O Arqueiro Verde
Atendendo a pedidos, aí vai artigo de umas semanas atrás no mesmo Diário
do Comércio:
Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:Li na Internet que alguém se prepara para fazer um filme com o Arqueiro Verde. Esse era um herói de gibi (gibi era como se chamavam as histórias em quadrinhos) que, como dizia o nome, arrostava os malfeitores com arco e flecha.
O Arqueiro tinha um escudeiro, do tipo Robin do Batman, chamado Speedy (não me recordo o nome com o qual foi batizado em português; “Rapidinho”, talvez? não, não creio). Ambos usavam um bonezinho enfeitado com uma pena. Tudo bastante ridículo, como de hábito.
Também pela Internet, aprendo que esse Arqueiro Verde teve diversas encarnações. Pelas imagens disponíveis, perdeu o Rapidinho ou como se chamasse, ganhou músculos e mais uma barbicha de Guilherme Tell.
Sob o ponto de vista técnico, os arcos que o Verde original usava eram muito mal desenhados e as flechas espessas demais. Aquilo não poderia funcionar direito. Havia também um problema sério com a vestimenta do herói. Ele envergava um par de luvas com cano longo, que se abriam no antebraço. Quem já praticou arco e flecha (como é o caso deste que escreve) sabe que, com isso, a corda do arco se chocaria em alta velocidade com o cano da luva e de jeito nenhum a flecha seria lançada. A tentativa certamente terminaria em ferimentos no braço do sujeito, pois a corda vem com tudo, impulsionada pela súbita liberação da tensão do arco. (Flechas têm muito mais penetração do que balas de revólver.) Versões mais modernas do Arqueiro deram conta do problema e o personagem ganhou um protetor de antebraço adequado.
De toda forma, mesmo observando a técnica apropriada, a probabilidade de um indivíduo armado de arco e flecha derrotar malfeitores com metralhadoras não é grande. Só mesmo em gibi.
É com arco e flecha que, no Brasil, se combate a corrupção, que vem municiada de tanques, mísseis teleguiados e hordas de praticantes. Cada vez que as causas reais da corrupção são exibidas, aqueles que teriam por responsabilidade preveni-la sacam do arco e de umas flechas tortas e gastas. Isso quando não olham para o outro lado.
Tome-se, por exemplo, o projeto de emenda à Constituição que proíbe o nepotismo. Se aprovado, detentores de funções públicas serão proibidos de contratar parentes para ocupar funções em sua própria área de atuação.
Pois bem, é difícil posicionar-se contrariamente a uma medida que proíba a contratação de parentes. O problema é que a questão fundamental, a do direito de nomear, permanece intocada. Uma vez que se aprove a proibição da contratação de parentes, haverá a tendência de se considerar que não seria mais necessário mexer com as nomeações.
Ocorre que as nomeações de pessoas para ocupar cargos chamados “de confiança” são responsáveis pela praga do loteamento do setor público. Como o presidente, o governador, o prefeito, os ministtros e secretários, os deputados e os vereadores podem nomear pessoas, eles usam esse poder como moeda de troca para amealhar apoios. Os jornais estão cheios de uma conversinha sobre reivindicações de que ministérios sejam entregues a partidos aliados em regime de “porteira fechada” – a saber, a entrega de inteiras estruturas do Estado a partidos políticos em troca de apoio parlamentar. Não é difícil imaginar o que esses partidos políticos farão lá depois que a porteira for fechada.
Farão o mesmo que os grupos – muitas vezes verdadeiras quadrilhas – que nos estados e nos municípios se valem da ocupação dos espaços públicos para satisfazer a interesses lá deles, e que nada têm a ver com o interesse público.
Os parlamentares que discutem e votam emendas à Constituição sabem muito bem de tudo isso. É por saberem muito bem, e se aproveitarem da liberdade de nomear, que não atacam o problema real.
Em vez de proibir as nomeações de modo geral, mandam o Arqueiro Verde flechar o nepotismo.
