Sobre um debate na Globo News
Na última sexta-feira participei da gravação do programa “Painel”, da Globo News, apresentado pelo jornalista William Waack. Estavam também presentes o cientista político Bolivar Lamounier e o historiador Marco Antonio Villa.
Por motivos que não vêm ao caso, não pude assistir ao programa, que foi apresentado no sábado às 23h00 e reprisado no domingo às 20h00.
Wedencley Alves, um dos moderadores do grupo de discussões de Mídia do portal de Luis Nassif, assistiu e alertou (ler) que haveria indícios de que a produção do programa cortara pedaços de minhas intervenções quando se discutia uma alegada propensão do presidente Lula em estimular a corrupção.
Alguns visitantes deste blog, que são também leitores do blog de Nassif, cobraram o mesmo. Outras pessoas escreveram à Transparência Brasil pedindo explicações.
É interessante observar que, enquanto alguns — a maioria — solicitaram uma extensão das ponderações que fiz em contraponto à opinião de Lamounier e de Villa de que Lula estimularia ativamente a corrupção, ou teria interesse nisso (foi o que apreendi das posições deles), outros reclamaram de que tais ponderações foram expressas, e que deveria eu ter me alinhado às opiniões dos outros dois participantes da discussão.
Hoje assisti à versão do programa publicada na Internet (a primeira parte está aqui e a segunda, aqui — é preciso grande, enorme, paciência para baixar).
Houve um corte que descreverei abaixo.
Repeti, em síntese, o que já escrevi neste espaço em pelo menos duas ocasiões recentes (Sinais confusos, em 21 de maio, e Oráculo deletério, em 18 de junho. A saber, me parece que o presidente da República tem pouca sensibilidade para o tema da corrupção e que, dada a sua imensa popularidade, as intervenções desastradas que faz nesse terreno têm efeito contraproducente sobre o público.
O corte ocorreu quando Lamounier explorou, em seus argumentos, que o comportamento do presidente entra em choque com a história de seu partido, construída sobre denúncias sistemáticas de corrupção. Contra-argumentei que o divórcio com o que se dizia no passado não é exclusivo dele, e mencionei a famosa frase do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recomendando “esqueçam tudo o que escrevi”. Ao que Lamounier replicou que FHC nunca se manifestou de forma a dar a impressão de que seria complacente com a corrupção, no que concordei.
Deixei de mencionar (porque permiti que a dinâmica da discussão me desviasse) as iniciativas de combate à corrupção tomadas pelo governo Lula, que são significativas.
A respeito do programa, acredito ser importante observar que o relato de Wedencley Alves não reflete o que se debateu. Falou-se de muitos aspectos geradores da crise pela qual passam as instituições legislativas e a própria representação política (todos eles repetidamente comentados neste espaço), sobre os quais basicamente houve concordância e nada tinham a ver com o presidente da República.
Pelo que depreendo, Alves forneceu uma descrição das posições de Lamounier e Villa que os colocou em sistemática acusação ao presidente Lula. Isso certamente não ocorreu. O que não significa que a oposição a Lula, particularmente por parte de Lamounier (isso foi muito menos aparente em Villa, contrariamente ao que Alves afirma), não tivesse se manifestado.
Houve discordância de minha parte quanto ao assunto que dava título ao programa, a pretensa existência de uma “crise moral”. Conforme explicito constantemente em entrevistas, artigos, escritos diversos (incluindo este espaço), tenho aversão pelas explicações de natureza moral ou que remetem à “cultura”, porque não há modo de intervir sobre “a cultura”.
Corrupção tem causa e para combatê-la não adianta lastimar-se ou apontar influências vago-genéricas, mas identificar as disfunções institucionais e corrigi-las. Isso é decorrente de uma atitude radicalmente materialista ante o mundo, que reafirmei no programa. Quando se aludia a valores morais, “cultura” e assim por diante, exprimi objeção. Isso incluiu o trecho em que se falava das atitudes do presidente Lula.
Em suma, pintou-se o debate e suas ramificações com cores muito mais fortes do que minha percepção informa.
Quanto aos pendores ideológicos de cada um dos participantes e do apresentador, deixo o julgamento aos eventuais visitantes.
Tomo a liberdade de frisar que, para formar uma opinião a respeito do debate, é necessário assisti-lo.
Apanhados na farra das nomeações secretas praticadas no Senado por anos a fio, os senadores brasileiros estão encontrando a saída para o problema: ejetar o presidente da Casa, José Sarney, de sua cadeira.
Há tempos, no Brasil, o assunto político mais constante tem sido a corrupção. É impossível abrir um jornal ou assistir a um noticiário de rádio ou TV sem se deparar com alguma nova falcatrua. A invasão dos picaretas é de tal ordem que política, no Brasil, virou sinônimo de caso policial.
Por volta de 660 antes de Cristo floresceu na cidade italiana de Locri (então parte da Magna Grécia) um sujeito chamado Zaleuco.
No que talvez seja a mais famosa definição de política, Niccolò Machiavelli resumiu-a como “a arte do possível”. Referia-se ao fato de que, na política, diferentemente do que na guerra, a contraposição dos interesses por meio da negociação conduz a compromissos.
Maquiavel vem à lembrança como consequência de uma reflexão a respeito do que se observa das reações dos leitores ao se abordarem temas políticos.