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Arquivo de junho, 2009

18/06/2009 - 10:16

Oráculo deletério

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Há coisa de um mês publicou-se aqui uma nota, intitulada Sinais confusos, em que se comentaram as atitudes contraditórias do presidente Lula em relação à corrupção. Argumentou-se que, ao lado de evidentes progressos no combate e prevenção à corrupção empreendidos em seu governo, as manifestações do presidente a respeito do assunto transmitem a idéia de que, para ele, corrupção não é um problema.

Os sucessivos escândalos no Senado, quase todos envolvendo direta ou indiretamente o presidente da Casa, José Sarney (ver a nota Sarney para sempre), estimularam o presidente a mais uma declaração na mesma linha.

Do Cazaquistão, onde se encontra, Lula disse a respeito que “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, que “eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois não acontece nada” e perguntou “Mas o que ganharia o Senado em ter uma contratação secreta se tem mais de 5.000 funcionários transitando por aqueles corredores? Por que haveria de ter alguém secreto?”.

O presidente Lula tem um grau de popularidade imenso, superior a 80%. Acredito não haver exemplo mundial de um chefe de governo que tenha chegado ao final de dois mandatos com tamanho prestígio. Em geral, os presidentes e primeiros-ministros afundam-se cada vez mais na impopularidade à medida que se aproxima o final de seus governos.

A imagem imensamente favorável de Lula o transforma em oráculo. Suas falas não são debatidas pelo público em geral como acontece na imprensa e nos blogs (como este), que são consultados ou consumidos pela ínfima parcela da população com renda (e portanto todo o resto, incluindo-se instrução, consciência política, noção de seus direitos, noção de seus interesses etc.) suficiente para se interessar por discussões dessa natureza.

Não seria descabido especular que a esmagadora maioria do público recebe essas falas como orientações de conduta. Se quiserem, princípios morais.

A orientação que Lula exprime quando diz tais coisas é que corrupção, desmandos, abuso de poder, desfaçatez com a coisa pública são problemas menores.

Nem me ocupo de comentar o óbvio disparate de alguém com a história de Lula sair em defesa de alguém com a história de Sarney (como de Renan Calheiros, sócio nas empreitadas senatoriais e também beneficiário de absolvições presidenciais).

Se a conveniência política do governo o leva a firmar alianças com Sarneys, Renans e Romeros Jucás, então, em condições normais, numa situação como a dos escândalos do Senado, o máximo que esses aliados poderiam esperar (e cobrar) do presidente seria que este se mantivesse em silêncio.

Perguntado sobre a última falcatrua no Senado ou na Câmara dos Deputados, o presidente poderia perfeitamente negar-se a responder, com a frase padrão “não vou comentar algo que está ocorrendo em outro poder, pois poderia parecer interferência”.

Politicamente, o fato de Lula não ficar calado e, mais, minimizar os escândalos, parece apontar para uma vulnerabilidade do governo em relação à sua base de apoio parlamentar muito maior do que se poderia depreender das dificuldades legislativas em torno de CPIs, votações de seu interesse e assim por diante.

No julgamento do presidente, a coisa deve estar pretíssima para que ele se exponha publicamente da maneira como está fazendo. Mesmo assim, caso se sinta obrigado a defender Sarneys e Renans etc., haveria formas menos absurdas de fazê-lo.

Mas me desvio. Retornando ao assunto que justifica esta nota, as declarações de Lula disseminam a idéia de que o poder não apenas dá aos seus detentores o direito de cometer desmandos como ainda desqualificam a legitimidade da resistência a desmandos.

O que Lula tem feito nesse particular é uma irresponsabilidade sem tamanho. Caso se tratasse de um presidente com 10% de popularidade, a gravidade seria menor, mesmo que ainda não irrelevante. Para alguém com mais de 80% de popularidade, dotado de uma extraordinária capacidade de falar à alma popular brasileira, cultuado como messias por enormes parcelas da população, dizer as coisas que Lula diz tem efeitos devastadores sobre a capacidade de se melhorar o ambiente institucional brasileiro.

Ao se manifestar como tem feito, Lula trabalha contra o aperfeiçoamento do Estado e contra a edificação da consciência política da população.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/06/2009 - 10:46

USP reloaded

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Frase emitida por um dos docentes da USP ouvidos pela imprensa no day after do episódio PM vs piquetes de funcionários e estudantes tem voltado com insistência à mente deste que escreve.

Repetida por muitos e parafraseada por alguns daqueles que, ontem, protagonizaram ato promovido pela Associação dos Docentes da USP (mas no qual a participação, segundo os jornais, deveu-se esmagadoramente a estudantes), a frase encapsula os equívocos e contrafações que alimentam a atuação acadêmica de certo segmento da elite uspiana.

“A universidade é o lugar da palavra”, declarou aquele docente, ícone do que passa por determinada ciência social no Brasil.

Ora, a universidade é decerto também o lugar da palavra (a saber, da crítica e da expressão de inconformismo), mas essa não é, de forma alguma, a sua principal função.

A principal função da universidade é formar gente e produzir conhecimento.

No que tange a formação de conhecimento, alguns (nem todos, evidentemente) desses cultores da “palavra” nunca produziram coisa alguma que merecesse essa qualificação. O que produziram foi doutrina rasa e cansativamente repetida. Sequer sabem o que seja “conhecimento”.

Quanto à formação de gente, alguns, notórios, transformaram o ato de dar aula em espetáculo de auditório. Reúnem séquitos de seguidores cegos, surdos mas certamente não mudos. Produzem contingentes de indivíduos incapazes de pensar e ignorantes a respeito do que seja uma discussão racional. Com isso, transformam a famosa “atitude crítica” em embuste, perversamente usada como palavra de ordem.

Embora não respondam integralmente pelo virtual deserto que são as ciências sociais brasileiras, respondem por bastante.

Esses mandarins do pensamento uspiano pseudoprogressista estão também na linha de frente da brigada complacente cuja única preocupação é perpetuar a sua própria espécie através da aceitação de dissertações de mestrado e de teses de doutorado que não seriam acolhidas em ambientes acadêmicos dotados de um mínimo de seriedade.

A complacência não é decerto prerrogativa desse pessoal, sendo valentemente praticada a torto e a direito, na USP, em particular naquelas áreas de concentração vaga e cientificidade duvidosa.

A marcha inexorável da mediocridade se manifesta na invasão de áreas que no passado, por sua natureza, tendiam a ser menos permissivas.

[O estado de coisas no Instituto de Física da USP, por exemplo, é típico. A física corresponde ao que há de mais realmente relevante em qualquer universidade do mundo. É onde de fato se pode produzir conhecimento na acepção mais estrita da palavra. E o que acontece no IFUSP? Há algum tempo os grupos mais produtivos desse instituto têm procurado alternativas para deixá-lo e fundar outra instituição. O motivo? A invasão da mediocridade. O IFUSP é dirigido por um indivíduo que foi acusado de plágio, mas que foi escolhido por seus pares. E quem são os pares que o escolheram? São majoritariamente os indivíduos que compõem uma área bastarda do Instituto de Fisica chamada "Ensino de Física". Como "Ensino de Física" não é nada, nela reúnem-se aqueles que entram na Física mas são incapazes de fazer física. Não obstante, pela capacidade reprodutiva sempre mais vigorosa das mediocridades, reproduzem-se e invadem o ambiente.]

Voltando às vacas-sagradas do prestígio “humanístico” uspiano, como esse segmento reivindica para si o papel de esquerda e tem mais presença nos meios de comunicação, o resultado é que, na USP ao menos, a esquerda resulta identificada a eles, como se não existissem outros, no território da esquerda, que não agem e não se exprimem do mesmo modo complacente e auto-referente.

Esse pessoal empresta má fama à esquerda, a qual, se nos tempos que correm já anda por baixo, mais por baixo ainda resulta pela ação dessa gente.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/06/2009 - 09:28

Sarney para sempre

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A eleição do senador José Sarney para a presidência do Senado, na abertura do ano legislativo, desencadeou um processo de exibição periódica de mazelas daquela Casa.

Como é sempre melhor saber, ainda que parcialmente, do que não saber, e como a exibição de casos escabrosos parece estar sendo estimulada pela presença de Sarney na presidência, daí se deduz que, se Sarney não ocupasse o cargo, os casos não apareceriam.

O que leva à conclusão de que, ao menos sob esse ponto de vista, melhor é ter Sarney ali para sempre.

Entre os escândalos recentes, estiveram:

♦ O caso do diretor-geral Agaciel Maia, guindado à função por Sarney anos atrás e detentor de patrimônio incompatível com a sua renda. Maia foi apeado da função mas não destituído de privilégios. No fim de semana que passou, Sarney foi padrinho de casamento da filha do ex-diretor-geral.

♦ Depois, apareceu o caso do diretor de recursos humanos, João Carlos Zoghbi, metido num negócio com bancos que fazem empréstimos consignados a funcionários do Senado. Zoghbi também é da turma do Sarney.

♦ Houve ainda a história de um auxílio-moradia que Sarney mordeu durante meses sem ter direito a isso (pois tem casa em Brasília), tendo o presidente do Senado declarado que nem se dera conta (R$ 3.800 por mês). Imagine-se quanto deve entrar na conta de uma pessoa para que ela não se dê conta de um ingresso adicional dessa ordem.

♦ Surgiram ainda as nomeações secretas de pessoas para ocupar cargos em gabinetes de senadores e na estrutura do Senado.

♦ Hoje apareceu a história de que Sarney “emprestou” um apartamento funcional para um ex-senador.

Como sempre tem acontecido, a cada vez que aparece um caso desses os senadores de modo geral afirmam que não sabiam.

Do que se depreende que eles não sabem nada do que acontece anos a fio debaixo de seus narizes.

Habituados ao compadrio, ao aproveitamento escancarado de recursos públicos para seus fins privados, testemunhas cotidianas de tramóias praticadas por colegas e por funcionários da Casa, esses senadores mostram mais uma vez que não poderiam estar lá.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/06/2009 - 08:47

Ladeira abaixo

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O episódio em que a Polícia Militar foi mobilizada para cumprir ordem judicial de reintegração de posse de próprios da Universidade de São Paulo oferece oportunidade para se compreender alguns dos motivos pelos quais essa instituição entrou em coma. Alguns desses sinais se encontram nas manifestações de professores da USP que vieram a público para recriminar a ação policial.

♦ Preliminarmente, observe-se que a Reitoria da Universidade não tinha outra alternativa senão recorrer à Justiça para garantir a liberdade de ir e vir dentro de seu campus, comprometida pela ação de piquetes de funcionários e estudantes.

♦ Isso levou à ação da Polícia Militar, a qual, como de hábito, não sabe como agir. Da mesma forma como se comporta toda vez que é chamada a intervir (como, por exemplo, em estádios de futebol), a PM demonstrou não dispor de treinamento para lidar com multidões. Seu método é usar o cassetete. Demonstra isso dia sim, dia não nos estádios de futebol e demonstrou de novo na USP. Disciplinar a PM é um problema não resolvido pelos governadores que se sucedem.

♦ Alguns daqueles que se manifestaram publicamente sobre o ocorrido para reclamar — com razão — da violência policial foram além, reclamando da própria presença da polícia. Para eles, a Universidade deveria permanecer out of bounds para a polícia. Qualquer assunto relativo à USP deve, em sua visão, ser resolvido intra-muros.

♦ Esses oráculos do esquerdismo infanto-juvenil da USP demonstram, com isso, o tamanho de seu elitismo. A Universidade, para eles, é deles. Para quem lhes paga o salário, ou seja, nós, uma banana.

♦ Alguns exigiram a demissão da reitora. Que essa reitoria da USP é uma incompetente, poucos discordariam. Mas essa reitora não é incompetente por ter entrado no Justiça para defender a instituição da ação predatória dos grevistas. Ela é lamentável a começar da forma como foi conduzida ao posto — numa eleição em que votaram professores, funcionários e alunos.

♦ Quem inventou esse monstrengo pseudodemocrático da eleição de reitores e diretores foram exatamente esses que hoje reclamam da incompetência da reitora. Mas o que queriam? Se o reitor é eleito por gente que não tem a menor idéia do que é exigido de alguém que deva dirigir uma organização qualquer, que dizer de uma universidade que tenha auto-respeito, só se pode esperar desse indivíduo que seja um demagogo incompetente.

♦ Se o reitor de uma universidade é eleito pela “comunidade universitária”, é inevitável que o eleito chegará ao cargo por meio de acochambramentos com entidades de funcionários, facções estudantis e corporações acadêmicas preocupadas fundamentalmente com a “carreira”.

♦ Nada disso é respeitável e não merece respeito.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/06/2009 - 08:29

Discórdia na Cultura

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Primeiro, uma breve: Confirmando o que foi aqui especulado que ocorreria, a Petrobras recuou da decisão de publicar perguntas e respostas antes dos veículos e manteve (acertadamente, no meu entender) a publicação a partir das 0h00 do dia seguinte. O assunto, portanto, morreu. Agora é ver se esse blog da Petrobras vai de fato servir para comparar a cobertura dos jornais com as respostas que a sua assessoria de imprensa prepara ou se, como é usual nessas febres instantâneas de Internet, o fervor da galera arrefecerá com o desaparecimento da “causa”. Também será interessante observar se a Petrobras vai publicar o que procura “plantar” na imprensa e se vai comportar-se da mesma forma em relação a reportagens de veículos estrangeiros importantes para seu posicionamento como empresa energética transnacional.

Na segunda-feira passada, este que escreve participou de um debate promovido pelo Ministério da Cultura (MinC) a respeito de proposta de modificação da Lei Rouanet.

Foi um caos. Uma Babel, no sentido quase literal, pois ninguém se entendeu, em grande parte porque muitos não estavam de fato interessados em entender alguma coisa e, por outro lado, o tempo dedicado a exposições foi excessivo e aquele dedicado a perguntas foi escasso.

A Lei Rouanet estabelece um mecanismo segundo o qual projetos na área cultural são submetidos ao MinC e, se aprovados, passam a fazer parte de um cadastro.

Empresas interessadas em apoiar os projetos constantes do cadastro podem então fazê-lo, por meio de renúncia fiscal. A saber, em vez de recolher ao fisco parte dos impostos que devem, transferem esse dinheiro aos projetos.

O MinC quer mudar a lei porque, segundo suas análises, o mecanismo padece de alguns defeitos (apenas repíto o que diz o MinC, sem subscrever ou deixar de subscrever):

1. O mecanismo, que serviria para estimular o mecenato (investimentos privados na cultura), não atingiu esse objetivo. A quase totalidade dos recursos provém da renúncia fiscal (ou seja, quem paga é o Tesouro) e, quando há real investimentos de empresas, provém majoritariamente de estatais e não do setor privado.

2. As iniciativas beneficiadas pelo mecanismo concentram-se nas regiões ricas do país. As regiões mais pobres praticamente não são contempladas.

3. Os tipos de iniciativas apoiadas tendem a concentrar-se nas áreas de interesse mercadológico das empresas, o que implica favorecimento de teatro, cinema, dança culta, algo de artes plásticas, tudo voltado para o público de alta renda das regiões ricas, como apontado acima.

A proposta de alteração promovida pelo MinC tem a intenção de alterar esse padrão. Baseia-se, para isso, na noção de “diversidade”. A idéia é estimular manifestações que, embora não tenham apelo comercial, mereçam injeções de ânimo de acordo com algum critério (não especificado).

Este que escreve não é realmente capacitado a discorrer sobre “diversidade” (de fato não tenho apreço por essas noções), de modo que remeto aos argumentos do MinC, que podem ser lidos aqui.

Pois bem, o debate iniciou-se com falas de algumas pessoas (o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o ministro da Educação, Fernando Haddad, o presidente do Tribunal de Contas da União, Ubiratan Aguiar, o professor Renato Ortiz, da Unicamp, a professora Maria Victoria Benevides, da USP, e este que escreve).

Essa abertura demorou tempo demais. O ministro Juca apresentou seus argumentos e o ministro Haddad estabeleceu a relação cultura-educação. Não entendi bem o que disse o professor Renato Ortiz. Maria Victoria Benevides e Ubiratan Aguiar reforçaram os méritos (conforme seus pontos de vista) do projeto do MinC.

Este que escreve eximiu-se de argumentar a favor ou contra os pressupostos da proposta do MinC, limitando-se a apontar vulnerabilidades à integridade do novo mecanismo proposto, quase todas incidentes também sobre o mecanismo atual. São elas:

1. O projeto incorpora a ideia de que a aprovação de projetos seria feita por uma comissão de que participariam agentes culturais. Isso configura conflito de interesse e não é recomendável.

2. A inexistência da exigência de que projetos sejam acompanhados de indicadores de desempenho.

3. A conveniência de se introduzir a exigência de que os projetos aprovados incluam auditoria externa, como está se tornando padrão nos financiamentos de agências internacionais.

4. A necessidade de o MinC instituir mecanismos de controle mais adequados, para detectar fraudes que são notoriamente comuns na aplicação da Lei Rouanet (projetos são nominalmente apresentados como custando X, mas na verdade custam metade de X; a empresa aproveita a renúncia fiscal de X e não de metade de X, fraude essa que também possibilita a intermediários ficarem com cifras que chegam ao dobro do admitido).

5. A necessidade de o MinC reduzir o papel da intermediação entre proponentes de projetos e empresas potencialmente financiadoras, de forma a reduzir os custos de transação.

Ao mencionar as fraudes no sistema, diversas pessoas da platéia se indignaram, estabelecendo-se uma celeuma. Não sei quem eram essas pessoas, mas não se pode deixar de observar ser curioso que alguém negue a ocorrência de problemas cuja existência é conhecida até pelas pedras do caminho.

Após as intervenções das pessoas da mesa, abriu-se a palavra para a platéia. O resultado foi uma baderna, para a qual contribuiu o próprio MinC, que não soube conduzir o processo.

Não entendi grande parte do que se afirmou e se reclamou. Da parte que entendi, havia um grupo de pessoas que se apresentavam como integrantes de um movimento que se apresentou como sendo de “trabalhadores da cultura”, os quais reivindicavam que as decisões sobre projetos a serem apoiados pelo governo deveriam ser feitas por representantes eleitos por eles, trabalhadores da cultura. Ou seja, uma bobagem sem fim.

Também entendi o melhor dos questionamentos apresentados, o do ator Odilon Wagner, presidente da Associação de Produtores Teatrais Independentes, que criticou os números apresentados pelo ministro Juca Ferreira e tentou argumentar no sentido de que a produção cultural não pode ser dissociada da distribuição da riqueza no país, sendo portanto natural que os investimentos tendam a ser mais pesados nas áreas mais desenvolvidas.

Esse, sim, seria o debate adequado para a proposta de alteração da lei.

No entanto, uma discussão racional em torno disso foi impossível na ocasião. Entre “trabalhadores da cultura” que berravam ao microfone (demonstrando desconhecerem a própria função de um microfone), intermediários de projetos culturais com motivação argentária e alguns outros que pareciam claque do MinC, não havia possibilidade de vida inteligente.

Fica a impressão de que há terreno para alterações na Lei Rouanet, que os pressupostos do MinC são em parte fantasiosos, que o MinC precisa melhorar seus mecanismos de controle e que a discussão não está bem parada.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/06/2009 - 08:18

O blog da Petrobras e a praga das assessorias de imprensa

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A respeito do tal blog da Petrobras, ontem escreveu-se neste espaço que:

1. Ao publicar perguntas de jornalistas e as respostas oferecidas antes que os veículos publiquem as suas matérias, a Petrobras não descumpre nenhum princípio de relacionamento com a imprensa.

2. Contudo, como a Petrobras precisa da imprensa por causa de suas relações com o mercado, não creio que a atitude durará. É provável que a empresa volte atrás.

3. A Petrobras deveria continuar a publicar perguntas e respostas após a publicação das matérias correspondentes pelos veículos, pois isso pode ajudar a melhorar a qualidade da produção de jornalistas e de jornais.

Observo que a prática poderia ser adotada por outras empresas e organismos do Estado.

Muito bem, abordada a questão sob o ponto da cobertura jornalística, vejamos agora o “outro lado”, a saber, o que o blog da Petrobras mostra a respeito da… Petrobras. Decerto não era essa a intenção dos dirigentes da Petrobras ao desencadear a iniciativa, mas uma consequência direta é também mostrar como a empresa não responde a perguntas.

O blog tem uma categoria de notas intitulada “Respostas da Petrobras”, em que se exibem as tais perguntas e respostas. É instrutivo examinar esse material.

Tomo dois ou três exemplos. Em vermelho, perguntas que não são de fato respondidas, mas embromadas. (Não são todas assim, mas uma quantidade demasiada é. Convida-se o eventual visitante a verificar por si mesmo.)

Folha de S. Paulo, 4/6/2009:

Pergunta: A Aepet reclama ainda da grande quantidade de dirigentes da FUP ocupando cargos de gerência ou assessoramento na Petrobras e também na Petros.
Resposta: Na Petros, todos os profissionais são capacitados tecnicamente para a função que exercem, inclusive na Direção, onde a lei exige experiência profissional e curso superior.

Pergunta: Qual a explicação da Petrobras para a nomeação de sindicalistas para cargos de gerência ou direção na companhia?
Resposta: Todos os gerentes e diretores da Petrobras são empregados concursados, atuaram em diversas áreas e têm no mínimo 10 anos de empresa.

O Globo, 1-2/6/2009:

Perguntas: Como é a estrutura de comunicação da Petrobras? Detalhar essa estrutura. Está ligada direto à presidência? Quantos profissionais ao todo trabalham na assessoria de imprensa? Desses, quantos são funcionários concursados, e quantos são contratados? Especificar quantas trabalham na assessoria, seja em atividades internas como site, etc., seja para atender imprensa, etc. Qual é a estrutura nas diretorias e subsidiárias (tem diretoria que publica boletins internos, e tem assessores específicos como na diretoria de Gás, Engenharia, E&P, além dos assessores diretos da presidência, etc.). Por que a Petrobras contratou a CDN? O pessoal próprio já não seria suficiente para atender a demanda da CPI?

Resposta: A Petrobras possui várias gerências de comunicação tanto na holding quanto nas subsidiárias. Na sede, além da Comunicação Institucional ligada ao presidente, existem gerências de comunicação ligadas às diretorias de Exploração e Produção (E&P), Abastecimento (ABAST), Gás e Energia (G&E), Serviços (SERV), Financeiro (FIN) e Internacional (IN) que atuam de forma independente para atender suas necessidades.

Além destas gerências corporativas na sede ainda existem as regionais que cuidam das comunidades vizinhas às instalações da Companhia. São nove unidades de negócio do E&P (áreas de produção de petróleo e gás) espalhadas pelo país, 16 refinarias e 3 fábricas de fertilizantes do ABAST, e os empreendimentos da engenharia (SERV). A área internacional (IN) possui estruturas de comunicação na Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Estados Unidos e outros países, além das subsidiárias Transpetro, com terminais em todo o país e Petrobras Distribuidora, com escritórios nas grandes capitais. No total são cerca de 1.150 pessoas, sendo 400 na Comunicação Institucional e 750 nestas outras áreas da empresa entre empregados concursados e profissionais contratados.

A Petrobras, assim como toda grande empresa, possui um Sistema de Comunicação de Crise com o objetivo de comunicar-se de forma ágil, objetiva e transparente, buscando atender às demandas de informação de seus públicos de relacionamento principalmente em situações de crise. O Sistema foi criado por norma, aprovada pela diretoria em 2002 e desde então atua em todos os momentos mais importantes como acidentes, greves ou outros assuntos de maior relevância que em, muitos casos, exigem a contratação de agências externas de forma a garantir o pleno atendimento a todas as demandas de comunicação.

Como se percebe nesses exemplos, a publicação das respostas da Petrobras ajuda também a perceber que a empresa procura esquivar-se de questionamentos que lhes são dirigidos e para os quais não tem ou não quer dar as respostas. Saber isso é também útil para a informação do público.

Assessorias de imprensa

Outra peculiaridade interessante diz respeito ao título desta nota: a praga jornalística de aceitar que assessorias de imprensa funcionem como fontes legítimas de informação.

Ao apresentar as perguntas dos jornalistas e as respostas que produz, o blog da Petrobras abre informando que “Em x/x/2009, o jornal Y entrou em contato com a assessoria de imprensa da Petrobras para produção de uma matéria sobre o assunto Z. As perguntas do(a) jornalista e as respostas da Petrobras estão disponíveis a seguir”.

No que se constata que jornalistas entram em contacto com a assessoria de imprensa da Petrobras para formular perguntas, mas as respostas não vêm dos funcionários da empresa que de fato são responsáveis por algo objetivo e sim da própria assessoria de imprensa.

As afirmações constantes das respostas não são atribuíveis a ninguém, mas “à Petrobras”. (Quando se lê esse tipo de coisa, aprenda o eventual visitante que quem forneceu as informações não foi alguém que faça algo de relevante nas empresas e ministérios e secretarias etc. etc., mas um assessor sem responsabilidade sobre coisa nenhuma.)

No material que a Petrobras publica em seu blog não há uma única menção a respostas fornecidas por pessoas que efetivamente exerçam responsabilidades concretas na empresa — nem mesmo no caso de um gerente (Wilson Santarosa, que ao que parece é o czar da “Comunicação Institucional” da Petrobras) nominalmente mencionado em perguntas como “escalado” para a tropa de choque anti-CPI. Quem responde a perguntas sobre o sr. Santarosa não é o sr. Santarosa, mas algum assessor de imprensa que permanece anônimo.

Essa prática, de assessores de imprensa assumirem papéis que não lhes cabem, desvirtua a função da assessoria de imprensa. A principal responsabiliade por esse desvirtuamento é da imprensa, ao aceitar que esses intermediários assumam papéis que não são deles.

A justificativa de existência de assessorias de imprensa em organizações grandes deriva da necessidade de direcionar internamente as demandas que vêm da imprensa. Um repórter não sabe necessariamente quem na empresa responde por isto ou aquilo. A assessoria de imprensa serve, em princípio para isso.

Outras atividades que assessorias de imprensa oferecem a seus clientes incluem “cavar” matérias, arranjar almoços de executivos com jornalistas, pressionar editores em nome da empresa ou órgão público e outras intermediações desse tipo.

Alguns assessores de imprensa limitam a sua atividade à função primordial, que justifica a sua existência. Muitos, porém, são na prática lobistas, atravessadores, traficantes de influência.

Embora apresentadas como “facilitadoras”, grande parte das assessorias de imprensa contratadas por empresários e por burocratas do Estado na verdade tem a função de erigir uma barreira entre o fulano e a imprensa. Não trabalham em favor do fluxo de informações, mas no sentido oposto.

Tome-se um só dos exemplos replicados acima. Se a resposta embromatória à pergunta “Qual a explicação da Petrobras para a nomeação de sindicalistas para cargos de gerência ou direção na companhia?” proviesse de Fulano de Tal, diretor da área Sicrana da Petrobras, o jornal lascaria lá, com toda razão: “Perguntado, o diretor Fulano de Tal não quis responder”. (Na verdade, o que passa por objetividade jornalística hoje em dia proibiria usar o verbo “querer”, pois “querer” é subjetivo. Escreveriam, em vez, “não respondeu”.)

Frente a tal possibilidade, é de se duvidar que a Petrobras (ou qualquer outra empresa, estatal ou privada, ou burocrata governamental) tratasse certas demandas da imprensa como trata. Alguém seria responsável pela embromação, e esse alguém teria de responder a seus pares, chefes, acionistas etc. pelo que tivesse deixado de declarar ou informar.

Observe-se que o estado de coisas vigorante poderia ser facilimamente neutralizado pelas empresas jornalísticas. Bastaria a elas recusar-se a aceitar que suas perguntas, questionamentos, solicitações de dados e assim por diante fossem atendidas por assessores de imprensa.

Empresas e burocratas poderiam continuar a contar com essas assessorias, mas agora colocadas no seu lugar devido, a saber, o de identificar quem na estrutura da empresa ou do órgão público melhor poderá responder às demandas da imprensa e, a partir daí, tirar o time de campo.

Observo que assessores de imprensa não falam em noticiosos de televisão ou rádio: quem fala é alguém responsabilizável. Por quê jornais impressos e noticiosos de Internet aceitam o que as TVs não aceitam?

O diabo seria lidar com as relações de dependência mútua que se criaram nas redações entre muitos repórteres e os assessores de imprensa das áreas que cobrem. Um jornal que adotasse a prática de eliminar assessores de imprensa como fontes de reportagens enfrentaria uma penca de problemas internos.

Ainda assim, valeria a pena. Os leitores agradeceriam.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/06/2009 - 07:56

O blog da Petrobras

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Anda causando celeuma a decisão de Petrobras de publicar, num blog, as perguntas que lhe são formuladas por escrito pela imprensa, bem como as respostas dadas.

O endereço do tal blog é http://petrobrasfatosedados.wordpress.com.

A justificativa que a empresa apresenta para a iniciativa está publicada aqui. Destacam-se os seguintes pontos:

A relação entre a Petrobras e os veículos de comunicação que a interpelam é essencialmente pública.

A publicação das respostas no blog, antes da decisão editorial de o jornal publicar ou não a reportagem em questão, reforça o objetivo da Petrobras de alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse.

A agilidade no tratamento e no encaminhamento das respostas ao sempre legítimo questionamento da imprensa demonstra também o compromisso da Cia em prestar todos os esclarecimentos a ela solicitados.

A Petrobras tem liberdade para publicar a íntegra das respostas que fornece aos veículos de comunicação porque é fonte e detentora dos dados disponibilizados.

Os jornais não gostaram. A Associação Nacional dos Jornais, que reúne as empresas proprietárias desses órgãos, soltou ontem uma nota em que  afirma:

Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.

A atitude da Petrobras estimula uma porção de observações.

1. Não há problemas com as justificativas da empresa.

2. Não procede a reclamação da ANJ, de que a Petrobras teria rompido algum compromisso de confidencialidade entre a fonte e o veículo de imprensa. Esse compromisso nunca existiu. O que existe é o princípio de resguardo da fonte por parte de jornalistas. Não existe dever subjetivo da fonte de resguardar o jornalista. As fontes não estão presas à confidencialidade que a ANJ menciona.

3. Qualquer pessoa que já tenha sido fonte da imprensa sabe que entre o que se informa (por declaração, por escrito ou num relatório formal) a um jornalista e aquilo que sai publicado vai uma distância. Quando o repórter é um profissional correto, e quando o veículo em que trabalha também é, essa distância é geralmente pouco relevante. No entanto, em particular na imprensa escrita e nos noticiários da televisão, o processo de edição, em que se corta muito do que a fonte informou, pode levar a citações fora de contexto ou incompletas. (Já quando jornalista e/ou veículo são desonestos, o que sai publicado é qualquer coisa.) Assim, de modo a resguardar aquilo que se informou à imprensa, a iniciativa de publicar perguntas e respostas pode contribuir para a melhoria das práticas profissionais da área.

4. Na prática, o que a Petrobras passou a fazer tem consequências sobre a capacidade de órgãos da imprensa “furarem” seus concorrentes. Se a Petrobras publica as perguntas formuladas por um jornal assim que envia as respostas, bastará ao jornal concorrente consultar sistematicamente o blog da Petrobras para não ser “furado”. Isso tende a uniformizar o noticiário e a reduzir o estímulo para que os veículos busquem levantar assuntos inéditos. Quem perde com isso é o leitor.

5. Ao tomar a iniciativa que tomou, a Petrobras não disse o que fará em relação às informações que passa com exclusividade a jornalistas por sua própria iniciativa. O princípio deveria ser o mesmo — se a ideia é comunicar-se com o público sem a intermediação dos veículos de comunicação, então essas notícias “plantadas” precisariam também ser divulgadas no blog da empresa assim que formuladas por sua assessoria de imprensa.

6. De toda forma, ficará fácil verificar se a empresa procurará resguardar essas informações que distribui com exclusividade, pois se algo for publicado em algum veículo e a notícia disso não tiver sido divulgada previamente pela Petrobras, estará configurado o uso de dois pesos e duas medidas.

7. Em particular, é bom ver o que acontecerá com as informações prestadas pela Petrobras a veículos e agências noticiosas internacionais. Será mesmo que a empresa vai “furar” a Reuters, a Associated Press, o Financial Times, a Economist? Não é de se crer.

8. Embora pareça claro que a iniciativa da Petrobras vem como reação à CPI montada para investigar as suas operações, a tensão criada com os jornais não deverá persistir, pois não interessa à própria Petrobras. Por mais que a política de comunicação do governo federal tenha se voltado preferencialmente aos pequenos veículos locais e regionais, a Petrobras não pode prescindir da chamada “grande imprensa”, porque os investidores do mercado não lêem o Democrata de Xixirica da Serra, mas o Globo, o Estadão, a Folha, o Valor.

9. Por isso, é provável que a empresa recue da decisão de divulgar as perguntas e as respostas antes que os veículos publiquem as reportagens correspondentes.

10. Contudo, em favor da melhoria da qualidade da imprensa, a Petrobras deveria continuar a fazê-lo após os veículos terem publicado as suas histórias.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/06/2009 - 11:19

Visibilidade do Judiciário

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O Judiciário brasileiro é geralmente encarado como o mais opaco dos poderes. Pouco se conhece sobre quase tudo o que ocorre nos tribunais.

Essa situação, porém, está mudando aos poucos, em parte devido à ação do Conselho Nacional de Justiça, que tem baixado normas para garantir a visibilidade do processo judiciário nos Tribunais de Justiça estaduais na Internet.

Isso é importante porque em diversos estados os Tribunais sequer publicam na rede os processos que correm ou mesmo os acórdãos (decisões) a que chegam.

A visibilidade que assim se busca ainda não atinge aspectos importantes da atuação judicial, entre os quais os seus índices de desempenho, os seus padrões de gastos, os “assessores” que contratam, quanto ganham, onde estão lotados, o que fazem e assim por diante.

Contudo, em meio ao quadro geral de opacidade, encontram-se exceções.

Uma delas é o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o qual publica na Internet algo que não se encontra em nenhum outro Tribunal brasileiro, nem mesmo na esfera federal: indicadores de desempenho.

Logo na capa do sítio de Internet to TJ-RJ há um link para a área de Produtividade do TJRJ, em que se encontram informações detalhadas sobre diversos aspectos da atividade do Tribunal.

Informam-se números a respeito dos processos distribuídos a cada desembargador, os processos julgados, os tempos médios de decisão de cada um e assim por diante.

Esses dados permitem realizar análises estatísticas para verificar uma série de diferentes características da ação desse Tribunal.

No gráfico, por exemplo, estão representadas os intervalos de tempo médios de permanência de processos com os 177 desembargadores do TJ-RJ. As colunas representam o número de desembargadores cujos tempos médios de decisão entre maio de 2008 e abril de 2009 corresponderam a intervalos de até 0 dias, de 0 a 10 dias etc.

Verifica-se, assim, que a maioria dos desembargadores do Rio de Janeiro resolve seus casos numa média inferior a 20 dias. Na outra ponta da escala, há 22 desembargadores com médias superiores a 60 dias (no período considerado).

Ao se compararem desempenhos, pode-se cobrar do Tribunal e dos desembargadores em questão que melhorem sua produção.

Esse é apenas um exemplo de análise que se pode realizar quando existem dados.

A grande quantidade de informações que se pode extrair dos relatórios do TJ-RJ justificaria a formação de algum grupo dedicado exclusivamente a realizar o monitoramento do Tribunal.

Esse é o tipo de coisa que as ONGs poderiam fazer com mais intensidade do que estão acostumadas.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/06/2009 - 08:48

Breves

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Linguístico-correta

Ontem, 5 de junho, foi o dia do meio ambiente. A ocasião serviu para que autoridades, empresas e outros se entregassem a manifestações desabridas de correção política.

Tudo é verde, sustentável, preservativo, respeitoso, igualitário, distributivo, inclusivo, empoderante.

Vejo um anúncio da Vale. Afirma o seguinte: “1ª mineradora do mundo a zerar seu footprint”.

Que raio é isso? O que é “footprint” de uma empresa? Em que país estamos? Aqui se fala inglês ou o quê?

Por que diabos esses empresários e publicitários e internecistas e programadores e comunicadores tanto insistem em usar palavras e frases de um idioma que é compreendido por uma parcela ínfima da população? — parcela essa que, aliás, não inclui esses mesmos empresários, publicitários etc. etc.

Quando esses camaradinhas tentam falar aquilo que escrevem ou mandam escrever é um espanto. O mesmo cara que manda ver slogans na língua do Bardo, quando tenta balbuciar aquelas mesmas palavras produz um desastre constrangedor.

Que paisinho ridículo este.

Jornalístico-ortográfica

Este que escreve não acompanhou, mas a tal de reforma ortográfica deve ter produzido muitas discussões em blogs, comunidades, twitteres e outros mais. Logo, não me estenderei. Faço apenas três observações:

♦ O pior dos piores dessa reforma foi sumir com o acento agudo que existia na terceira pessoa do singular do verbo parar. Antes, o tituleiro (o cara que escreve os títulos das notícias nos jornais impressos) lascaria “Ronaldo pára o Palmeiras”. Hoje, se escrever “Ronaldo para o Palmeiras”, dirá coisa totalmente diversa.

♦ No fundo, num país que aceita que os tradutores de filmes sejam semianalfabetos (tem hífen isso? não sei mais), em que os anúncios publicitários, as indicações de trânsito, os trajetos dos ônibus, os ofícios e cartas e lembretes sejam redigidos de acordo com convenções gramaticais e ortográficas idiossincráticas (isso foi um modo bizantino de dizer que cada qual escreve como quer), notadamente quanto ao uso de vírgulas como se fosse orégano na pizza e quanto aos acentos graves em “a” (categoria em que se inclui a confusão entre o artigo, a preposição, a contração entre um e outra e a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo haver), reforma ortográfica passa reto por quase 100% da população — e nisso se inclui praticamente todo o contingente que fez algum curso superior.

♦ Caso não fosse previsível dada a esculhambação geral, seria inacreditável permitir-se que uma reforma ortográfica fosse, como foi, decidida por dicionaristas, que vêm a ser os maiores beneficiários financeiros da brincadeira.

Onomástica

Uma das características do idioma italiano standard, a língua mais bela do mundo (originalmente o dialeto da Toscana; os habitantes de Siena dizem que o berço foi lá), é exigir a pronúncia de todas as vogais e a articulação precisa das consoantes.

Digamos, a palavra “bresaola” (carne seca temperada, originariamente da Valtellina, na Lombardia, usualmente fatiada). O “o” nesse tipo de palavra provoca certas dificuldades para o falante do português. Para um paulista, por exemplo, sai mais ou menos “bresáula”. Mas dá para dizer “bresáola”. É só prestar atenção, acentuar o “a” e pronunciar explicitamente o “o” aberto.

De uns tempos para cá, uma porção de gente batizou suas filhas de “Paola”, com “o” em vez de “u”. Decerto foi influência de alguma novela. Mas o nome é o mesmo.

Paolo/Paola são tradicionalíssimos nomes italianos. No Canto V do Inferno, Dante conta a história de Paolo e Francesca, amantes condenados por toda a eternidade a serem transportados por uma violenta tempestade, simbólica da paixão que os consumira em vida.

“Santa Paula”, em português, corresponde a “Santa Paola” em italiano. Ou melhor, o contrário, já que as diversas Paolas que viraram santas eram todas originárias da Bota.

Enfim, é curioso notar que, em vez de chamar a filha de Paola, conforme está escrito (“Páola”), os perpetrantes brasileiros dizem “Paôla”.

Com isso, um nome que é belíssimo se transforma numa contrafação inexistente em qualquer língua. “Paôla” não é português nem italiano nem nada.

Assim, para as eventuais Paolas que passarem por este espaço, sugere-se que instruam os circundantes a pronunciarem seu nome direito: “Páola”.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/06/2009 - 10:58

Caixa-preta on line (2)

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As patentes de caixa-preta remota mencionadas na nota anterior são motivadas não pelo simples registro dos eventos de vôo, mas na integração com mecanismos muito mais elaborados de controle remoto dos aviões.

A idéia é permitir a um operador tomar o controle do avião quando há motivos para acreditar que alguma circunstância a bordo impeça o piloto ou co-piloto de evitar um acidente, ou que eles não estejam se dando conta do perigo iminente.

Um sistema de intervenção remota no controle de aviões seria evidentemente muito mais caro.

Conforme um dos proponentes da adoção desse gênero de solução (a Safelander), a justificativa vem das estatísticas.

Entre 1987 e 1996, houve no mundo 136 acidentes de aviação com um total de 7484 mortes. Boa parte desses acidentes se deveram a erros evitáveis caso o controle dos aviões pudesse ter sido assumido por um operador em terra. A tabela descreve os tipos de causas:

Tipo de acidente fatal Acidentes Mortes
Choque contra o terreno sem perda de controle 36 2396
Na aproximação 957
Perda de controle no vôo 38 2228
Incêndio em vôo 4 760
Sabotagem 5 607
Choque no ar 2 506
Sequestro 8 306
Gelo/Neve 5 162
Aterrissagem 9 128
Golpe de vento 3 119
Esgotamento de combustível 7 113
Desconhecidos 14 111
Choques na pista 4 45
Decolagem frustrada 1 3
Total 136 7484
Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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