Pizza irrelevante
Este que escreve não teria a pretensão de “descobrir” que a política é feita de distorções da realidade. Apresentar ao público algo como sendo seu contrário, omitir fatos subsidiários e concorrentes de forma a mascarar o que efetivamente ocorreu e outros tantos mecanismos promotores da contrafação parecem constituir o núcleo fundamental da política. Ou, ao menos, da política conforme se pratica no Brasil.
Alguns dirão que isso não é peculiar à política, mas à política burguesa, e que outra política é possível, em que a falseação seja tornada menos provável pelo exercício constante da crítica.
Nunca vi isso acontecer. Usualmente, os cultores do “exercício da crítica” antiburguesa entregam-se a ginásticas igualmente falaciosas.
No Brasil, os contrários identificam-se nas mesmas práticas.
Quando há polarizações mais agudas, isso costuma produzir interpretações diametralmente opostas do mesmo conjunto de fatos. Uns entregam de um jeito e os outros entregam de outro jeito.
Raramente, acontece de duas motivações opostas convergirem para a mesma distorção. São exemplos que exibem o funcionamento da lógica da distorção.
Foi o que aconteceu com a história de Lula e os pizzaiolos do Senado.
Perguntado se a CPI da Petrobras terminaria em pizza, o presidente respondeu: “Depende. Todos eles são bons pizzaiolos”.
Imediatamente, a oposição a Lula tomou a frase como se referindo a eles, opositores, no que foram acompanhados por parte da imprensa. Folha e Globo (mas não o Estadão) noticiaram o fato como se Lula tivesse se referido especificamente à oposição.
Apoiadores de Lula, por sua vez, fizeram o mesmo, como se o presidente tivesse resguardado os integrantes de sua base de apoio.
Como uns e outros envolveram o mesmo fato com a mesma distorção, disseminou-se a idéia de que o episódio dos pizzaiolos teria constituído apenas mais uma escaramuça entre Lula e a oposição.
É fácil entender por que interessa à oposição ao governo apresentar-se como o alvo da observação presidencial. Fazem isso para atrair o foco para si próprios.
E é fácil entender por que interessa à situação dizer o mesmo. Fazem isso para não admitir que o presidente os leva tão a sério quanto leva a oposição.
Particularmente os apoiadores de Lula não se dão conta (ou não estão interessados em apontar essa circunstância, o que me parece mais provável) é que quem tem o poder de transformar uma CPI em pizza são principalmente os governistas, que têm maioria. É, a propósito, o que fazem governistas locais do Oiapoque ao Chuí, independentemente dos partidos a que pertençam e que “lado” do embate nacional integrem.
É impossível saber o que o presidente tinha em mente quando disse que no Senado todos são bons pizzaiolos, mas pode-se especular, acredito que com alguma plausibilidade, que da mesma forma que não interessa aos governistas examinar as operações da Petrobras muito de perto, o mesmo vale para os integrantes da oposição, que mandavam na Petrobras até pouco tempo atrás. O mais provável é que ninguém queira, na verdade, mexer com a Petrobras. Mas me desvio.
A contrafação resultante da transformação da fala da pizza em fala sobre a oposição tem o efeito de minimizar a dimensão da declaração de Lula.
Repetindo o que se opinou aqui anteontem (ver), Lula declarou seu desprezo à política brasileira de modo geral.
Apresso-me a esclarecer que não vejo nada de errado nisso. Lula disse-o bem.
O problema que se coloca quando se olha a coisa por esse ângulo é que levanta questões relacionadas à institucionalidade. Como fica a relação entre o Executivo e o Legislativo, que o próprio presidente da República desconsidera?
Fica onde se tem apontado sistematicamente neste blog: o Legislativo tornou-se um poder irrelevante no Brasil.
Como é que isso pode mudar?
Certamente, pelo voto. Mas o voto, por sua vez, não tem produzido resultados animadores. As Casas legislativas brasileiras estão repletas de gente que não poderia estar lá.
Isso se dá por uma convergência de motivos sócio-econômicos. Um povo miserável votará miseravelmente.
Disso não há escapatória, ao menos dentro das regras do jogo da democracia representativa à brasileira.
O que aponta para a necessidade de mudar essas regras. Se não mudarem, o que teremos será sempre mais do mesmo.
