Os donos da informação
Publicado na Folha de S. Paulo em 26/2/2008.
Tendo tomado o espaço político nas últimas semanas, o assunto dos cartões, por si só, não justifica CPI. Trata-se de um meio de pagamento como qualquer outro. O que mereceria investigação parlamentar são as condições de controle a que despesas de modo geral são submetidas no Brasil, não apenas no governo federal mas também nos estados e municípios.
Quais estruturas de controle existem? As justificativas para compras são de fato razoáveis? Os bens e serviços adquiridos foram fornecidos conforme as especificações? Os custos ficaram dentro de margens aceitáveis? Há indicadores de desempenho de projetos e programas? Qual é a incidência porcentual de irregularidades?
Caso houvesse interesse na questão mais ampla, se obteria a resposta de que, no Brasil, as condições de prevenção e controle são heterogêneas e geralmente precárias.
No plano federal, alguns ministérios têm controles melhores do que outros. Princípios básicos de acompanhamento são aplicados desigualmente, em boa parte porque a Controladoria-Geral da União, o órgão de controle interno do governo, não tem autoridade sobre os ministérios.
Desde a sua criação, no governo FHC, sempre foi uma repartição da Presidência da República (leia-se Casa Civil). Embora tenha experimentado considerável ampliação de escopo no governo Lula, essa subordinação funcional e política prejudica seu desempenho. Uma CPI do controle precisaria recomendar a desvinculação desse organismo da Presidência e sua transformação em instrumento de Estado, e não de governo.
Seja como for, é indiscutível que, ainda que deficientes, os controles do governo federal são muito melhores do que a média dos estados, para não mencionar os municípios, cuja maioria sequer conta com alguma espécie de controle interno. Disso sabem muito bem (porque são protagonistas do descontrole) tucanos, demos, petistas e o resto. No quintal de cada um deles as coisas são em geral muito piores do que no plano federal.
O episódio dos cartões serviu também para exibir uma das mais graves vulnerabilidades brasileiras, que é a ausência da obrigação formal de o poder público exibir as informações que detém.
Sem informação, não há possibilidade de controle social. Quando a informação é publicada, tanto a imprensa quanto grupos de interesse específicos (como ONGs), assim como a oposição, se tornam capazes de exercer certa vigilância. Foi o que aconteceu com os cartões federais, cujos demonstrativos são publicados no Portal da Transparência mantido pela CGU. Por isso puderam ser examinados pela repórter Sônia Filgueiras, de O Estado de S. Paulo, originando a matéria que desencadeou o caso.
Não há nada semelhante nos estados. Em particular, não há nada parecido em São Paulo, estado que, por sua riqueza, teria a obrigação de dar exemplos. Na tentativa de dar a entender que as coisas são diferentes do que de fato são, o secretário de Fazenda do estado, sr. Mauro Ricardo Machado Costa, declarou à imprensa que as informações relativas à execução do orçamento paulista seriam públicas, sendo o acesso condicionado apenas a um pedido (embora não haja qualquer sinalização nesse sentido na página de Internet da Secretaria).
Ato contínuo, em 12 de fevereiro a Transparência Brasil endereçou ofício ao secretário em que solicitava o fornecimento da inteira base de dados do sistema de acompanhamento financeiro do governo do estado desde que o sistema existe.
Até a presente data o secretário não respondeu.
Em outro episódio recente, a Transparência Brasil enviou a todos os governos estaduais e das capitais, bem como às respectivas Procuradorias-Gerais, ofício solicitando informações sobre o volume de precatórios devidos em cada uma dessas circunscrições. Apenas meia-dúzia respondeu. Entre estes, a Procuradoria do Maranhão – não para fornecer os dados, mas para requisitar esclarecimentos a respeito de por quê queríamos a informação, como se isso fosse da conta deles.
A prática dos hierarcas brasileiros de escamotear informação do público é incompatível com o que se exige do poder público no século 21. Em São Paulo, como no Maranhão e no resto do país, é evidente que o comportamento tem a finalidade de evitar que os atos dos governanetes sejam avaliados. Em vez de tratarem a informação como bem público, no máximo usam-na para fazer autopromoção.
Contra isso, é urgente regulamentar tanto o direito constitucional de acesso a informação quanto o dever de publicidade, conforme prometeu duas vezes o presidente da República durante a campanha eleitoral de 2006, uma delas em entrevista a esta Folha. Projeto de lei nesse sentido encontra-se desde aquele ano parado na Casa Civil sem que se tenha notícia de por quê a promessa do presidente não é cumprida.
