Um mundo à parte
Hoje, no Diário do Comércio de São Paulo:
Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:Apesar de toda a agitação dos últimos anos em torno do comportamento de parlamentares, a turma continua a agir como se nada tivesse acontecido. Os exemplos abundam Brasil afora. Destaco dois, ambos oriundos do estado da Bahia.
Um dos implicados no caso do mensalão foi o então deputado federal Josias Gomes (PT-BA). Foi acusado de ter sacado R$ 100 mil das contas de Marcos Valério no Banco Rural, em Brasília. Ele afirma que foi ao banco negociar um empréstimo. Segundo depoimento de um gerente do banco, assim que sacou os recursos realizou várias transferências para parentes. Deixou cópia de sua carteira de parlamentar na agência. Com a repercussão do caso, renunciou à presidência do PT baiano. Teve a cassação recomendada pelo Conselho de Ética. Tentou renunciar, mas perdeu o prazo. Foi absolvido em plenário. Não chegou a ser incluído na denúncia do Ministério Público ao STF, mas está na lista de investigados pela Receita Federal.
O sr. Gomes se candidatou à reeleição em 2006, mas a pretensão não vingou. O eleitor baiano deixou-o a ver navios. Mas o sr. Gomes não se apertou. Notícia publicada anteontem (20/3) no jornal baiano “A Tarde” dá conta de que Gomes “foi indicado pela bancada do PT na Assembléia Legislativa para assumir a superintendência parlamentar da Casa, cargo que tem como teto salarial o valor de R$ 13.194. A Superintendência Parlamentar é responsável pelo apoio técnico e legislativo a todos os deputados.
“O deputado estadual Zé das Virgens, líder do PT na Assembléia, justificou a indicação de Josias ao cargo pela experiência que adquiriu como presidente do PT da Bahia e pelo mandato de deputado federal na última legislatura. “Não podemos deixar um companheiro que tem todo esse acervo, todos esses pontos positivos excluído e execrado. Ele (Josias) não foi cassado.”
A esta altura, seria o caso de marcar “pano rapidíssimo”. Ainda não.
Nos últimos dias, a mesma Assembléia Legislativa baiana aprovou uma ampliação do número de “assessores parlamentares” de seus valorosos integrantes de 20 para 26.
Cada deputado da Bahia pode nomear nada menos de 26 pessoas para ocupar cargos em seu gabinete.
O quê, precisamente, fazem esses indivíduos? O pretexto é que auxiliariam os deputados em suas lides parlamentares. Como a Assembléia baiana tem 63 deputados, isso quer dizer que no agregado geral os gabinetes passam a abrigar um total de 1638 assessores.
Tomando-se pelo valor nominal, esse pessoal todo deve esttar freneticamente realizando estudos sobre a eficácia dos programas do governo estadual, montando indicadores de desempenho para melhor monitorar o que acontece no Executivo, preparando avaliações da proposta orçamentária, comparando a eficácia dos programas com os montantes destinados a eles, examinando detidamente contratações realizadas pelas secretarias, montando projetos de lei destinados a atacar problemas sociais e econômicos etc.
Com tanta gente industriosa, devemos esperar para breve dos insignes próceres baianos uma catadupa de projetos e iniciativas revolucionárias, que transformarão para sempre a relação entre Executivo e Legislativo naquele estado e, em três tempos, induzirão transformações administrativas com repercussões mundiais pelo ineditismo e audácia.
Mas não se deve comprar o peixe conforme o vendedor nos apresenta. É claro que essa história de assessor ser necessário para o cumprimento das funções parlamentares não passa de conversa fiada. Na Bahia, como em São Paulo ou Sergipe, esses assessores parlamentares não passam de cabos eleitorais.
Recebem salários que nós pagamos não para cumprir qualquer papel relacionado à atuação dos deputados, mas para assegurar a reeleição do dito-cujo (quando não é para coisa muito pior).
Esse festival de contratações é só mais uma das dimensões do loteamento do Estado brasileiro entre interesses privados, que é garantido por nossa Constituição.
Da mesma forma que o Executivo federal é ocupado por nada menos de 24 mil pessoas nomeadas arbitrariamente, ou o correspondente paulista abriga 20 mil desses felizardos, juízes e promotores públicos fazem o mesmo. Por que não os deputados?
