Oráculo deletério
Há coisa de um mês publicou-se aqui uma nota, intitulada Sinais confusos, em que se comentaram as atitudes contraditórias do presidente Lula em relação à corrupção. Argumentou-se que, ao lado de evidentes progressos no combate e prevenção à corrupção empreendidos em seu governo, as manifestações do presidente a respeito do assunto transmitem a idéia de que, para ele, corrupção não é um problema.
Os sucessivos escândalos no Senado, quase todos envolvendo direta ou indiretamente o presidente da Casa, José Sarney (ver a nota Sarney para sempre), estimularam o presidente a mais uma declaração na mesma linha.
Do Cazaquistão, onde se encontra, Lula disse a respeito que “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, que “eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois não acontece nada” e perguntou “Mas o que ganharia o Senado em ter uma contratação secreta se tem mais de 5.000 funcionários transitando por aqueles corredores? Por que haveria de ter alguém secreto?”.
O presidente Lula tem um grau de popularidade imenso, superior a 80%. Acredito não haver exemplo mundial de um chefe de governo que tenha chegado ao final de dois mandatos com tamanho prestígio. Em geral, os presidentes e primeiros-ministros afundam-se cada vez mais na impopularidade à medida que se aproxima o final de seus governos.
A imagem imensamente favorável de Lula o transforma em oráculo. Suas falas não são debatidas pelo público em geral como acontece na imprensa e nos blogs (como este), que são consultados ou consumidos pela ínfima parcela da população com renda (e portanto todo o resto, incluindo-se instrução, consciência política, noção de seus direitos, noção de seus interesses etc.) suficiente para se interessar por discussões dessa natureza.
Não seria descabido especular que a esmagadora maioria do público recebe essas falas como orientações de conduta. Se quiserem, princípios morais.
A orientação que Lula exprime quando diz tais coisas é que corrupção, desmandos, abuso de poder, desfaçatez com a coisa pública são problemas menores.
Nem me ocupo de comentar o óbvio disparate de alguém com a história de Lula sair em defesa de alguém com a história de Sarney (como de Renan Calheiros, sócio nas empreitadas senatoriais e também beneficiário de absolvições presidenciais).
Se a conveniência política do governo o leva a firmar alianças com Sarneys, Renans e Romeros Jucás, então, em condições normais, numa situação como a dos escândalos do Senado, o máximo que esses aliados poderiam esperar (e cobrar) do presidente seria que este se mantivesse em silêncio.
Perguntado sobre a última falcatrua no Senado ou na Câmara dos Deputados, o presidente poderia perfeitamente negar-se a responder, com a frase padrão “não vou comentar algo que está ocorrendo em outro poder, pois poderia parecer interferência”.
Politicamente, o fato de Lula não ficar calado e, mais, minimizar os escândalos, parece apontar para uma vulnerabilidade do governo em relação à sua base de apoio parlamentar muito maior do que se poderia depreender das dificuldades legislativas em torno de CPIs, votações de seu interesse e assim por diante.
No julgamento do presidente, a coisa deve estar pretíssima para que ele se exponha publicamente da maneira como está fazendo. Mesmo assim, caso se sinta obrigado a defender Sarneys e Renans etc., haveria formas menos absurdas de fazê-lo.
Mas me desvio. Retornando ao assunto que justifica esta nota, as declarações de Lula disseminam a idéia de que o poder não apenas dá aos seus detentores o direito de cometer desmandos como ainda desqualificam a legitimidade da resistência a desmandos.
O que Lula tem feito nesse particular é uma irresponsabilidade sem tamanho. Caso se tratasse de um presidente com 10% de popularidade, a gravidade seria menor, mesmo que ainda não irrelevante. Para alguém com mais de 80% de popularidade, dotado de uma extraordinária capacidade de falar à alma popular brasileira, cultuado como messias por enormes parcelas da população, dizer as coisas que Lula diz tem efeitos devastadores sobre a capacidade de se melhorar o ambiente institucional brasileiro.
Ao se manifestar como tem feito, Lula trabalha contra o aperfeiçoamento do Estado e contra a edificação da consciência política da população.

Seus políticos safados estão fazendo a festa com o meu dinheiro,seu,e de todos nos brasileiros,que pagamos altos impostos para esses politicos corruptos se fartarem.
Estava comentando com familiares o meu espanto quanto a inércia do Ministério Público Federal no que pertine a adoção de providências contra esta pouca vergonha que se instalou no Senado da República. Parabenizo aos autores da carta aberta ao Procurador Geral da República e indago ao chefe do parquet: O M. Público exercerá suas obrigações constitucionais no combate a corrupção e desrespeito à carta magna por parte do Senado, buscando responsabilizar os gangsters que ocupam a Câmara alta do parlamento brasileiro ou o M.P também está tomado pela leniência e acobertamento diplomático de crimes contra a coisa pública? Com a palavra o novo Procurador Geral da República indicado pelo melhor amigo de Sarney, o compadre Lula.