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26/06/2009 - 10:09

Bode na sala

Apanhados na farra das nomeações secretas praticadas no Senado por anos a fio, os senadores brasileiros estão encontrando a saída para o problema: ejetar o presidente da Casa, José Sarney, de sua cadeira.

Sarney não apenas nomeou e apadrinhou os funcionários da Casa implicados com essa e com outras práticas como também aparece como beneficiário de diversas dessas nomeações. Outros comportamentos voltados para o benefício próprio e de membros de sua família lhe são atribuídos.

Ontem, o senador Pedro Simon foi à tribuna pedir a renúncia de Sarney (este não estava presente, tendo se recolhido ao lar).

É interessante examinar algumas das circunstâncias que cercam o episódio e a “solução” que se avizinha. O passeio ilustra o circo do absurdo em que se transformou a política brasileira. Nada faz sentido, consequências não se relacionam a causas, uma neblina mefítica borra os contornos dos protagonistas. Nós, palhaços, assistimos.

1. Conforme se escreveu neste espaço uns dias atrás (ver), parece que as denúncias de malfeitorias que surgiram ao longo de todo o ano tiveram como motivação o fato de Sarney ter ascendido à Presidência do Senado. Se não tivesse sido ele o eleito, talvez esses cadáveres escondidos nas saletas brumosas do Senado não tivessem vindo à luz.

2. Não é possível acreditar nos protestos de senadores que afirmam desconhecer o que acontecia. Esses sujeitos todos estão lá há anos e nenhum deles é bobo. Muito ao contrário, são espertíssimos. Independentemente disso, a questão não seria saber X ou Y, mas diz respeito ao dever de saber. Os senadores e a Mesa Diretora têm o dever de saber o que acontece na Casa deles (ou melhor, na Casa em que são inquilinos; a Casa é nossa, não deles).

3. Até agora não apareceu a lista dos nomeados. Pudera. Imagine-se quem estará nela. Não é nada improvável que não escape um só senador. Os casos específicos são vazados a conta-gotas. Nesse sentido, tem razão o senador Sarney. Ele é o alvo preferencial. Deixo o desvendar das motivações políticas para isso para quem entende do assunto. Não é meu caso.

4. Enquanto corre a operação derruba-Sarney, pode-se ter certeza de que grande parte dos senadores trabalha freneticamente para evitar a identificação dos seus cupinchas, parentes, namoradas e namorados nomeados de forma ilegal. A imaginação tonteia ao especular sobre as promessas, compromissos, barganhas, achaques e ameaças que neste momento cruzam os corredores do Senado em busca da supressão de nomes da lista. Afinal, quem nomeia gente em segredo também em segredo elimina nomes de listas.

5. A esta altura, não é impossível que o Senado se dedique em peso a dar lances num leilão: para eliminar o nome de uma namorada clandestina da lista, R$ 2 mil; parentes em primeiro grau, R$ 1 mil; cupinchas, R$ 500. Quem dá mais?

6. No esforço de se desreponsabilizarem, alguns senadores apareceram com desculpas do arco da velha. Uma das mais extraordinárias partiu do líder do PSDB, Arthur Virgilio (AM). Disse ele que o fato de nomeações terem sido mantidas em segredo tinha como objetivo municiar funcionários com armas para achacar os senadores cujos cupinchas, namoradas etc. etc. foram nomeados dessa forma.

7. A “solução” que o picadeiro do Senado produziu para a crise das nomeações é idêntica, no espírito, à que o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, encontrou para a farra das passagens. O que era ilegal (nomear pessoas em segredo) se transformou em legal porque as pessoas nomeadas ocuparam mesas, usaram computadores e foram pagas. No dizer de Sarney, como é que pessoas que trabalharam durante anos poderiam ter sido nomeadas em segredo se elas trabalharam durante anos? Segue-se que as nomeações valeram, sim, independentemente de terem ou não sido publicadas. O fato de isso ser nonsense não parece preocupar o Ministério Público ou o Supremo Tribunal Federal.

8. A desculpa jurídica, baseada na encomenda do “parecer” de algum amanuense especializado nessas operações, representa a falência do Estado de direito. Aqui, definitivamente, isso de rule of law não voga.

9. Com isso, os cupinchas, parentes etc. etc. que deveriam devolver todo o dinheiro que receberam e ser processados criminalmente saíram numa boa. Também escaparam ilesos os funcionários e senadores responsáveis, que também precisariam ter sido processados.

10. É claro que isso resultaria no despovoamento quase integral da Casa. Pragmaticamente, não seria plausível esperar que acontecesse. Mas nem oito nem oitenta. A saída de inocentar todo mundo em bloco torna a instituição do Senado praticante de prevaricação. Desmoraliza-se de forma definitiva.

11. Pois bem, arrumado o problema criminal, o planejamento da operação-abafa que se processa do Senado tem como dénouement o sacrifício de seu presidente. Alguma figura proeminente precisa ser levada ao cadafalso. Sarney é essa figura.

12. (Essa observação não tem o objetivo de inocentar Sarney de nada, seja em relação ao fato de ter se beneficiado sistematicamente de atos ilegais, seja por seu papel deletério na história política do Brasil e do Maranhão. Nem por isso ele deixa de ser o bode que se pretende retirar da sala.)

13. A demissão de Sarney, contudo, teria uma consequência política que, sem dúvida, anima a oposição tucana. É o fato de o primeiro vice-presidente da Casa ser o senador Marconi Perillo (PSDB-GO). Naturalmente, o PT, que se opôs à eleição de Sarney à Presidência do Senado, não gostaria nem um pouco de ver o PSDB controlar o cargo. Para o PT e para o presidente Lula, não é conveniente tirar Sarney dali.

14. Assim, Sarney não pode ficar na Presidência do Senado porque o roteiro “bode na sala” depende de ele sair. Mas ao mesmo tempo Sarney não pode deixar a Presidência porque a ascensão do tucano Perillo não interessa ao governo.

15. A única forma de conciliar uma coisa com a outra seria a renúncia da Mesa inteira. Será interessante observar os lances dessa operação.

16. Mas ninguém tenha dúvidas: no final das contas, a desfaçatez continuará, as ilegalidades terão sido legalizadas e todos seguirão em frente numa boa rumo a 2010.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:

70 comentários para “Bode na sala”

  1. Bem observado. Isso tem sido modestamente debatido no PlunkPlakZum, mas aqui o esclarecimento e abrangência do tema está muito bom! Parabéns!

  2. Renato Cezar Souza disse:

    Tenho Conciência

    Não tenho tempo para fiscalizar e nem acredito em politico

    Voto Nulo..pelo menos faço menos pior do que eleger qualquer nem saber o que ele está fazendo….

  3. Meu amigo não tenho nada mais acrescentar. Todavia, quero lembrar a ORAÇÃO AOS MOÇOS de Ruy Barbosa. Fazendo uma pesquisa do passado do nosso ilustre, descobri que ele não tinha uma vida política tão ilibada. porém pelo vivenciado visualizou o que seria o futuro do BRASIL

  4. Vomitei hoje, será que algum Senador não quer fazer uma boquinha.

  5. Mário Vicente disse:

    o Congresso Nacional, especialmente o Senado é a BASTILHA DO POVO BRASILEIRO: enquanto não cair…azar do povo.
    SUGESTÕES PARA MUDANÇAS: somente críticas não servem; logo, sugiro para mudar o Brasil: a) TODOS os atuais políticos, em TODOS os níveis, tornam-se INELEGÍVEIS POR 20 ANOS (afinal, são os culpados desta por estar o País afundando na lama); b) acaba-se a atual forma de representação, com o FIM DO SENADO (inútil e sem justificativas plausíveis para continuar a existir); c) VOTO DISTRITAL, ou coisa do tipo; d) UM SÓ REPRESENTANTE por estado, em todos os níveis; e) FIM das Câmaras de Vereadores (inúties e focos de corrupção); f) FIM das Assmbléias Legilstativas (pelo mesmo motivo do item anterior); g) Representação popular, em todos os níveis, SEM RENDIMENTOS ou qualquer benefício; h) SE ELEITO, cumprimento de PENA PRÉVIA DE 03 ANOS-somente após poderia assumir, em caráter precário; i) Todo político brasileiro vive às expensas do trabalho do povo; logo, como povo, devem me servir; assim, penso que a melhor forma de me servir é não existindo; j) Se não concordar com os termos antes colocados, não precisa se candidatar, pelo que, seremos muito gratos. k) OU SEJA, MUDAR, MUDAR, MUDAR E MUDAR RADICALMENTE A NOSSA, REPITO, NOSSA FORMA DE NOS REPRESENTAR ( ISTO QUE ESTÁ AÍ NÃO ME SERVE; l) SENÃO, seremos eternamente ludibriados por estes lobos e permaneceremos no “misere” que nos encontramos: uma MONTANHA DE IMPOSTOS; uma MONTANHA de CORRUPTOS; uma MONTANHA de PROBLEMAS INSOLÚVEIS-ESGOTO, EDUCAÇÃO, SAÚDE, ETECETECERA.
    CONCLUSÃO: CADA PAÍS TEM O POLÍTICO QUE MERECE!

  6. Jonir disse:

    Firmino José Torres, tenha a mais absoluta convicção, o culpado de tudo o que está acontecendo com a nossa política, somos todos nós. Reclamamos quatro anos a fio e quando chega as eleições, votamos nos mesmos. Eles não estão lá, se não por nossa expressa vontade. NÓS SOMOS OS CULPADOS. Vivemos reclamando e continuamos VOTANDO NOS MESMOS.

  7. Guilherme disse:

    Estive no site uma vez somente e li agora este artigo. Excelente. I inspirador saber que ha, no Brasil, pessoas como o Sr. Claudio Abramo. Enfim, no Brasil, me parece que ha alguns fatores que comecam a aparecer para algo que deve passar no futuro, mas ainda nao conseguimos ver. E obvio que eleicoes no atual sistema nao muda nada. Votar nulo ou em protesto nao adianta muito. Votar em si e inutil! O nivel de informacao (pelo menos ja que educacao e mais dificil) tem aumentado devido a internet. Simples assim. Agora que temos a internet se infiltrando nos bastidores do poder, mesmo que de leve, nao se pode ignorar o fator intelectual. Eu me pergunto se no futuro nao havera uma guerra civil.

  8. Guilherme disse:

    Gostaria de saber a opiniao do blogueiro sobre o movimento de reforma politica que esta acontecendo.
    Qual a sua opiniao sobre um possivel levante, revoltas armas, violencia e ate uma guerra civil daqui ha15, 20 ou 30 anos.
    Abraco

    Prezado Guilherme: Não há movimento algum. O que há são movimentações de parlamentares no sentido de garantir a sua reeleição por meio da estipulação de condições que dificultam a eleição de novos entrantes. Quanto ao futuro, pertence aos deuses imortais.

  9. Guilherme disse:

    Caro Abramo,
    desculpe insistir mas me referia ao movimento de reforma politica que se espalhou na internet e ja contando com reunioes ha varios meses. Nao participo mas confesso que tem a minha simpatia. O que pensa da ideia de uma Assembleia Constituinte cuja tarefa seria ambas reformas Politica e Judiciaria?
    Com certeza nao ha movimento algum nas esferas politicas formais do poder. Eu acabo de voltar da Franca a passeio e minhas leituras sobre a Revolucao Francesa estao mais vivas do que nunca. Ate minha esposa, que nao gosta(va) muito de historia mudou. O grande problema e que eu vivo nos EUA. Mas apesar disso tenho um profundo sentimento de desespero, tristeza e raiva que so Deus me poupa de sucumbir a eles. A sua france “Absolutismo disfarcado” e verdadeira, muito verdadeira. Acho ate que ficara inadequada. Eu acredito de verdade que o Absolutismo que vivemos hoje podera tomar formas ainda mais perversas. Dai minhas indagacoes qto a uma ruptura social e ate uma secessao dos estados mais ricos. Vou ao Brasil todos os anos. Gostaria de poder fazer alguma coisa.
    Continue firme.

    Prezado Guilherme: Ah. Não enxergo um movimento na Internet (ou em outro lugar). Um movimento supõe organização, traçado de estratégia, ações. O que vejo são manifestações de desagrado com o estado de coisas. Talvez fosse adequada uma Constituinte exclusiva para tratar de três assuntos: reforma política, reforma do Judiciário e reforma do Ministério Público.

  10. Gilvan Cavalcanti disse:

    Omissão é um dos maiores passaportes para o inferno. Para os políticos, inferno significa não reeleição, ou mesmo não eleger a quem apoia. Já dizia um politico pernambucano, que apoiou a ditadura mais recente e que agora é “socialista” , que” o capim cresce na porta daquele que não consegue se eleger: ninguem o visita,sequer. O castigo vem montado a CAVALO, OU DE AVIÃO, OU DE METRÔ. O poder da democracia e do povo , não se iludam, ainda é maior que o “dêles”. Ou vamos acreditar que eles nunca souberam o o que ocorria dentro das nossas Casas? Ora, tudo ali acontece dependendo da ação de uma canetada deles, seja direta ou indiretamente. Será que somos todos burros, ou bodes? A questão é outra. Nada é feito para moralizar. Os interesses são outros e todo mundo sabe. Reflitam senhores do Poder-não-eterno. Tudo um dia acaba e vira outra coisa.

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