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Arquivo de maio, 2007

03/05/2007 - 13:57

O Arqueiro Verde

Atendendo a pedidos, aí vai artigo de umas semanas atrás no mesmo Diário
do Comércio
:

Li na Internet que alguém se prepara para fazer um filme com o Arqueiro Verde. Esse era um herói de gibi (gibi era como se chamavam as histórias em quadrinhos) que, como dizia o nome, arrostava os malfeitores com arco e flecha.

O Arqueiro tinha um escudeiro, do tipo Robin do Batman, chamado Speedy (não me recordo o nome com o qual foi batizado em português; “Rapidinho”, talvez? não, não creio). Ambos usavam um bonezinho enfeitado com uma pena. Tudo bastante ridículo, como de hábito.

Também pela Internet, aprendo que esse Arqueiro Verde teve diversas encarnações. Pelas imagens disponíveis, perdeu o Rapidinho ou como se chamasse, ganhou músculos e mais uma barbicha de Guilherme Tell.

Sob o ponto de vista técnico, os arcos que o Verde original usava eram muito mal desenhados e as flechas espessas demais. Aquilo não poderia funcionar direito. Havia também um problema sério com a vestimenta do herói. Ele envergava um par de luvas com cano longo, que se abriam no antebraço. Quem já praticou arco e flecha (como é o caso deste que escreve) sabe que, com isso, a corda do arco se chocaria em alta velocidade com o cano da luva e de jeito nenhum a flecha seria lançada. A tentativa certamente terminaria em ferimentos no braço do sujeito, pois a corda vem com tudo, impulsionada pela súbita liberação da tensão do arco. (Flechas têm muito mais penetração do que balas de revólver.) Versões mais modernas do Arqueiro deram conta do problema e o personagem ganhou um protetor de antebraço adequado.

De toda forma, mesmo observando a técnica apropriada, a probabilidade de um indivíduo armado de arco e flecha derrotar malfeitores com metralhadoras não é grande. Só mesmo em gibi.

É com arco e flecha que, no Brasil, se combate a corrupção, que vem municiada de tanques, mísseis teleguiados e hordas de praticantes. Cada vez que as causas reais da corrupção são exibidas, aqueles que teriam por responsabilidade preveni-la sacam do arco e de umas flechas tortas e gastas. Isso quando não olham para o outro lado.

Tome-se, por exemplo, o projeto de emenda à Constituição que proíbe o nepotismo. Se aprovado, detentores de funções públicas serão proibidos de contratar parentes para ocupar funções em sua própria área de atuação.

Pois bem, é difícil posicionar-se contrariamente a uma medida que proíba a contratação de parentes. O problema é que a questão fundamental, a do direito de nomear, permanece intocada. Uma vez que se aprove a proibição da contratação de parentes, haverá a tendência de se considerar que não seria mais necessário mexer com as nomeações.

Ocorre que as nomeações de pessoas para ocupar cargos chamados “de confiança” são responsáveis pela praga do loteamento do setor público. Como o presidente, o governador, o prefeito, os ministtros e secretários, os deputados e os vereadores podem nomear pessoas, eles usam esse poder como moeda de troca para amealhar apoios. Os jornais estão cheios de uma conversinha sobre reivindicações de que ministérios sejam entregues a partidos aliados em regime de “porteira fechada” – a saber, a entrega de inteiras estruturas do Estado a partidos políticos em troca de apoio parlamentar. Não é difícil imaginar o que esses partidos políticos farão lá depois que a porteira for fechada.

Farão o mesmo que os grupos – muitas vezes verdadeiras quadrilhas – que nos estados e nos municípios se valem da ocupação dos espaços públicos para satisfazer a interesses lá deles, e que nada têm a ver com o interesse público.

Os parlamentares que discutem e votam emendas à Constituição sabem muito bem de tudo isso. É por saberem muito bem, e se aproveitarem da liberdade de nomear, que não atacam o problema real.

Em vez de proibir as nomeações de modo geral, mandam o Arqueiro Verde flechar o nepotismo.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/05/2007 - 08:33

Frias

Hoje, no Diário do Comércio de São Paulo:

A primeira vez que ouvi falar de Octávio Frias de Oliveira (proprietário do grupo Folha, morto no último dia 29 de abril) foi em meados da década de 1960, quando meu pai, o jornalista Claudio Abramo, foi trabalhar naquele jornal.

Tive algum convívio profissional com Frias anos mais tarde, quando, por dois breves períodos, trabalhei na Folha. Depois disso, a partir de 2000, encontrei-me várias vezes com ele para tratar de assuntos do interesse da Transparência Brasil junto ao jornal.

As lembranças que me ficam de Frias são, portanto, de três tipos diferentes – decorrentes da crônica familiar, profissionais como jornalista e profissionais como dirigente da Transparência Brasil. Pessoalmente, a relação sempre foi muito acolhedora e carinhosa.

Receio que a curiosidade do eventual leitor se dirija mais para as relações entre Claudio Abramo e Frias, e não entre Frias e este que escreve, o qual não tem importância nenhuma na ordem das coisas. O impacto daquelas relações sobre a Folha, o jornalismo brasileiro e o processo de redemocratização do país têm sido objeto de relatos (poucos) e interpretações (muitas) em livros, artigos, comentários de jornalistas etc. Este que escreve tem muito pouco a acrescentar a tudo isso. Já o fiz anos atrás, brevemente, em artigo que saiu no Observatório da Imprensa, de forma que me eximo de repetir aqui o que foi escrito lá.

De toda forma, vale a pena ler o livro “A Regra do Jogo”, organizado por mim a partir de depoimentos de Claudio Abramo a vários jornalistas. O livro reúne também reportagens e artigos de meu pai. (Ao que tenho notícias, o livro é pouco usado em escolas de jornalismo, embora, parece, seja reeditado regularmente.)

Frias prestava atenção especial no caderno de Economia. Como numa de minhas passagens pelo jornal fui editor dessa área, meu contacto com ele era muito freqüente, seja no que diz respeito ao cotidiano da apuração e da edição, seja nuns almoços que aconteciam quase toda semana com a presença de algum empresário ou político. A regra desses almoços era que tudo o que transcorresse seria em off (ou seja, não era para ser publicado), a menos que explicitamente acordado em contrário.

O resultado é que se aprendia muitíssimo. Frias gostava muito de estimular conflitos entre o visitante e alguém do jornal, não raro ele mesmo. Tais embates podiam ser muito didáticos, pelo que revelavam a respeito de setores, pessoas, a natureza humana.

A Folha tinha também o hábito de realizar um almoço semanal que reunia Frias, a direção do jornal (Otavio Frias Filho e os então chamados secretários de Redação, dos quais havia dois) e os editores. Falava-se de uma porção de coisas relacionadas ao jornal, em geral chatices relacionadas à administração de uma estrutura enorme, meio disforme, com cadeias hierárquicas imprecisas, problemas em geral insolúveis de disciplina profissional e cheia de ineficiências, como é todo jornal.

Desse convívio limitado que tive pessoalmente com Frias extraio algumas impressões. Era uma pessoa extremamente objetiva, muito inteligente e muito sagaz na identificação dos interesses em jogo em cada situação, naturalmente os do jornal em primeiro lugar. Isso se refletia na forma como abordava os assuntos internos do jornal (tanto administrativos quanto jornalísticos) e externos.

Frias só fazia alguma coisa se era do interesse da empresa. Se numa negociação interna ou relativa a alguma proposta de parceria não reconhecia algum interesse para a Folha, não havia força no mundo que o fizesse ceder. De forma que, na negociação com Frias, o interlocutor que se apresentasse mal preparado, ou não tivesse grande coisa a oferecer, tinha grande probabilidade de não obter o que queria ou de sair tosquiado. Embora para alguns jornalistas isso parecesse perverso, trata-se de uma característica corriqueira e esperada, em particular de empresários.

Pelo que representou em minha vida, sentirei falta.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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