um descarte depreciativo do tipo que Dirceu produziu. Ao ler aquilo, vieram-me à lembrança os libelos que os bolcheviques russos produziam contra mencheviques e trotsquistas.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/08/2009 - 10:53

Já que antecipam

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A antecipação da campanha eleitoral presidencial de 2010 não efeta apenas a sucessão de Lula. Implica também a antecipação de todos os demais pleitos que acontecerão no ano que vem: de senadores, deputados federais e estaduais (e distritais, no caso do Distrito Federal) e governadores.

Explica-se: os candidatos a presidente precisam arranjar espaços nos palanques regionais. Para que um candidato qualquer se “viabilize” (como se costuma dizer) é preciso ter palanques nos principais estados do Sul/Sudeste e do Nordeste, pelo menos.

Não adianta a um candidato ser fortíssimo em São Paulo (o maior colégio eleitoral) caso não disponha de acessos ao eleitorado nordestino.

Reciprocamente, um candidato popularíssimo no Nordeste não emplacará no Sul/Sudeste caso não encontre espaços na região.

Espaços significam acordos com as forças políticas locais e, devido ao entrechoque dos interesses locais, necessariamente envolvem as chapas legislativas e executivas de todos os partidos que sejam alvo dos avanços sedutores dos candidatos presidenciais.

De modo que, enquanto o eventual leitor percorre as presentes maltraçadas, os políticos de modo geral se dedicam freneticamente a negociar em qual mourão de cerca amarrarão os seus respectivos burrinhos.

Isso afeta mais diretamente os cargos majoritários (senador e governador), mas tem repercussão sobre os proporcionais (deputados).

Tais movimentações negocistas são típicas de um país em que a política passa tão ao largo da população que os seus praticantes não se ocupam minimanente do que o eleitor possa pensar.

Não que a negociação pré-eleitoral de apoios deixe de ocorrer em outros países, mas a diferença, no Brasil, é que as decisões partidárias não se enraizam nas tendências das respectivas militâncias — as quais, rigorosamente, não existem. Que “militância” têm o PSDB, o DEM, o PMDB? Só de políticos e, em época de campanha, de cabos eleitorais pagos.

(As militâncias existiam no antigo PT, mas seu entusiasmo enfraqueceu claramente a partir do Mensalão. Será curioso verificar o que ocorrerá com ela em 2010; em 2008 já se mostrou desintusiasmada. Mas me desvio.)

Como a campanha eleitoral na prática já começou, aqueles que se preocupam com o rumo da política e, mais amplamente, do Brasil, farão bem se também começarem a se mobilizar.

Há muitas formas de mobilização política, dependendo dos interesses e das aspirações de cada um e de cada grupo – mas há um tema que tende a equalizar as aspirações de muita gente, a corrupção.

Qualquer pessoa que tenha alguma espécie de expectativa em relação ao efeito da política sobre a vida da comunidade concordará (espero) em que não vale a pena eleger gente que tenha passado duvidoso.

Ladrões, picaretas, canalhocratas, caçadores de renda não deveriam ter lugar na política.

Como o arcabouço legal brasileiro é omisso quanto a isso e, como se isso não bastasse, o sistema judicial do país é disfuncional, só o eleitor pode barrar o caminho desses indivíduos em direção aos cargos eletivos.

O eleitor só pode decidir o seu voto com base em informação.

Logo, para convencer eleitores a não votarem em gente duvidosa, é preciso usar os mecanismos de comunicação de que se disponha para disseminar informação sobre os políticos.

Quanto mais intensivamente essas informações forem veiculadas, maiores serão as chances de que pelo menos alguns dos indivíduos mais duvidosos terão barradas as suas pretensões reeleitorais.

Este espaço voltará insistentemente a esse assunto nos meses seguintes, com sistemática menção aos dados sobre políticos presentes no projeto Excelências.

Explica-se: trata-se da única fonte existente no Brasil que reúne dados de uma grande variedade de tipos sobre todos os integrantes das principais Casas legislativas brasileiras.

Se o sujeito é candidato à reeleição, seu histórico estará lá.

Se esse histórico é duvidoso, isso está claramente evidenciado.

Convida-se o eventual visitante a usar esse instrumento, que foi concebido e é mantido para isso.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/08/2009 - 08:46

Assim caminha a enrolação

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Acredito que parte dos eventuais visitantes se recordem do deputado Edmar Moreira, de Minas Gerais, hoje sem partido.

É conhecido como o “deputado do Castelo”. Descobriu-se que ele possui uma propriedade rural em Minas com aspecto de castelo medieval, a qual havia omitido durante anos de sua declaração de bens ao fisco.

O deputado começou a construir o tal castelo durante o governo Collor, ao que consta porque acreditou numa promessa deste último de que legalizaria o jogo no Brasil. O lugar era para ser um cassino.

Ficou com o mico na mão, ou talvez o alugue a algum pecuarista desses que andam de chapéu de vaqueiro e gostam de imitar seus colegas norte-americanos, os quais apreciam importar para a planície texana edificações antigas que mandam ou mandavam trazer da Europa, desmontadas.

Ou, quiçá, arrende a propriedade para a equipe olímpica de nado sincronizado.

Enfim, não é sobre isso que quero escrever, mas sobre outro caso envolvendo o deputado.

Trata-se de ele ter usado a sua verba indenizatória para pagar alegados serviços de duas empresas de segurança que pertencem a ele mesmo.

O caso rendeu a Moreira uma representação na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados.

Designou-se um relator, o deputado gaúcho Sérgio Moraes (PTB). Depois de declarar que se lixava para a opinião pública, Moraes foi substituído na relatoria pelo piauiense Nazareno Fontelles (PT). Este preparou um relatório condenando Moreira, mas o relatório foi derrubado. Aí a Comissão  designou o deputado baiano Ségio Brito (PDT), que preparou novo relatório livrando a cara de Edmar Moreira, o qual foi aprovado pela Comissão. [Parágrafo alterado para corrigir omissão. Agradeço a Piero Locatelli pelo alerta.]

Assim, para os deputados da Comissão de Ética (!!??!!) da Câmara, não haveria problemas em um fulano morder a grana da verba indenizatória para transferi-la para o caixa de suas próprias empresas.

Diferentemente das nobres excelências da Câmara, o procurador do Tribunal de Contas da União Marinus Marsico não achou que a brincadeira estivesse explicada, e em fevereiro deste ano solicitou à Mesa da Câmara o envio dos comprovantes de despesas putativamente incorridas pelo deputado-castelão e que teriam justificado a “indenização” recebida.

Conforme noticiou o Estado de S. Paulo de ontem, a documentação ainda não foi enviada ao TCU.

Marsico deu um prazo de dez dias ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), para que este obedece à ordem de fornecer a documentação. Se Temer não o fizer, Marsico ameaça processá-lo por improbidade administrativa.

Por que só isso, não se sabe. Melhor seria usar os diversos artigos do Código Penal constantes do capítulo referente aos crimes contra a administração pública cometidos por agentes públicos. Ao dificultar a investigação de possíveis ilícitos cometidos no âmbito da Câmara, Temer e seus colegas de Mesa Diretora da Câmara tornam-se suspeitos de prevaricação ou no mínimo de condescendência criminosa. Enfim…

Vejamos o que acontece daqui a dez dias.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/08/2009 - 09:40

Para quê servem, afinal?

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Conforme acontece na virtual totalidade das Assembleias Legislativas dos estados brasileiros, a de Alagoas aparece no noticiário apenas quando acontece alguma picaretagem grossa, daquelas que não dá para esconder.

(Por outro lado, muitas Assembleias quase nunca são objeto de reportagens, porque, conforme sempre apontado neste espaço, os veículos de comunicação não cobrem essas Casas, preferindo voltar os olhos para Brasília.)

Ontem apareceram na Internet declarações do presidente da AL de Alagoas informando que a maioria dos funcionários da Casa não trabalha.

A Assembleia tem 901 funcionários, mas as instalações daquela Casa de Leis (conforme gostam de dizer os velozes parlamentares) não comportam tanta gente. De acordo com o presidente da Casa, deputado Fernando Toledo, cabem nas salas da Assembleia apenas cerca de 400 funcionários.

Ainda nas palavras do presidente, ainda isso seria demasiado — bastariam entre 200 e 250 servidores.

Como os carinhas não cabem no prédio, eles meramente não comparecem ao trabalho — mas recebem o salário todo mês. Muitos deles estão há anos nessa situação.

Além dos 901 servidores, a AL ainda dá emprego para 675 funcionários nomeados para os gabinetes dos valorosos representantes do povo. Dada um dos 27 deputados pode contratar até 25 “asssessores”, a saber, cupinchas, cabos eleitorais, agregados, namorados e namoradas e o que mais venha à mente em matéria de cabide de emprego.

Além da festa da uva “normal”, a Assembleia alagoana é dada a esquemas de desvio de dinheiro da folha de pagamentos dos funcionários. Foi o que se descobriu na Operação Taturana, que a Polícia Federal anunciou em 2007.

O noticiário da época dá conta de que essa específica roubalheira na Assembleia envolvia a inclusão de falsos funcionários na folha de pagamento, acompanhada de fraude tributária. Conforme a PF, entre 2001 e 2006 a brincadeira resultou no desvio R$ 200 milhões.

Os quinze deputados envolvidos (dois deles também implicados num caso de assassinato) foram processados por improbidade administrativa e foram destituídos de seus mandatos por decisão de um juiz do estado. Os sujeitos recorreram ao STF. Como, no entendimento do STF, improbidade administrativa não acarreta perda de mandato, as cadeiras lhes foram restituídas.

De onde, naturalmente, continuam a atuar de acordo com os padrões que a imaginação permite divisar.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/08/2009 - 08:44

Eterna ausente

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A corrida eleitoral para 2010 já começou, conforme demonstram as movimentações e balões de ensaio de candidatos, pré-candidatos, pseudocandidatos, anticandidatos, caciques partidários, governadores, prefeitos, ministros, o presidente da República e quem mais tenha interesse direto na questão.

Resultados de pesquisas de preferência eleitoral são analisados com olhos de lince à procura de vulnerabilidades de possíveis adversários que possam ser exploradas, filões a serem cultivados, discursos a compor de modo a agradar a esta ou aquela parcela do eleitorado.

Como a política brasileira há muito perdeu a referência ideológica, tendo mergulhado de cabeça no cultivo das percepções superficiais gerenciadas pelas manipulações do marketing, pode-se antecipar que a eleição de 2010 será de uma chatice ímpar.

Ninguém, seja na eleição para presidente, seja para governador, abordará qualquer assunto capaz de perturbar as expectativas feijão-com-arroz de qualquer parcela do eleitorado.

Como a busca por votos pelos candidatos dá-se visando parcelas específicas do eleitorado, e como as aspirações e demandas de cada parcela são geralmente incompatíveis ou no mínimo incomensuráveis com as demandas e aspirações das demais parcelas, e como os discursos dirigidos a cada uma delas não podem ser diretamente contraditórios entre si, o resultado é uma pasteurização geral e uma convergência em torno de proposições politicamente corretas e tão generalizantes que se aproximarão do nada a respeito de saúde, educação, saneamento etc.

Nenhum assunto controverso será discutido publicamente pelos candidatos. Decerto eles o farão no âmbito de encontros restritos com representantes do meio empresarial. Esses são os únicos interlocutores que candidatos de fato levam a sério.

Haverá alguns gestos simbólicos de candidatos visando intelectuais das áreas “humanas”, mas isso será para inglês ver, porque esses intelectuais não têm importância nenhuma na vida brasileira.

Um assunto permanecerá, como de hábito, intocado nas campanhas — o combate à corrupção.

O problema básico com o assunto da corrupção é que, para a generalidade do público brasileiro, que é enormemente influenciada por um ponto de vista de fundo religioso, corrupção é um problema moral, a ser resolvido ou encaminhado pela transformação das pessoas. Formem-se pessoas honestas e não haverá corrupção.

Como essa é a perspectiva do público, o que candidatos às vezes fazem é acusar o adversário de corrupção. Mesmo isso desapareceu da política nacional e ao menos nos principais estados, porque não se pode realmente acusar um sujeito de conivência com corrupção numa campanha eleitoral sem mostrar indícios concretos. Como esses indícios quase nunca existem, as acusações, que eram comuns antigamente, não mais surgiram nas campanhas eleitorais. No máximo uma pergunta ou insinuação num desses soporíferos debates televisivos.

O que é bom. Não se progride um milímetro no combate à corrupção quando o assunto é tratado como arma para ferir o adversário.

Corrupção tem causas, e para combatê-las não adianta trocar as pessoas. É necessário alterar as causas institucionais (leis, regulamentos etc.) e gerenciais.

Seria de esperar de candidatos à Presidência e, ao menos, ao governo de estados com PIB e arrecadação tributária razoáveis (limitam-se estes ao Sul/Sudeste, acrescidos da Bahia, os quais em conjunto respondem por cerca de 80% do PIB nacional), que tivessem alguma noção das causas da corrupção e que tivessem o quê dizer sobre as formas de combatê-la.

Se conhecem as causas, nunca afirmam coisa nenhuma a respeito. (Contam para isso com a inépcia dos repórteres brasileiros que os entrevistam, os quais tampouco chegam lá, permanecendo sempre no território superficial dos escândalos específicos.)

Explica-se: uma pessoa que se candidate à Presidência da República ou ao governo de um estado minimante organizado teve, necessariamente, uma carreira construída no ambiente público. É impossível que essa pessoa desconheça os principais motivos pelos quais a corrupção acontece na administração pública: o loteamento de cargos entre aliados é feito para dar mão livre aos partidos políticos em troca de apoio parlamentar. E uma maior eficiência administrativa feriria os interesses dos partidos beneficiários do loteamento, pois maior eficiência pressupõe melhores mecanismos de prevenção e controle.

Como o que querem os partidos da “base aliada” (qualquer “base”, em qualquer lugar) é fazer caixa e empregar cupinchas, os candidatos ao Executivo jamais mencionarão o que é central no combate à corrupção, pois se fizessem isso causariam imediata debandada de possíveis aliados.

Assim, apesar de escândalos de corrupção se sucederem no país, e apesar de a corrupção acarretar perdas imensas de recursos públicos, ninguém falará disso.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/08/2009 - 09:58

O Brasil não é só Brasília

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Conforme sempre apontado neste espaço, a invasão da política por caçadores de renda e aventureiros não se restringe a Brasília.

Começa nos municípios e em suas Câmaras e se espraia pelas administrações estaduais e respectivas Assembleias Legislativas.

Muitos dos que chegam a Brasília e ao Congresso Nacional, seja como senadores, seja como deputados federais, fizeram seu aprendizado nos estados e nos municípios.

Quando novos parlamentares desembarcam em Brasília, muitos já levam na bagagem a experiência de anos de prática na manipulação da função pública em benefício próprio.

É claro que nem todos os parlamentares são aproveitadores, mas muitíssimos são.

O que se pratica em matéria de picaretagens diversas em Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais costuma passar despercebido dos cidadãos de estados e municípios, porque os principais órgãos de comunicação brasileiros são, de modo geral, afetados por manias de grandeza. Em sua ambição de serem “nacionais”, descuidam do ambiente mais próximo.

Como os “grandes” jornais pautam os veículos de menor porte (dados recolhidos no projeto Deu no Jornal, da Transparência Brasil, mostram que 92% das matérias sobre corrupção publicadas nos principais jornais de todo o Brasil são originadas de apenas duas agências noticiosas, Folhapress e Estado), a visão em túnel brasiliense se replica nesses veículos.

[Aos eventuais visitantes que reclamarão de que a atitude dos veículos seria ideológica, informo que os pendores dos donos dos jornais decerto influenciam o noticiário, mas a inépcia da cobertura nada tem a ver com isso. Preferências políticas não explicam por que os veículos não cobrem os parlamentos locais. Na pior hipótese poderiam fazê-lo distorcidamente. Afinal, é disso que são acusados -- equivocadamente, do meu ponto de vista -- no que diz respeito à cobertura do Congresso Nacional. Para concluir esta pequena digressão, solicita-se encarecidamente aos eventuais visitantes seguidores da ordem-unida da denúncia todo-abrangente da imprensa por meio de siglas bobocas que procurem conter o seu ímpeto. Esse troço é chato e cansativo demais.]

Uma amostra do estado de coisas vigorante nos parlamentos locais foi divulgada ontem pela Transparência Brasil, a partir de dados recolhidos em seu projeto Excelências. Focalizamos a atenção em dois dos principais estados brasileiros, São Paulo e Rio de Janeiro, e agregamos informações referentes às ocorrências na Justiça e Tribunais de Contas que afetam seus respectivos deputados estaduais. O relatório pode ser consultado aqui.

O resumo da ópera é que nada menos de 45% dos deputados estaduais paulistas (42 de um total de 94) e 43% dos fluminenses (30 de 70) apresentam ocorrências na Justiça ou Tribunais de Contas.

Além de punições por Tribunais de Contas, os delitos de que são acusados incluem estelionato, falsificação de documentos, abuso de poder econômico, compra de votos, crime contra o patrimônio, irregularidade em contratos e licitações, formação de quadrilha, extorsão e até homicídio qualificado.

O projeto Excelências foi criado para cobrir a lacuna informativa deixada pelos veículos de comunicação. Com a aproximação das eleições de 2010, será redobradamente importante informar-se sobre quem são os candidatos — virtualmente todos os deputados estaduais se candidatarão à reeleição, e é fundamental conhecer seus históricos.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/08/2009 - 11:01

Com o chapéu dos outros

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Como se sabe, a governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB) é alvo de processo por improbidade administrativa movido pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul por conta de desvios de dinheiro do Detran.

O escândalo do Detran é cheio de lances. Houve gravações envolvendo o vice-governador Paulo Feijó (DEM) e o ex-chefe da Casa Civil do governo gaúcho, Cezar Bussato (PPS), em que os dois discutiam o destino de propinagens levadas a efeito no órgão.

É um, entre tantos outros exemplos das consequências de transformar órgãos públicos em território de loteamento político.

Verdadeira usina de corrupção, o loteamento através da nomeação de pessoas para ocupar “cargos de confiança”, acontece de norte a sul, envolve absolutamente todos os partidos e as três esferas, indistintamente.

No governo federal, em todos os governos estaduais e em todos os governos municipais pelo Brasil afora os partidos políticos se transformaram em verdadeiras súcias que se digladiam em busca dos benefícios trazidos pelo controle de órgãos públicos. Benefícios esses fáceis de identificar, como explicitamente mencionavam os dois gaúchos acima referidos.

Mas não é exatamente a isso que quero me referir.

Uns dias atrás, a governadora Crusius contratou um certo advogado para defendê-la. Trata-se do sr. Fábio Medina Osório.

Na reportagem do jornal Zero Hora que relatou a contratação, lê-se que “A condição de especialista renomado em improbidade administrativa e de membro da ONG Transparência Brasil pesou na decisão de contratá-lo para a defesa de Yeda”. Leia a íntegra da matéria aqui.

Ato contínuo, este que escreve enviou carta ao diretor da Zero Hora informando que o sr. Medina não é membro da entidade. Nunca foi.

O desmentido apareceu no jornal no dia seguinte, juntamente com alegações do advogado no sentido de que no passado participou de um grupo de discussões coordenado por um integrante da Transparência Brasil.

Como se uma coisa tivesse relação com a outra.

Não é a primeira vez que o nome da Transparência Brasil é usado por indivíduos que pretendem lustrar seus currículos.

Mesmo que alguém seja realmente associado à entidade, ainda assim o uso do fato para incrementar seus próprios negócios configura clara infração ética.

No caso, o indivíduo que defende a governadora na ação proposta pelo MPF não é nem foi associado à TBrasil.

A auto-atribuição de pertinência à Transparência Brasil tinha a finalidade de incrementar os ares “éticos” do sujeito.

Sendo tal pertinência falsa, o eventual visitante é convidado a concluir o que quiser a respeito da relação existente entre a imagem projetada pelo advogado e a realidade.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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