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28/05/2009 - 09:08

Um retrato da disparidade

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Um dos projetos da Transparência Brasil é o Deu no Jornal, em que se recolhem todos os dias o noticiário sobre corrupção e assuntos correlatos publicado em jornais diários de todos os estados.

O projeto existe desde janeiro de 2004 e acumula, hoje, mais de 260 mil notícias, num total de 587 milhões de caracteres. É o único banco de dados de notícias livremente acessível existente não só no país como no mundo.

Entre as muitas análises a que esse enorme repositório se presta está o cálculo do alcance do noticiário junto à população de cada estado. O que se verifica nos números é o que se intui da desigualdade regional do país: o fluxo de informação nos estados mais ricos é esmagadoramente maior do que no resto do país.

O mapa descreve a disparidade. A penetração (ou impacto) da informação impressa, estado a estado, é determinada conforme explicado na legenda. Em números, a distribuição é descrita no gráfico seguinte.

A população de Brasília recebe 316 vezes mais informação do que a de Sergipe; a de São Paulo, 264 vezes mais; a do Rio de Janeiro, 237 vezes mais.

Ou seja, considerando-se que um parágrafo típico tem por volta de 250 caracteres, isso significa que para cada parágrafo de noticiário sobre corrupção que a população urbana brasiliense, paulista, fluminense ou gaúcha recebe em média, a população urbana de Sergipe recebe uma única letra, a de Roraima seis letras e assim por diante.

(Caso esses números não pareçam extraordinários à primeira vista, convida-se o eventual leitor a imaginar que seu salário seja dividido por duzentos, ou que em vez de comer uma laranja junto com a feijoada seja convidado a engolir um par de centenas delas.)

O fluxo de informação que chega às pessoas é determinante para as suas decisões, em primeiro lugar as decisões políticas.

Tendo em vista que as populações das regiões mais pobres do país recebem uma quantidade ínfima de informações em comparação com as áreas mais ricas, não é de admirar que votem pior. Como não são informadas de que o candidato a deputado ou a governador está sendo processado por alguma falcatrua (por exemplo), esse fato não entra na decisão do voto.

A desigualdade no fluxo de informação recebido pelos eleitores conforme o lugar em que vivem destrói as interpretações tão comuns de que “brasileiro vota mal”, “o Congresso é retrato do Brasil” e assim por diante. Ninguém pode votar direito (ou tomar qualquer outra decisão, mesmo que seja de compra de um produto no mercado) se não é informado.

Caso o eventual leitor deseje aprofundar-se mais no assunto, é convidado a ler este artigo (em inglês).

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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21 comentários para “Um retrato da disparidade”

  1. [...] os votos no Brasil são como são? Uma explicação de Cláudio Abramo, sobre a disparidade de informações pelo Brasil afora. Assunto para se pensar. (Zander, na [...]

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