Um mundaréu de dinheiro
Coluna de hoje no Diário do Comércio de São Paulo:
Folguedos momescos (era assim que, antanho, os jornais se referiam ao Carnaval) servem para arrumar a casa, botar fora caixotes inteiros de coisas que alguns anos atrás foram guardadas porque algum dia poderiam se revelar importantes, desfazer-se de pulôveres que há anos não são envergados, consertar o varal que quebrou, substituir tomadas, reconfigurar microcomputadores e, de modo geral, colocar em dia pelo menos alguns dos deveres domésticos que vão sendo negligenciados ao longo do ano.
O Carnaval também serve para trabalhar em casa, o que é uma boa. Entre o sábado e a manhã de Quarta-Feira de Cinzas, este que escreve dedicou-se a procurar entender as contas de algumas empresas estatais. Acontece que, por determinação do Tribunal de Contas da União, as estatais federais precisam publicar todos os dados referentes a contratos e aquisições extra-contratos que fazem.
Como seria de esperar, a fidelidade com que fazem isso varia, como também varia a facilidade em se obterem dados agregados. Em alguns casos, é bem difícil. Contudo, como os dados estão lá de alguma forma, basta um pouco de aplicação técnica que se consegue recuperá-los em planilhas, e a partir daí fazer as agregações.
Nos casos que passo a relatar, conseguiu-se capturar os dados por meio da construções de rotinas de consultas sistemáticas aos diferentes bancos de dados. Dois computadores de casa passaram aí por volta de 48 horas recolhendo informações, filtrando-as e reorganizando-as. É o que se chama “garimpagem de dados”. A turma que ouviu isso por aí e que aprecia gastar o ingrês talvez conheça como “data mining”.
Eis um pouco do que se descobriu no caso da Petrobras. Os exemplos são apresentados mais como fruto de um passeio incidental do que como reflexo de maiores pretensões analíticas.
A Petrobras é a maior estatal e também a maior empresa produtiva brasileira (é claro que não se podem contar bancos como produtivos). Entre fevereiro de 2006 e janeiro de 2007, a Petrobras firmou 8.266 contratos. Observe-se que a Petrobras tem um regulamento próprio para licitações, não sendo obrigada a seguir a lei 8.666/93.
A soma dos montantes contratados foi de R$ 37.841.566.290,00. É isso mesmo – quase R$ 38 bilhões de reais. As vigências desses contratos variam bastante, mas a maioria é igual ou inferior a um ano.
Contratos com empresas estrangeiras corresponderam a um terço disso. Muitos dizem respeito a afretamentos de petroleiros, mas há também serviços relacionados à perfuração de petróleo. Por exemplo, com a holandesa Baker Hughes Nederlands B.V. a Petrobras contratou a bagatela de R$ 715.731.381,54 para a prestação de “serviços de sistemas de perfuração – tecnologia avançada”. O mesmo tipo de serviço aparece num contrato de R$ 468.936.452,78 com a norte-americana Halliburton Energy, firmado dois meses depois. Como a modalidade de licitação empregada foi o convite, fica-se imaginando que essas duas empresas participaram da disputa e depois uma ficou com uma parte grande e outra com uma parte menor. Somando-se os dois valores e calculando-se as porcentagens respectivas, chega-se a uma quase perfeita razão 60/40. Interessante.
Há uma porção de outras curiosidades que afloram da análise dos dados agregados. Uma delas é que, dos quase R$ 38 bilhões contratados em 2006, mais de R$ 7 bilhões resultaram de dispensas ou inexigibilidades de licitação, ou seja, processos em que não houve disputa.
Entre as empresas brasileiras ou instaladas no Brasil que conquistaram contratos com a Petrobras sem ter de passar pelo aborrecimento de uma concorrência, as campeãs são as seguintes: SAP Brasil LTDA., para “licenciamento de software da SAP e manutenção”, com validade de 100 anos, por pouco menos de R$ 287 milhões. A Associação Brasileira de Engenharia foi contemplada com um convênio de R$ 229 milhões (a finalidade não é explicada) até 2008. A Subsea7 do Brasil Serviços LTDA. prestará serviços de “instalação e recolhimento de dutos” até 2012, a um custo de pouco mais de R$ 166 milhões.
Para peculiaridades das outras estatais pesquisadas, favor voltar a esta coluna na semana que vem.
